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Olhar para essa corrida na qual apagamos as velas dos 70 anos da Fórmula 1 sem aplaudir o grande trabalho dos organizadores é simplesmente impossível.

No meio de pandemia, pressão de acionistas, contratos milionários escorrendo pelo ralo, saímos da Áustria e Hungria achando que o campeonato seria um tédio medonho quando chegasse no balanço hipnotizante de Silverstone.

A corrida desse final de semana tem o dedo dos organizadores no seu resultado e foi imprevisível desde o começo dos treinos livres.

A vitória retumbante de Max vem de uma construção cuidadosa durante todo o fim-de-semana. Diferentemente do final de semana anterior, o carro do holandês não esteve perto dos Mercedes nos treinos livres. Parece que, como por um milagre, alguém na Red Bull, leu o regulamento esportivo. Lá está escrito que treino livro não conta pontos para o Mundial e decidiram focar no ritmo de corrida.

Dos treinos livres para a classificação, tudo preparado para o golpe na Mercedes: pneus duros no Q2. Max passou com quase 0.3s de segurança para o Q3. Estavam garantidos e com a estratégia definida. Uma sonolenta e acomodada Mercedes tinha tempo e pneus suficientes para a fazer a estratégia com ao menos um de seus pilotos. Soberba da vitória certa?

Fato que os Mercedes são os carros com maior quantidade de downforce no grid, com o motor mais potente do grid para empurrar todo esse downforce nas retas. O que acontece com os pneus nessa combinação? O que Bottas disse, desolado, na entrevista pós-GP: meus pneus estavam em ebulição.

Junte a isso a orientação da Pirelli em usar mais pressão em pneus mais macios do que os usados no fim de semana passado. Mais pressão no pneu, mais calor na borracha. Mais calor na borracha em condições normais, menos chances de forçar o equipamento e despejar toda a potência de seu motor. Estava mais quente também esse final de semana do que no GP anterior, coisa pouca, mas mais quente.

Essa combinação explodiu o o fim-de-semana da Mercedes e das grandes explosões sempre aparece algo novo.

Max Verstappen foi brilhante na condução do carro durante o fim-de-semana. A Red Bull já declarou que o carro dele é o “estado da arte” que sai da fábrica. Tudo de bom vai pra ele, depois, quando sobra um tempinho, colocam no carro de Albon. Nada, absolutamente nada errado nisso e esse fim de semana é a prova: a Red Bull aposta no piloto que entrega o resultado quando puxado ao limite (ou limite extremo, como diria o glorioso Galvão Bueno).

Não só na condução precisa e gentil com os pneus, mas também questionando a matemática fria de seu engenheiro. Na volta 11, Max se recusa a “poupar” o carro. Isso lhe faria ter uma corrida normal, lhe privaria de uma chance real de vitória. Não, Max negou ao engenheiro uma direção similar a sua querida avó e continuou pressionando os problemáticos Mercedes.

Após a primeira parada, um Bottas zero combativo foi protagonista de um dos momentos-chave da corrida: Verstappen lhe passa com extrema facilidade na volta 28. Sem uma “fechada de porta”, sem uma sequência de curvas sequer aguardando a ultrapassagem eminente na reta seguinte com DRS, Bottas não impõe nenhum prejuízo a Max na sua cruzada rumo a vitória.

Esse movimento de Max e a falta de movimento de Bottas, jogam a última pá de cal na tentativa da Mercedes vencer a corrida. Desde a volta 19, os dois carros alemães já buscavam diminuir o ritmo para tentar uma só parada. Não funcionaria para Bottas, mas poderia funcionar para Hamilton.

Outro ponto fundamental na vitória de Max foi conquistado na largada. Se colocar imediatamente atrás da Mercedes antes da primeira volta lhe permitiu completo domínio do seu ritmo e estado dos pneus. Mérito total do holandês fazendo o necessário para sua estratégia da classificação funcionar.

Nesse momento também fica a dúvida sobre os desdobramentos da prova na eventualidade de Hamilton ter passado por Bottas na primeira volta. O “se”, não ganha corrida, mas com ar limpo é possível que Hamilton pudesse ter um desfecho melhor de seu final-de-semana.

A corrida foi caótica também para os participantes do meio do pelotão. Mesmo com pouco espaço na transmissão pela evidente tensão entre os 3 primeiros, tivemos atividade intensa por todo o grid.

Começando na curva número 1 do circuito com mais um erro magnifico de Vettel. Rodou. Sozinho. Sozinho. Claramente Vettel está pensando em qualquer coisa diferente do que essa carroça chamada Ferrari. Mas seria importante não cometer erros tão ridículos enquanto seu companheiro de equipe continua colecionando os pontinhos que sobram.

Ao final do pelotão se juntou Albon com uma estratégia diferente, parando muito cedo para andar um pouco sozinho. Era só a 7º volta da prova quando ele decidiu entrar nos box. Nas 45 voltas restantes, Albon fez um prova decente, escalando o pelotão até o 5º posto. A mesma estratégia de Albon foi tentada por Gasly, mas sem o mesmo sucesso. Realmente a Alpha Tauri não tem o mesmo equilíbrio do carro da Matriz

O resultado da prova não é um problema para Hamilton. Mesmo não vencendo, ele mantem os 30 pontos de vantagem para o segundo colocado. Para a Mercedes, o problema de ter zerado nos pontos em uma prova é ter perdido o segundo posto no campeonato. Nesse campeonato curtinho, um abandono (ou uma quarentena) pode custar muito caro.

