Cazuza & Piquet

Rave na Pedra Prateada
05/07/2022
Caçadores de emoções
11/07/2022

Cazuza morreu num 7 de Julho, há exatos 32 anos. Porém, como disse Frejat, “o poeta está vivo”.

Outro dia, minha esposa e eu assistimos ao clássico animado “Aristogatas”, da Disney, junto ao nosso menino. Ele, com 5 anos completos em 2021, se divertiu com a história e gostou particularmente de uma cena: Roquefort, um ratinho, corre atrás dos gatos de rua. Ao cruzarem com um bebum, este, empunhando uma robusta garrafa de vinho, resolve jogar fora todo o líquido – “Exagerei”, deve ter pensado.

Não se trata, obviamente, de uma sequência adequada para uma criança da idade de meu filho. Aliás, ele riu mesmo foi de ver o personagem com os olhos estanhados e “molhando” a calçada. No começo do filme, porém, apareceu um alerta, um aviso mais ou menos assim: “Alguns diálogos e caracterizações nesta trama são inadequadas. A peça é de 19XX. Era impróprio na época e continua sendo impróprio.”

No entanto, a opção foi por não realizar edições: uma porque a obra foi concebida de tal forma, e qualquer corte seria nada menos do que censura; outra porque não devemos ignorar ou fingir que determinada situação não existe se quisermos modificá-la e influenciar positivamente a partir de tal retrato.

Pobre de mim que vim do seio da burguesia
Sou rico mas não sou mesquinho
(…) Eu sou burguês, mas eu sou artista
Estou do lado do povo, do povo
(Burguesia, 1989)

Ainda falando do meu menino, se me permitem, desde a barriga da mamãe ele é afeito a música. E nos últimos tempos, temos curtido bastante a obra do saudoso Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza.

Vicente gosta de ver imagens e videoclipes do cantor, e curte a maioria das canções, embora alguns versos e palavras utilizadas pelo Caju fossem também impróprias, sobretudo nas versões ao vivo. Não serei eu a dar pause ou pular as faixas, o máximo que faço é dizer pra ele não repetir determinados termos, sobretudo junto a coleguinhas de sua idade.

Cazuza irá nortear essa coluna com alguns de seus versos. O outro personagem deste artigo é um conterrâneo e (quase) contemporâneo do cantor: Nelson Piquet Souto Maior.

Piquet nasceu em 1952, Cazuza em 1958. Ambos são cariocas. Os dois conheceram o auge na mesma década de 80, Piquet dominando a primeira metade e Cazuza a reta final da mesma. Ambos ficaram conhecidos também por serem “desbocados” e de alguma forma desafiarem o mainstream de premiações e loas midiáticas.

As semelhanças não param por aí: João Araújo, pai de Cazuza, era dono da “Som Livre”; Estácio Gonçalves Souto Maior, pai de Piquet, foi Ministro da Saúde e deputado federal. No entanto, a maior similaridade se dá no relacionamento profissional deles com seus progenitores: buscaram independência, e não apadrinhamento. Piquet chegou a correr com o sobrenome grafado erroneamente para não ser associado ao pai; Cazuza gravou com o Barão Vermelho sem a chancela ou a tarimba técnica da gravadora do pai.

Porém, os demais traços que irei relatar aqui os colocam em espectros diametralmente opostos.

2000, é ano 2000
E não vai mudar nada
Ano 2000, ano 2020
E vai tá tudo igual
(Perto do fogo, 1989)

Para a geração que cresceu nos anos 80 e 90, Cazuza e Renato Russo representaram os dois maiores ícones musicais, sendo até hoje reconhecidos como os dois últimos grandes poetas (letristas, no caso) da música brasileira. Como consequência, a velha mania de criar rivalidades e distinções mesmo onde não há faz com que muitos precisem, ainda hoje, optar entre um ou outro, precisem dizer qual preferem, qual é melhor etc.

