Rave na Pedra Prateada

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Daqui a muitos anos, quando algum jovem estiver pesquisando como se desenvolveu a temporada 2022 da Fórmula 1, irá se deparar com os registros informando que Carlos Sainz Jr. conquistou no GP britânico tanto sua primeira pole position quanto sua primeira vitória na categoria rainha do automobilismo esportivo, justo na ocasião em que alcançava a marca de 150 largadas. Todavia, se nosso amigo pesquisador do futuro se der ao trabalho de buscar a transmissão da prova completa, provavelmente irá concluir que Sérgio Pérez, Lewis Hamilton, Charles Leclerc e possivelmente Max Verstappen tiveram atuações individuais mais fortes do que a do piloto espanhol. Como, então, explicar o resultado da corrida?

Tudo, é claro, sempre começa no treino de classificação. A exemplo do que já havia ocorrido no Canadá, o grid de largada foi definido sobre pista molhada e aderência variável, agregando uma sempre bem-vinda dose de desafio e imprevisibilidade à busca pelos limites de carro e pista. Sob tais condições, Carlos Sainz teve o mérito de superar Verstappen por 72 milésimos e o companheiro de equipe, Charles Leclerc, por pouco mais de 3 décimos. Sérgio Pérez, o 4º, ficou a pouco mais de 6 décimos de segundo do pole. A seguir, Lewis Hamilton – que sempre andou muito bem em Silverstone – superou o companheiro George Russell na pista molhada por exíguos, mas fundamentais, 166 milésimos de segundo. Apesar da proximidade dos tempos marcados pelos pilotos da Mercedes, entre ambos infiltraram-se a McLaren de Lando Norris e a Alpine de Fernando Alonso.

Apagadas as luzes vermelhas, tanto Russell quando Guanyu Zhou, 9º no grid, partiram muito mal. Latifi, o 10º, rapidamente passou por entre os dois, e Gasly, 11º, tentou fazer o mesmo, mas viu o espaço se afunilar à medida em que Russell continuou a trazer seu carro para a esquerda, aparentemente ignorando sua presença. Percebendo que seria ensanduichado, o francês recuou, mas já era tarde demais. Ao cortar o próprio avanço, teve a roda dianteira direita colhida pela traseira esquerda de Russell – indubitavelmente o piloto responsável pelo acidente. O impacto fez com que a Mercedes apontasse para a esquerda, indo de encontro à Alfa de Zhou, que capota e segue se arrastando de cabeça para baixo por toda a longa área de escape, até decolar na caixa de brita e girar por sobre a barreira de pneus, indo parar, de lado e espremida, entre a barreira e a tela de proteção.

A dinâmica do acidente terminou por vencer a resistência do santantônio, tornando o halo novamente protagonista entre os aparatos de proteção ao piloto. E não foi a primeira vez que isso aconteceu ao longo do fim de semana. Horas antes, na Fórmula 2, Roy Nissany havia empurrado Dennis Hauger para fora da pista, apenas para ser atingido logo à frente pelo carro que havia condenado ao descontrole. Pior: o bólido de Hauger havia sido arremessado ao ar pela zebra absolutamente inadequada, e se não fosse pela proteção do halo corríamos o risco de testemunhar a cena grotesca de uma cabeça sendo arrancada ao vivo, numa apropriação em velocidade automobilística do célebre ditado “aqui se faz, aqui se paga”.

Aos poucos, a estranheza estética do aparato começa a dar lugar à pergunta inevitável: como, afinal de contas, pudemos correr tantos anos sem esse tipo de proteção a quem pilota?

A corrida naturalmente foi paralisada, e o saldo incluía o abandono de Albon, tocado por Vettel em meio às tentativas generalizadas de evasão aos carros desgovernados, além dos de Zhou e Russell, e ainda danos de maior ou menor gravidade aos carros de Ocon, Gasly e Tsunoda, que puderam ser reparados ao longo dos 53 minutos de paralisação.