1 – Lewis Hamilton – GBR – MERCEDES – 107
2 – Max Verstappen – NED – RED BULL RACING HONDA – 77
3 – Valtteri Bottas – FIN – MERCEDES – 73
4 – Charles Leclerc – MON – FERRARI – 45
5 – Lando Norris – GBR – MCLAREN RENAULT – 38
6 – Alexander Albon – THA – RED BULL RACING HONDA – 36
7 – Lance Stroll – CAN – RACING POINT BWT MERCEDES – 28
8 – Sergio Perez – MEX – RACING POINT BWT MERCEDES – 22
9 – Daniel Ricciardo – AUS – RENAULT – 20
10 – Esteban Ocon – FRA – RENAULT – 16

Pela primeira vez a Rancing Point conseguiu uma corrida sem grande problemas e o resultado foi uma corrida segura com seus dois pilotos recuperando os pontos da punição recebida pelo time durante a semana (fizeram 14 dos 15 pontos de punição). Isso mostra que a punição realmente foi muito branda e fica claro o motivo de nervosismo dos demais times. A política dos bastidores (tão próximos da assinatura do novo “Pacto de Concórdia”) vai estar quentíssima nessa semana. Não punir severamente a Racing Point agrada demais um Toto Wollf que pode determinar o futuro de ao menos duas equipes na F1. Enquanto isso, o novo super-sub da F1, Nico Hulkeberg, mostrou ao mundo que não precisa mais do que um final de semana para alguém sentar no carro e ser mais rápido que o Lance Stroll. Além disso, cumpriu seu papel direitinho deixando o filho do dono passar com um pit stop extra no finalzinho da prova.

Um pouco atrás deles, a turma de motores Renault vem trocando tintas a temporada toda. Renault e Mclaren estão mantendo um mesmo nível de performance de seus carros durante as provas, com ambos os times bem abaixo do ritmo de classificação. Estão sim dentro do esperado, deixando espaço para seus pilotos mostrarem suas habilidades para se livrarem desse pelotão tão embolado. Nesse domingo, Ricciardo cometeu um raro erro em uma ultrapassagem e botou uma boa corrida no lixo. No 31º giro, em disputa com Carlos Sainz, acabou perdendo o controle da traseira do carro e rodou sozinho.

Logo na sequência da rodada de Ricciardo, veio o xeque-mate da Red Bull nas pretensões da Mercedes de lutar pela vitória. Vamos lembrar que as equipes podem ouvir o rádio dos concorrentes, certo? Alguém gritou o famoso “box, box, box” para Bottas e a turma da Red Bull apostou que não era blefe e trouxe Max Verstappen ao pit também. Só 6 voltas de pneu, mas a frente de uma Mercedes com a mesma condição de pneus. Acabava ali o sonho de Bottas de chegar a liderança. Lembram do começo da prova que Bottas não combateu Max numa manobra que lhe custaria alguns segundos fundamentais? Aqui o preço dessa falta de combatividade foi cobrada.

Agora a única chance da Mercedes seria uma tática suicida de fazê-lo chegar ao final da prova com só uma parada. Impossível, e Hamilton vem para mais uma parada faltando 10 voltas para o final da corrida. Tendo que ultrapassar uma Ferrari sem asa e Bottas, seria impossível chegar em Max com tempo de ultrapassá-lo. Mas Hamilton ainda tentou e garantiu assim o segundo posto do dia.

O rádio da equipe para os dois pilotos não deveria causar surpresa como causou na transmissão. Oras bolas, era Bottas que estava na frente com um pneu com o dobro de rodagem em suas bandas. Logico que estariam liberados pra “disputa”, ela não haveria. Surpresa seria se as posições estivessem invertidas, onde o normal seria ouvir um “tragam os carros pra casa, meninos”.

Pra fechar, não vamos deixar de notar o pastelão da Haas. Além do instinto assassino de Magnussen que quase matou Latifi, o seu carro foi retirado da prova por falta de pneus para um último trecho. Isso mesmo, gastaram tudo nos treinos e na corrida e só sobrou um joguinho de macios. Impressionante!

A Haas hoje parece um time que desistiu da Formula 1 e só está cumprindo seus acordos comerciais. A começar pela manutenção em 2020 dessa dupla de pilotos.

Max e a Red Bull mostraram esse fim-de-semana que trabalhando direitinho nas condições de alta temperatura, eles podem ser competitivos em ritmo de corrida com as Mercedes.

São muitas variáveis em 2020 para cravar um título certo de Hamilton, mas sem dar chance para o azar ele continua sendo o piloto mais eficiente do grid em condições adversas. Apesar da derrota nessa prova não dá para tirar um milímetro do seu favoritismo para o título desse ano.

Mais alguns poucos dias e todo mundo reunido novamente em Barcelona. A pista-padrão da Formula 1 tem tudo para ver um bom passeio das Mercedes. Aguardaremos para ver se não seremos surpreendidos novamente!

Boa semana!
Abraços
Flaviz

Flaviz Guerra
Flaviz Guerra
Apaixonado por automobilismo de todos os tipos, colabora com o GPTotal desde 2004 com sua visão sobre a temporada da F1.

1 Comment

  1. Fernando Marques disse:

    “Max e a Red Bull mostraram esse fim-de-semana que trabalhando direitinho nas condições de alta temperatura, eles podem ser competitivos em ritmo de corrida com as Mercedes.”

    essa é a unica esperança de poder ver um campeonato realmente bem disputado em 2020 …

    E reparem que quando alguém chega perto do rendimento da Mercedes, como foi o caso da RBR neste fim de semana, ela sempre tem gorduras de sobra pra queimar … aguardemos os próximos capitulos

    em todo caso é sempre prazeroso assistir uma corrida onde a Mercedes não seja a maior protagonista …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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