UM LUGAR ESPECIAL

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Edu,

Indianapolis? Sim, estive lá duas vezes em missão jornalística (formidável expressão esta, não é mesmo?) para cobrir a 500 Milhas. A primeira foi em 1995, quando eu editava a Grid, e a outra em 1997, durante minha passagem pela Auto Esporte. A corrida de 1995 (vencida por Jacques Villeneuve) foi a última antes do “racha” entre a CART e o Tony George, dono do autódromo e fundador da Indy Racing League, enquanto a de 1997 (vitória de Arie Luyendyk) foi a primeira disputada com os carros e motores feitos especialmente para a IRL. Pude ver de perto o estrago que essa divisão provocou no nível técnico… (Só para constar, a corrida de 1996 teve pilotos da IRL correndo com carros velhos da CART. Deve ter sido uma coisa linda de se ver…)

Foi muito legal, principalmente na primeira vez, em que fiquei mais tempo. Tudo é feito para satisfazer o público e ali existe uma atmosfera criada especialmente para quem gosta de corridas. Quem está a trabalho também se beneficia, pois o ambiente é muito agradável. Há todo um ritual antes da largada, emociona qualquer um. Acredite se quiser: durante a execução do hino dos Estados Unidos, todos os 300 ou 400 mil norte-americanos presentes colocam a mão no lado esquerdo do peito e o entoam afinadamente. O momento mais esperado, claro, é quando a avó do Tony George fala ao microfone a famosa frase “Gentlemen, start your engines!”. Quando há uma mulher no grid de largada (o que vem sendo freqüente nos últimos anos, com a Lyn Saint James e a Sarah Fisher), a frase é mudada para “Lady (ou ladies) and gentlemen, start your engines”. Há um outro momento que dizem ser muito curioso, mas não presenciei: no “bubble day”, o último dia de treinos classificatórios, os carros são alinhados de acordo com a ordem de saída para a pista. Dizem que alguns chefes de equipe, percebendo que a pista pode ficar mais lenta na hora que seu piloto sair, oferecem dinheiro aos donos dos carros que estão à frente para que eles aleguem um problema qualquer e coloquem seus carros no fim da fila.

Para os jornalistas, há uma “hierarquia”: quanto mais corridas você cobrir, mais “quente” é a sua credencial. Lá, a credencial propriamente dita é complementada por pequenos brasões metálicos ou de papel-cartão. Cada um deles dá direito de acesso a diferentes partes do circuito. Em 1997, fui com um grupo de jornalistas convidados pela GM, que patrocinava o Affonso Giaffone Neto na IRL. Fomos todos juntos retirar as respectivas credenciais e, quando chegou a minha vez, a moça responsável digitou meu nome no computador e balbuciou algo como “Você já esteve aqui…”. Recebidas as credenciais, todos notaram que eu tinha mais “medalhinhas” e papéis do que os outros – simplesmente porque eu era o único do grupo que já havia estado por lá. A cada vez que você volta recebe automaticamente, sem precisar pedir, um “upgrade” na credencial.

Em 1995, tive a oportunidade de dar uma volta na pista como passageiro de um dos pace-cars – naquele ano era um Chevrolet Corvette conversível. O detalhe é que meu motorista foi ninguém menos que o ator James Garner, o Pete Aron do filme Grand Prix. Foi pura sorte: havia uns cinco ou seis Corvette, cada um com um piloto diferente, e os jornalistas ficavam em fila aguardando o próximo carro livre. Não era possível escolher quem seria o seu cicerone. Mal pude acreditar na minha sorte quando percebi que eu ia dar uma volta em Indianapolis na companhia de James Garner!