Por mais sério que tenha sido, o acidente talvez possa ser interpretado em alguma medida como providencial. No momento da primeira largada, ativistas de alguma forma conseguiram acesso à pista e se posicionaram em protesto na reta Wellington, sendo rapidamente removidos. Em minha pesquisa rápida, não consegui levantar quais as motivações do protesto em questão. Os amigos que eventualmente tenham mais informações sintam-se convidados a compartilhar conosco nos comentários.

Na primeira largada Verstappen, de pneus macios, havia superado Sainz, calçado com pneus médios, com grande facilidade e praticamente sem resistência. No segundo arranque, contudo, todo mundo parecia disposto a medir forças. Com os carros de volta às posições definidas pelo treino classificatório, Max novamente saltou melhor, mas dessa vez foi duramente espremido por Sainz, que se manteve por fora no mergulho da Abbey, consolidando a liderança no contorno da Farm. Pérez a essa altura havia superado Leclerc e atacava o próprio companheiro de equipe na abordagem da Village, lançando as bases para a imagem rara e insustentável de quatro carros, em linhas paralelas, atacando ao mesmo tempo a curva Loop. Enquanto Max tentava uma trajetória externa à de Sainz, Pérez tomou o caminho oposto e mergulhou por dentro, sem imaginar que Leclerc já tinha parte do próprio carro a seu lado esquerdo e iria mergulhar em trajetória ainda mais interna, talvez interna demais. De fato, logo iria faltar pista para o monegasco, que de modo inevitável iria se chocar com o mexicano.

Os dois carros sairiam danificados desse encontro, mas o momento era quente demais para que tal inventário pudesse ser levantado de imediato. Na reta Wellington Sainz seguia na liderança ao passo que Verstappen era atacado por Leclerc, com Pérez a seguir, logo à frente de Hamilton e Norris, em disputa igualmente acirrada e que momentaneamente seria vencida pelo mais jovem. No mergulho da Brooklands Leclerc se posiciona por fora, buscando ficar por dentro na Luffield, com boas chances de concretizar a ultrapassagem. Max, no entanto, alarga a trajetória jogando o rival para fora da pista sem qualquer cerimônia, numa postura que só nos resta condenar.

Ao fim dos confrontos iniciais, a classificação se estabelece com a seguinte ordem: Sainz, Verstappen, Leclerc, Pérez, Norris e Hamilton. Considerando o que dissemos no primeiro parágrafo, é hora de começar a entender como os melhores pilotos do dia acabaram sendo afastados do degrau mais alto do pódio. Começando por Pérez, logo ficou claro que o bico do mexicano havia sido danificado, não estava gerando a carga aerodinâmica desejada, e fazia sentido trocá-lo ainda no início da corrida. Na sexta volta ele ruma aos boxes, e só não cai para a última posição porque Vettel também tinha ido aos boxes. Com pista livre e um carro novamente equilibrado, Sérgio fará um stint de muita qualidade, que o permitirá reencontrar os líderes no momento decisivo da disputa.

Enquanto Pérez ia aos boxes Lewis Hamilton fazia uso do DRS – sempre muito efetivo em Silverstone, onde é necessário usar muita asa – para alcançar a quarta posição. Empurrado pela torcida e numa pista onde sempre andou especialmente bem, Lewis fez um stint inicial brilhante, digno de um multicampeão, não apenas pelo ritmo que foi capaz de imprimir, mas também pelo tempo que conseguiu sustentar a entrega de desempenho dos pneus macios que calçava. De fato, ele foi majoritariamente o piloto mais rápido na pista, e durante a parte central da corrida restou a impressão de que teria condições de conquistar uma das maiores vitórias de sua carreira.