Pouco ou nada houve de semelhança entre eles nos aspectos artísticos, além do fato de serem contemporâneos e cantarem alguns temas parecidos. Tanto na forma quanto no conteúdo, Renato e Cazuza eram diferentes. Mas Cazuza reconheceu publicamente algo entendido como “inveja criativa” com relação ao compositor da Legião Urbana. Fez questão de protestar com relação à ausência de Lobão no Rock In Rio 1. Mais do que isso, pode-se dizer que ele foi a ponte que reconectou o rock à chamada MPB, ferida aberta desde a Jovem Guarda.

Nelson Piquet, sabemos, não teve um pingo dessa decência com relação aos seus pares contemporâneos, fossem eles conterrâneos ou não.

Baby, eu lamento
Mas não tenho tempo
Pra sentir as tuas dores
As minhas eu já não aguento
(Desastre mental, 1985)

Cazuza e Piquet foram, ambos, parte de minha infância, ainda que não protagonistas. Explico. Amantes de música e Fórmula 1, meus pais tinham ambos os personagens como parte de uma série de nomes relevantes.

Meu pai gosta(va) de ambos, por razões diferentes, e minha mãe não gosta(va) de nenhum deles, por motivos distintos. Eu gostava de um e não curtia o outro, também com justificativas inexplicadas. Mas com a adolescência e o olhar histórico, ambos se tornaram profissionais importantes para minha pessoa, embora somente um deles também no aspecto humano.

A polêmica maior entre Piquet e Senna acontece no princípio de 1988, período em que Cazuza já havia assumido publicamente sofrer de AIDS e produzia uma das obras-primas da música nacional, o antológico disco Ideologia, cuja faixa-título eternizou os versos “meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”.

Olhando em retrospecto, o que fica mais latente para mim, independentemente das motivações, provocações e razões que Nelson alegue ter, é a total falta de empatia para com o outro, estando disposto a ofender e fazer doer a quem pudesse conforme quisesse.

E, como ficou claro na entrevista de Piquet para Júnior Coimbra (filho de Zico) alguns anos atrás, ele não apenas não se arrependeu como fez questão de seguir com desdém pelo que signifiquem “as dores do outro”.

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro um p…iro
Pois assim se ganha mais dinheiro
(O tempo não para, 1988)

Antes de chegarmos ao ponto que todos devem estar esperando — o famigerado trecho de entrevista que circulou e culminou em proibição da presença de Piquet nos paddocks da F1 –, acho importante lembrar que o mesmo canal que veiculou as frases de Nelson sobre Lewis também se dedica a postar trechos diversos de falas de outros pilotos e personalidades da história da F1.

Duas em especial me chamam atenção: uma com Patrick Head, falando sobre traços negativos da personalidade de Piquet com relação aos companheiros de equipe, sobretudo Nigel Mansell, como no episódio de uma corrida em que o rádio foi interceptado e Piquet, sabendo que o Leão faria uma parada nos boxes, se antecipou prejudicando o timing do rival; o outro, pessoas envolvidas na epopeia de 1983 falando sobre a ilegalidade da gasolina do carro de Nelson naquele ano.

Me causa espanto maior, portanto, ver que há décadas há um tratamento diferente para Piquet: diferente porque tudo o que ele diz — desde afirmar que perdeu UM SEGUNDO após o acidente de Ímola ou ao conclamar para si toda sorte de invenção e inovação na F1 — com relação ao seu período como piloto é tomado não apenas como verdade inquestionável como, também, um traço de alguém que venceu sozinho, por meios próprios e totalmente positivos.

Desse modo, o tom jocoso, ofensivo e que beira os limites legais de muitas de suas palavras e atitudes, um traço igualmente presente, sempre foi colocado em perspectiva, cheio dos “mas”, “porém”, “contudo”, “todavia” e “no entanto”. Como se Nelson fosse o Edson sem Piquet jamais ter sido Pelé.