Ele é muito simpático. Tão logo entrei no carro, ele estendeu a mão, se apresentou e avisou que iria andar forte. “Como no Grand Prix?”, perguntei. Ele ficou surpreso com a pergunta (“Você assistiu? Que legal! Gostou?”), percebeu meu inglês com sotaque e perguntou de onde eu era – nisso, já estávamos na reta oposta, entre as curvas 2 e 3. No final dessa reta, dei uma espiada no velocímetro digital do Corvette: ele estava a umas 106 milhas por hora, ou 170 km/h. Não andou tão forte assim… Como não poderia deixar de ser, ele falou da faixa de tijolos que marca a linha de chegada e, logo depois, encostou na saída dos boxes, onde outro jornalista se preparava para entrar no meu lugar. “Boa sorte, Brazilian”, despediu-se ele.

Mesmo para quem não é jornalista, ir a Indianapolis para assistir a uma 500 Milhas pode ser muito divertido. A data da corrida, aliás, gera certas confusões, pois muitos pensam que ela é disputada no último domingo de maio. Na verdade, a corrida é disputada no dia anteior ao Memorial Day, um feriado que homenageia os norte-americanos mortos em guerras. O Memorial Day é sempre na última segunda-feira de maio – portanto, se o dia 31 cair em um domingo, a corrida será obrigatoriamente no final de semana anterior.

Dizem que Indiana é um dos estados mais conservadores dos Estados Unidos (parece que aborto dá cadeia, menor flagrado bebendo álcool vai para o reformatório e assim por diante…) e que o feriado é uma ocasião propícia para as pessoas abrirem um pouco a guarda – tipo carnaval por aqui. Pelo que vi, deve ser verdade. Em volta do autódromo, há trailers e barracas aos montes, quase todos rodeados por caixas e mais caixas repletas de latas de cerveja vazias. Bêbados de todos os calibres circulam pela rua ou nas alamedas internas da pista, dividindo o espaço com pessoas de todas as idades e até casais com filhos pequenos. Tudo na maior ordem, todo mundo se respeitando. (Não, não tive tempo de procurar o local do famoso concurso de seios em que as mulheres levantam as camisas e mostram o que têm para mostrar. O local é muito grande e eu estava lá a trabalho…)

Dentro do autódromo é montada a FanFest (várias barracas com lembranças, exposições e atividades ligadas à corrida a automóveis em geral). O museu é muito bom: o Marmon Wasp que venceu a primeira 500 Milhas, em 1911, está lá (é esse carro que aparece comigo na foto) e há carros, capacetes e macacões de todas as épocas. Mas quem espera algo mais do que a história de Indianapolis vai se decepcionar, pois praticamente todo esse acervo é de carros e pilotos que fizeram história na 500 Milhas. As lojinhas (tanto a do museu quanto as que abrem em volta da pista nas semanas de corrida) vão pelo mesmo caminho: só vendem artigos relacionados a essa corrida e à Brickyard 400 (etapa da Nascar). Talvez isso tenha começado a mudar devido à ida da Fórmula 1 a Indianapolis. Eu não me surpreenderia se em uma próxima visita eu encontrasse no museu a Ferrari que o Schumacher usou para vencer a corrida do ano passado – a primeira no traçado misto do autódromo.

Se você deseja ir para lá, vale lembrar que Indianapolis não é exatamente uma cidade “turística” – em outras palavras, há muito pouco a fazer por lá fora dos dias de corrida (ou de um jogo do Indiana Pacers, time da NBA). Também não há um museu como o de Donington, na Inglaterra, onde é preciso ficar um dia inteiro para “babar” com os quase 200 F 1 de todas as décadas que ficam em exposição permanente. Mas se a intenção for curtir um típico final de semana esportivo norte-americano, vá tranqüilo porque a diversão é garantida.

Abraços,

Panda

PS – Quem for a Indianapolis deve estar preparado para a eventualidade de ter que ficar um ou dois dias a mais em caso de chuva. Em 1997, começou a chover forte minutos antes do “Start your engines”. A corrida foi transferida para o dia seguinte mas, depois de 15 voltas, caiu outro aguaceiro e a prova foi transferida para a terça-feira. Nós, brasileiros, tínhamos passagem marcada para esse dia e acabamos vendo a corrida no aeroporto…

GPTotal
GPTotal
A nossa versão automobílistica do famoso "Carta ao Leitor"

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