À frente dele, Leclerc lutava para arrancar desempenho de um carro que também havia sido danificado no toque com Pérez, mas de algum modo ainda girava ligeiramente mais rápido que o companheiro de equipe, a essa altura sendo impiedosamente caçado por Verstappen na luta pela liderança. Vale observar aqui que, em condições normais, provavelmente teria sido Max o vencedor do dia, e o erro cometido por Sainz na décima volta, quando perde a traseira de seu carro pouco antes da Reta do Hangar e acaba sendo superado pelo atual campeão do mundo, apenas reforça essa impressão. Por que, então, não foi Max o vencedor da prova?

Bom, ocorre que as tais “condições normais” iriam durar por apenas duas voltas. Na volta 12 Verstappen seria superado na mesma Reta do Hangar, o carro subitamente mostrando-se desequilibrado. A equipe suspeita inicialmente de um pneu furado e o piloto ruma aos boxes, apenas para descobrir que o problema era estrutural e havia sido imposto a um apêndice aerodinâmico na parte traseira, ao passar por sobre uma zebra instantes antes. A partir daí, o campeão mundial seguiria na pista sem qualquer chance de vitória, pensando apenas em somar o máximo de pontos que se desempenho pudesse permitir.

Restavam, aparentemente, as duas Ferraris e Lewis Hamilton na disputa, e os italianos tinham um problema em mãos. Afinal, seu piloto com mais chances no campeonato tinha seu ritmo limitado pelo próprio companheiro de equipe, por sua vez absolutamente determinado a seguir na liderança e conquistar a primeira vitória da carreira na corrida para a qual já havia conquistado a primeira pole position. Ambos, em resumo, tinham a tal “sensação de merecimento”, e para piorar Lewis Hamilton vinha aos poucos crescendo nos retrovisores de ambos.

Buscando uma solução menos traumática para tirar Sainz da frente de Charles a Ferrari chama o espanhol aos boxes de forma um tanto prematura, na volta 20. Leclerc permaneceria na pista por mais cinco voltas e, se porventura não retornasse a pista à frente do companheiro – como de fato não retornou – ao menos teria pneus mais novos para que pudesse reivindicar a inversão com argumentos mais sólidos. E foi justamente isso o que aconteceu. Após ter sido avisado algumas vezes de que precisaria andar mais rápido, Sainz finalmente recebeu a ordem de inversão, que cumpriu na volta 31. Lewis a essa altura ocupava a liderança, na primeira vez em que isso ocorreu na atual temporada. O inglês ruma aos boxes ao fim da volta 33, quando ainda tinha ritmo forte, surpreendentemente optando por utilizar pneus duros nas 19 passagens que restavam para o fim da prova. A julgar pelo ritmo que vinha impondo, Lewis parecia capaz de ter permanecido na pista por mais algumas voltas de modo a calçar borracha macia para um ataque final. Ainda assim, o heptacampeão deveria contar com uma importante vantagem de pneus em relação aos pilotos da Ferrari durante o stint derradeiro.

E então, antes que a nova dinâmica pudesse se manifestar, Esteban Ocon, que só chegou a largar graças ao enorme esforço da equipe durante o período de bandeira vermelha, surgiu se arrastando pela pista, até encostar o carro em local que provocou a intervenção do carro de segurança.

Era um momento crítico para a corrida, e ocupar a liderança representava uma desvantagem teórica a Charles Leclerc. Afinal, se ele aproveitasse o momento para ir aos boxes em busca de borracha nova e macia, corria o risco de que seus perseguidores se mantivessem na pista, com resultados imprevisíveis. Por outro lado – como acabou acontecendo –, se ele seguisse na pista, os adversários iriam aos boxes e teriam pneus muito mais aderentes para os giros finais.

O carro de segurança se recolhe ao fim da volta 42, e um rádio enviado nessa altura a Carlos Sainz já dava o tom do que viria pela frente. Ao ser solicitado a manter dez carros de distância em relação a Leclerc, de modo a preservar a liderança do companheiro de equipe, o espanhol não apenas se recusou, como partiu ferozmente para o ataque, fazendo uso dos pneus mais novos e macios para o superar já na entrada da Reta do Hangar.