Você tem que entender que eu sou filho único
E os filhos únicos são seres infelizes
Eu tento mudar, eu tento provar que me importo com os outros
Mas é tudo mentira, tudo mentira
(Filho único, 1989)

A educação dos filhos, como falei de início, é o tipo de situação que não tem manual. Você ouve toda sorte de conselhos, ajudas e alertas, mas cada um vive de uma forma, enfrenta desafios distintos e não prescritos. Não há outra forma de amadurecimento mais profunda do que a paternidade/maternidade. Contudo, é, sim, possível que as pessoas desenvolvam sentimentos e conceitos mais sublimes sem “precisar” tornar-se pai/mãe.

Nelson Piquet tem uma verdadeira prole e, como disse Hilary Clinton ao ser instada a apontar algo de positivo sobre Donald Trump nas eleições de 2016, “seus filhos são incrivelmente capazes e devotados, e creio que isso diz muito sobre ele”.

De fato — e aí mais um traço em comum com o atual chefe da nação –, Piquet transparece uma relação extremamente saudável e amistosa com seus filhos. E foi às últimas consequências para proteger um deles, quando este protagonizou uma das cenas mais dantescas da história da F1, atitude igualmente reprovável à dos citados por Nelson na famigerada entrevista que causou polêmica nas últimas semanas.

Aliás, me parece que causou mais revolta em muitos setores da imprensa o fato de Piquet ter “pilotado” o carro presidencial ou ter sido entrevistado por um dos “filhos da República” do que qualquer outra atitude do tricampeão. Nem mesmo as acusações e investigações das quais foi alvo na última década (aqui  e aqui) reverberaram. Parece que o problema foi assumir um “lado”.

O mundo é azul
Qual é a cor do amor?
O meu sangue é negro, branco
Amarelo e vermelho
(Só se for a dois, 1987)

Pouco ou nada a falar sobre os termos usados por Piquet ao se referir a Hamilton. Não é necessário nem mesmo discutir — e isso muitos colegas já fizeram — sobre a pecha racista da alcunha utilizada. Basta dizer que Vicente e eu, ao assistir às corridas, torcemos por Verstappen (e Alonso) e não gostamos de Hamilton. Sempre dizemos que ele é chorão, que fica sorridente quando ganha e reclama de tudo quando algo dá errado. Mas meu filho nem mesmo sabe dizer a palavra “negro”. Ele, naturalmente, percebe que há tons de pele distintos, mas não se preocupa em defini-los como nós, adultos, estudados e formados, fazemos.

Ele sabe quem é Hamilton, sabe que ele é o maior vencedor da história da F1, mas também sabe que Fangio, Clark, Senna e Schumacher foram maiores do que ele. Piquet? Acho que já devo ter dito que faz parte dos grandes pilotos que a F1 já teve, numa lista que surge um pouco abaixo dos mencionados anteriormente e também de Alain Prost e Jackie Stewart, mas junto a Stirling Moss, Graham Hill, Brabham, o próprio Alonso e Niki Lauda. No entanto, muito provavelmente, Vicente não saberia dizer quem ele é se o visse na TV.

O mais incrível é perceber que, entre os dois personagens dessa coluna, é justamente aquele que faleceu há três décadas que tem o pensamento mais atual. Lembrando da minha infância e da preferência de meus pais, posso dizer que ambos estavam 50% certos.

Abraços,
Marcel Pilatti

Leia também:

[1] Laranjas e Maçãs
[2] Cultura do cancelamento

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

2 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Marcel,

    juro que pensei que este assunto fosse ser tema aqui no GEPETO … mas já que voce tocou …

    1) Primeiro em relação a maneira como Piquet falou sobre Hamilton … ele errou … já reconheceu o seu erro publicamente … e foi sincero …

    2) Na minha lista dos melhores pilotos que vi na Formula 1 Nelson Piquet é o numero 1 … acho que nunca escondi meu lado piquetista aqui no GEPETO … mas o maior sem duvidas é o Hamilton

    3) Este chamado rock brasileiro dos anos 80, nenhum deles nunca me encheu os olhos apesar do sucesso … até por que semprei achei um movimento mais pop do que propriamente rock …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Rogério venturella disse:

    Magnânimo Pilatti!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *