Trilegal

Correr para Vencer
08/10/2012
Melhor de Cinco
11/10/2012

A notícia da contratação de Lewis Hamilton pela Mercedes teve duas consequências imediatas – a aposentadoria de Michael Schumacher e a contratação de Sergio Perez para seu lugar (...). Além, claro, de fazer Adolf revirar-se no covil das bestas.

Enquanto acaricia uma das muitas cabeças de Cérbero, Adolf Hitler mantém o olhar perdido no reino de Hades, o subterrâneo dos mortos. Desde que Jesse Owens impôs-lhe a primeira derrocada pública, no faustoso estádio de Berlim, começou a desconfiar que sua teoria tinha algum furo. Mas, saber agora que a Mercedes, uma das jóias da coroa alemã, abrigaria um mestiço inglês de origem caribenha era humilhação demais. Ele não tinha saído da vida – e entrado no inferno – para isso.

De fato, Hitler ficaria algo confuso se desembarcasse na Fórmula 1 atual. Aquilo que sempre foi uma filial da Torre de Babel, congregando gente de vários cantos do mundo, deixou de seguir alguns paradigmas étnicos atualmente. O multicampeão alemão, outrora infalível, que operava com a precisão de um míssil V2, desandou a abalroar colegas na pista como se fora um italiano médio. O espanhol congelou seu sangue. Os brasileiros esqueceram a água milagrosa em algum desvão do saneamento público universal. Os latino-americanos viraram magnatas bajulados por times de todos os tipos. Os franceses rarearam ao nível do irrelevante e os italianos, arrivederci.

A notícia da contratação de Lewis Hamilton pela Mercedes teve duas consequências imediatas – a aposentadoria de Michael Schumacher e a contratação de Sergio Perez para seu lugar, na McLaren. Uma a ser confirmada no longo termo – o desafio de Hamilton de fazer com a Mercedes o que Schumacher fez com a Ferrari no início deste século. E uma de médio prazo – concentrar em Fernando Alonso e Sebastian Vettel as maiores chances deste campeonato. Além, claro, de fazer Adolf revirar-se no covil das bestas.

Não que Kimi Raikkonen, Jenson Button e mesmo Mark Webber estejam impedidos de reverter a vantagem de Alonso e Vettel. Chances matemáticas há. Nem que Hamilton seja, desde o momento da assinatura com a Mercedes, peça fora do tabuleiro. A cinco provas do final, o campeonato que começou embaralhado, com sete vencedores diferentes nas sete primeiras corridas, caminha para ser mais uma batalha a dois. Dela, deve sair um novo tricampeão.

E, se assim for, Alonso ou Vettel deve conquistar em 2012 seu título mais merecido.

O campeonato de Alonso em 2005, conquistado a bordo de um Renault, foi daqueles obtidos com um carro “quase” de outro planeta. A superioridade da equipe foi tão grande ao longo da temporada que a Fórmula 1 arranjou uma maneira de tentar tungar-lhe alguns pontos, alegando irregularidades no projeto. Conseguiu só empurrar um pouco a decisão para o final do ano, mas ainda assim Alonso foi campeão no GP do Brasil, faltando mais duas provas para o final da temporada.

Até agora, a grande conquista da vida de Alonso foi o bicampeonato, em 2006. Se, em 2005, superou com destacada facilidade seu rival mais próximo – Kimi Raikkonen, então na McLaren – no ano seguinte teve de se haver com Michael Schumacher e uma renovada Ferrari, depois de um ano de quase hibernação do time italiano. Venceu o heptacampeão, aposentou-o pela primeira vez. Foi quase ungido rei.

Nos anos seguintes, Alonso foi aquele tipo de obra-de-arte hermética, que sabemos genial, mas que pouco se entende. Por que Alonso se indispôs daquela forma com Ron Dennis e perdeu não uma, mas duas chances reais de ser campeão, em 2007 e 2008? Por que Alonso conformou-se em marcar passo durante dois anos em uma equipe que estava longe, àquela altura, de lhe oferecer o melhor carro do grid? Por que Alonso não farejou o potencial em torno da Red Bull e não se ofereceu para liderar esse time?

A ida para a Ferrari era esperada, calculada, provavelmente sonhada e carregada de uma mística que não deve se extinguir nunca, enquanto houver carros e pilotos. Todos, em algum momento, vão querer domar o cavalinho, e Alonso tinha consigo uma motivação extra: repetir o que o rival Schumacher fizera anos antes, além, naturalmente, do maior salário da Fórmula 1. Chegou perto em 2010, passou longe em 2011.

E, antes mesmo do início da atual temporada, quando toda a imprensa italiana começava a bater os pregos no caixão e a beijar a viúva, diante dos desanimadores resultados da Ferrari nos testes de inverno, eis que a sorte bafeja a face do espanhol. Um início de campeonato caótico, tido como equilibrado a princípio por conta da dificuldade em lidar com pneus.

No rodízio de vencedores da primeira metade da temporada, Alonso foi amealhando pontos, correndo com frieza e erguendo sobre areia uma vantagem fadada a esvair-se. Porque, afinal, a grande desvantagem da Red Bull no começo do ano – a proibição do uso de difusores soprados – foi aos poucos compensada com atualizações no modelo de 2012. Porque a McLaren aproveitou as férias de Verão no hemisfério Norte e voltou arrasadora, vencendo as três primeiras provas após o intervalo.

Porque a Ferrari estacionou, não conseguindo produzir nada de relevante e que acrescentasse velocidade à já decantada confiabilidade dos carros de Alonso e Massa. É evidente que Alonso, agora e ao longo de todo o campeonato, não teve o melhor carro da temporada e, só por isso, sua eventual vitória em 2012 seria a maior de sua carreira. Sem contar o que é, para um piloto latino, vencer pela Ferrari.

Vettel, por sua vez, venceu os dois últimos campeonatos de formas totalmente distintas. De trás para frente: o de 2011, ao estilo do campeonato de Alonso em 2005 – muito à frente da concorrência, sem ser nem de longe ameaçado, vencendo corridas com consistência, um homem e sua máquina em estado puro de velocidade e eficiência.

O primeiro, em 2010, inusitado. Foi campeão na última prova, sem ter liderado a competição em nenhum momento. Depois de uma temporada extremamente disputada – mas de corridas enfadonhas – sagrou-se o campeão mais jovem da história, mas carregou consigo o estigma de ter cometido muitos erros ao longo do ano, de não suportar a pressão e de só vencer sem adversários por perto, ou seja, largando na frente e sumindo até a bandeira quadriculada. Confirmou quase todas as expectativas no ano seguinte (sucumbiu à pressão de Button no Canadá, lembram-se?), mas a supremacia da Red Bull pode ter deixado a impressão de que foi fácil.

Este talvez seja o grande mérito do campeonato de 2012. Seja quem for coroado, terá feito uma temporada extremamente difícil. “No pain, no gain”, dizem os amantes do esforço físico. E, se será difícil para Alonso ou Vettel, que pensar de Hamilton ou Button, ou Raikkonen ou Webber, atrás de ambos na tabela de classificação. O tri que virá neste ano, na minha opinião, será o grande título de Alonso. Ou de Vettel. Mas desconfio que nem a possível vitória do alemão arrancará Adolf de sua letargia perene. Que se distraia com Cérbero.

Alessandra Alves
Alessandra Alves
Editora da LetraDelta e comentarista na Rádio Bandeirantes desde 2008. Acompanha automobilismo desde 83, embalada pelo bi de Piquet e pelo título de Senna na F3.

23 Comments

  1. Eduardo Trevisan disse:

    Que bom Alessandra, finalmente de volta. Tenho visitado seu blog, até deixei um ou outro comentário lá (não tantos quanto o Ron, rs). Estava cansado de ver a Maria Rita e o Dumbo lá, congelados.

    Excelente texto.

    Agora é torcer para o Firmo Neto não aparecer por aqui de novo.

    Abs.

    Eduardo Trevisan.

  2. Marcelo Kozak disse:

    Bom retorno Alessandra! Apimentada como sempre!

  3. Lucas disse:

    Não sei se concordo muito com a opinião sobre o R25. A McLaren fez tantas poles quanto a Renault, marcou muito mais melhores voltas (12 em 19, uma delas com Pedro de la Rosa!), e foi a equipe que mais ganhou corridas (dez, sendo 3 com Montoya, enquanto a Renault ganhou oito, uma com Fisichella). O carro da McLaren era tão bom que até os pilotos reserva (cada um deu um pulinho no carro) conseguiram algo de impressionante: de la Rosa com a já citada melhor volta, e Wurz com um pódio em sua única aparição. Acredito que faça sentido descrever o campeonato de 2005 como um daqueles em que uma equipe venceu um carro claramente mais rápido graças à melhor confiabilidade. Não fossem as quebras, Räikkönen teria levado o título – basta lembrar que ele teve nada menos que três abandonos enquanto liderava – isto é, estava na frente em TODAS as corridas que abandonou. Definitivamente não me parece que a Renault tinha “um carro de outro planeta”, nem mesmo um carro “à frente da concorrência”. Alonso ganhou pela sua regularidade e pela confiabilidade, não por dispor de um carro superior.

    • Carlos disse:

      Não sei da onde veio esse papo de carro de outro planeta. A McLaren era mais rápida, e a Renaut ganhou pq o carro era confiável e rápido, mas não o mais rápido… Carro de outro planeta era a Williams de 92 e 93, sem comparação com a Renault de 2005

  4. Lucas dos Santos disse:

    Mas que surpresa agradável me deparar com a volta da Alessandra Alves. Sou fã de seus textos! Bem-vinda novamente!