A partir desse momento a corrida se transforma numa rave. No momento em que finalmente estava em condições de atacar as Ferraris, Lewis é surpreendido por Pérez, renascido dentre os mortos para ocupar a terceira posição. Na volta 46 o mexicano parte com tudo para cima de Leclerc, que se defende de forma muito mais efetiva do que seus velhos pneus duros pareciam capazes de permitir. Em meio à briga de foices que se estabelece é Hamilton quem se aproveita para superar a ambos, em manobra que fez lembrar o longínquo bote de Rubens Barrichello sobre os irmãos Schumacher no GP da Espanha, no ano 2000. A alegria do inglês, contudo, duraria pouco. Poucas curvas à frente Pérez volta a superá-lo, trazendo o improvável Leclerc à reboque.

A essa altura, ninguém mais era de ninguém. Alonso e Norris haviam alcançado os líderes, e na volta 48 Hamilton parte mais uma vez para cima de Leclerc. O inglês consegue bela manobra em trajetória externa da Luffield, apenas para levar o troco de maneira exuberante na Copse, por fora!  A linda ultrapassagem do monegasgo, por sinal, reforçou a impressão de que Lewis poderia perfeitamente ter evitado o choque com Verstappen na mesma curva, em 2021. Com os dois carros seguindo próximos, no entanto, Charles não teve como evitar a ultrapassagem definitiva de Hamilton, na Reta do Hangar.

Entre mortos e feridos, Verstappen conseguiu salvar uma valiosa sétima posição, após vencer uma dura batalha com Mick Schumacher nos metros finais. Vettel e Magnussen completaram a lista de pontuadores, daquela que foi, muito provavelmente, a melhor corrida disputada até aqui, em 2022.

Que o ano possa nos reservar mais disputas como essas.

Tenham todos uma ótima semana.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

3 Comments

  1. MarcioD disse:

    Gostei muito do GP, sempre quando há imprevisibilidades acontecem resultados interessantes.
    Primeira pole e vitoria de Sainz justamente em um n° emblemático, 150 GP’s. Coincidência? Houve influência do patrocinador master da equipe? De toda forma achei merecido pelo desempenho na prova e para quem vinha dando azar há tanto tempo.

    Achei um erro grosseiro da Ferrari não terem chamado o Leclerc para colocar os pneus macios. Isso porque pelo número de voltas que faltavam, porque os concorrentes estavam colocando os macios e por causa da proximidade dos carros numa relargada a chance se terem feito um pódio duplo era grande.
    As explicações dadas pelo Binotto não me convenceram.
    Perderam a chance de diminuir a vantagem para a Red Bull de forma mais substancial tanto no campeonato de construtores como no de pilotos.

    Max deu azar e tanto ele qto Peres efetuaram algumas manobras bem discutíveis, levando- se em conta que hoje em dia querem punir por qualquer coisa

    O grupo que invadiu a pista foi o Just Stop Oil que prega a extração consciente de combustíveis fósseis. A polícia já sabia da intenção deles desde a sexta feira e pediu que não agissem.
    Mesmo assim 7 entraram e alguns se assentaram na pista na 1° volta. Alguns carros tiveram de se desviar, ainda bem que estavam em baixa velocidade. Os 7 foram presos.

  2. Fernando marques disse:

    Márcio,

    Numa temporada onde até então só assistimos corridas “mornas” e de poucas emoções, o GP da Inglaterra foi um deleite.
    Seu perfeito relato da corrida deixa claro que corrida boa é aquela onde o resultado final fica imprevisível.
    O acidente com o chinês foi uma tremenda mancada.
    Peres fez uma bela corrida.
    Mas o que gostei mesmo foi ver o Hamilton andando na frente novamente. Estava fazendo falta.
    E para finalizar a soberba do Leclerck continua alta. Nem tomando um pito ao vivo do Binoto abaixa o nariz do sujeito.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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