  5. Cassio disse:

    Que bela surpresa encontrar uma nova coluna da Alessandra aqui no GPTOTAL! Ainda mais para quem, como eu, acompanha o site desde o início em 2001. Como todos já disseram, fez falta!

    Sobre o campeonato, vejo Vettel com muita vantagem, pela evolução que a Red Bull vem mostrando e que a Ferrari não consegue acompanhar. Se no início do ano um tri-campeonato de Alonso seria considerado um feito histórico, depois de Suzuka deveria ser classificado como milagre.

    No entanto, carreras son carreras, e as decisões de 2006, 2007 e 2008 são exemplos recentes de que tudo pode acontecer na reta final do campeonato.

    Abraços

    Cassio

    • Fabiano Bastos das Neves disse:

      Concordo contigo Cassio e, levando em consideração todas as reviravoltas que este campeonato já teve (vários carros já ocuparam a posição de melhor do grid), vou além e não descarto nem um título de Button (para quem vou torcer), mas também seria legal que, só para quebrar a rotina, Kimi fosse campeão a bordo da Lotus. Seria um retorno e tanto.
      Mas, sem a menor dúvida, Vettel está com a faca e o queijo na mão para ser “TRI-legal”.
      Abraço!

      Fabiano

  6. tiago toricelli disse:

    Alessandra seja muito bem vinda !!!! Além dos ótimos comentários, estava faltando uma mulher no meio desse monte de homem !!! rsrsr !!!

  7. Mauro Santana disse:

    Que bacana abrir a página do Gepeto e me deparar mais uma bela coluna sua, Alessandra!

    Parabéns, e é muito bom ler as suas colunas!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  8. Arawak Deserter disse:

    Assino embaixo de cada um dos comments acima!! É isso!! :O)

  9. Belo texto que já foi compartilhado com todos da TSN, Excelente volta. O Jornalismo esportivo automotivo precisa deste tipo de sutileza ao falar dos nossos carrinhos de meninos.

  10. Fernando Marques disse:

    Belo texto. Alessandra, parabens pela volta!!
    Só acho que se o Hamilton conseguir vencer a proxima prova pega a toalha de volta …

    Fernando MArques
    Niterói RJ

  11. Roberto Andrade disse:

    Que bom que a Alessandra voltou! Gosto especialmente da sábia e precisa mistura de cultura/história nos textos!

  12. Walter disse:

    Fantástico o seu texto. Sou grato pela sua volta. Isso faz o GP Total ficar melhor.

  13. O GPtotal mais bonito, mais sensivel e mais literário. Welcome back, lady!
    Quanto a 2005, me ocorrem outras informações relevantes. Durante a maior parte do ano (a partir de San Marino, para ser bem preciso), o carro mais rápido foi a McLaren. O grande problema, no entanto, era a fragilidade do conjunto, roubando pontos decisivos a kimi Räikkönen. De certa forma, Alonso já venceu aquele título na base da regularidade, embora exista também um mérito mecânico nisso.
    E em relação à Ferrari, creio que boa parte do problema tenha conexão com a utilização dos pneus ao longo de todo o GP, algo explorado melhor pela Michelin do que pela Bridgestone, e que também nunca combinou muito com o estilo de Schumacher.
    Beijão Alê. Estamos felizes com seu retorno. 😉

  14. Depois do GP do japão, o campeonato ficou somente dois pilotos, Alonso e Vettel. Acho que esse GP da Coreia do Sul vai a primera decisão de 3 GP’s. Acho que o campeonato vai acabar no GP dos Emirados Árabes Unidos.
    Ótimo texto!! 🙂 tava com saudades!!
    Beijos

    Harry Yamamoto

  15. Lucas Giavoni disse:

    Alê,

    Sou leitor e fã confesso das suas colunas antigas. É ótimo tê-la de volta ao GP Total, agora como colega! E já voltou com um baita texto!

    Beijo!

    Lucas Giavoni

  16. Marcel Pilatti disse:

    Se o “Ronaldo brilha muito no Corinthians”, a Alessandra “brilha muito no Gepeto”.

    Ótimo texto. Estava fazendo falta…

    Welcome back!

  17. Flaviz disse:

    Sensacional retorno!
    Bem-vinda Alê!

  18. Edu disse:

    Escreve muito!

    Bem-vinda de volta, Alê

    Beijos

    Edu

    • Carlos Chiesa disse:

      Evidente que você não perdeu a forma nestes anos fora da F1, ao contrário de certos pilotos. Parabéns, Ale, bem-vinda.

    • Manuel disse:

      Perder a forma ?
      Ela voltou ainda melhor do que eu a recordava !!

      Estamos todos de parabens.

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