O perfil descendente

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Entender o piloto Ayrton Senna é entender o significado do perfil descendente, em todas as suas implicações.

por Márcio Madeira

Entender o piloto Ayrton Senna é entender o significado do perfil descendente, em todas as suas implicações. Desde a composição do talento, passando pela estratégia preferida, e terminando em traços específicos da própria personalidade.

Os leitores mais veteranos do GPTotal já devem estar familiarizados à nomenclatura que lancei aqui mesmo, em meu primeiro artigo assinado, 11 anos atrás. Conforme essa tese, quando analisados de maneira superficial, pilotos em provas de repetição (circuitos fechados) podem ser divididos em três perfis básicos, de acordo com a evolução de seus posicionamentos ao longo de um fim de semana de competição. De forma resumida, pilotos que largam à frente daquilo que o conjunto consegue sustentar são os descendentes, pois apresentam a tendência de queda. Por outro lado, pilotos que se destacam mais pelo ritmo de prova e pela administração das diversas tarefas de uma corrida são chamados de ascendentes, pois tendem a terminar à frente de onde começaram. E, entre um extremo e outro, existe o raro perfil horizontal, do piloto equilibrado, cuja característica mais marcante é a própria constância.

Essa, claro é a análise básica, que irá se desdobrar em muitas outras, conforme o aprofundamento da questão. Existem qualidades específicas atreladas a cada um dos perfis, que também dizem respeito ao carro que se guia. E, claro, a angulação do perfil também é afetada pelo grau de sucesso que se obtém, pois um piloto que largue muitas vezes na pole não terá como melhorar suas posições, da mesma forma como quem larga em último irá sempre avançar, nem que seja apenas beneficiando-se das quebras à frente.

Juan Manuel Fangio é um bom exemplo desse tipo de situação. Primeiro piloto a verbalizar a mentalidade descendente intencional, ao afirmar que tentava sempre vencer andando o mais devagar possível, Fangio buscava a liderança como forma de controlar o ritmo da prova e reduzir as possibilidades de quebras. Com 29 poles e 24 vitórias em 51 corridas, seu perfil levemente descendente reflete muito mais sua proximidade à perfeição do que qualquer apego sentimental à liderança. Fangio, todos os registros o confirmam, sabia e aceitava ser ultrapassado, nas poucas ocasiões em que não tinha o melhor ritmo em pista.

A lista dos maiores expoentes do perfil continua com nomes como Jim Clark, Ayrton Senna, Sebastian Vettel e Lewis Hamilton, e aqui começamos a ter representantes muito mais característicos do grupo. O que não significa dizer, por óbvio, que não existam diferenças profundas entre esses nomes.

Primeiramente, no que se refere a qualidades, pilotos descendentes serão sempre rápidos e velozes, e uma virtude não deve ser confundida com a outra. Rapidez aqui diz respeito ao tempo necessário para que o piloto cumpra as etapas de avaliação instintiva e experimentação, tão logo vá para a pista em busca dos limites oferecidos por carro e pista, antes de iniciar a fase final de repetição. Já a velocidade máxima do piloto será determinada pela eficiência com que cumpre esses processos, e o quão perto conseguirá chegar – e se manter – desses mesmos limites.

Sob esse aspecto, os números diferenciam claramente as condições de Clark e Senna de um lado, Vettel e Hamilton de outro. Tanto pela concentração de poles sempre que tiveram equipamento para disputá-las, quanto pelas margens frequentemente impostas a nomes como Alain Prost ou Graham Hill, Clark e Senna apresentam-se num patamar sem paralelo entre os pilotos que já passaram pela F-1, à exceção de Fangio.

Por outro lado, quando se fala em apego à liderança, ferocidade, inflexibilidade, e até mesmo em intolerância a qualquer resultado que não seja de sucesso, o nome de Ayrton Senna destaca-se mesmo em relação aos fortes ímpetos de Vettel e Hamilton, e encontra-se em extremo oposto à competência cavalheiresca de Jim Clark.

Cruzando os dados, portanto, mesmo que na simplicidade de uma análise tão resumida, é fácil argumentar que o perfil descendente tem no nome de Ayrton Senna seu representante mais caracterizado. Absurdamente rápido, veloz como os mais velozes, dominador da arte do posicionamento, de todos os expedientes de defesa de posição e acometido por uma paixão patológica pela superação dos limites e dos adversários, Ayrton Senna escreveu uma carreira marcada inevitavelmente pela devoção dos fãs e por inimizades nas pistas; por assinar feitos impossíveis e cair em armadilhas quase infantis.

Na prática, a rapidez quase instantânea com que encontrava o limite a partir do zero, sem qualquer referência prévia, tornava-o especialmente forte nas voltas iniciais de corridas, nas voltas limitadas dos compostos de classificação, nas constantes adaptações em condições de clima variável, nas ondulações e curvas de baixa velocidade das pistas de rua, e ao volante de carros turbinados, com motores que necessitavam de atenção constante para manterem-se “cheios”. Não é de se admirar, portanto, que ele tenha assinado uma das maiores atuações da história em Mônaco, 1984, quando diversas dessas situações se apresentaram juntas, num mesmo dia. Nem que tenha protagonizado a melhor 1ª volta de todos os tempos, numa prova disputada sob clima variável, quando tudo era incerteza.

httpv://youtu.be/KRmUWPw2tq4

Inferno para uns, céu para ele.

Todas essas virtudes, no entanto, jamais teriam bastado para fazer de Ayrton Senna tudo o que ele foi, dentro e fora das pistas, da mesma forma como sua paixão pela vitória não teria sido capaz de diferenciá-lo de qualquer pessoa mal acostumada, mimada ou iludida em relação às próprias possibilidades. Não, o que torna Ayrton Senna tão especial, para o bem ou para o mal, é a combinação, em doses extremas, dessas duas realidades: o imenso talento ao volante, e a certeza íntima de que a vitória era sua por direito de nascença.

Personagens assim são polarizadores. As maiores qualidades de Senna eram também, muitas vezes, seus maiores defeitos, como pessoa e como piloto. As mesmas características que faziam dele um ídolo tão recompensador aos fãs, esportiva ou carismaticamente, o tornaram odiado por parte significativa da imprensa e dos entusiastas do esporte. A mesma inflexibilidade que dava a todo o mundo a certeza de que ele seria capaz de morrer tentando, mas jamais aceitaria passivamente a segunda colocação na maquiavélica armadilha criada por Prost no GP do Japão de 1989, deu ao mesmo Alain a certeza de que Senna morderia as iscas atiradas em Mônaco e em Monza no ano anterior.

Em retrospectiva, o perfil descendente rendeu a Ayrton Senna uma coleção invejável de vitórias improváveis se tentadas de outra forma. Corridas como Portugal 1985; Espanha 1986; Mônaco 1987 (quando se adaptou a uma suspensão rígida sem que ninguém de fora notasse o problema); Hungria 1988; Mônaco 1989 (guiando sem 1ª e a 2ª marchas); Bélgica 1989; Brasil 1991 (adaptando-se a um carro só com 6ª marcha, sob chuva e sofrendo com espasmos musculares); Hungria 1991; Mônaco 1992 e Donington 1993. Muito mais que isso, no entanto, as manifestações competentes e doentias de sua raça, materializada em manobras como a arrepiante ultrapassagem sobre Mansell em Jerez 86, a épica recuperação em Suzuka 88, a maior de todas as vitórias (ainda que não confirmada) na mesma pista no ano seguinte, a batida intencional de 1990, a vitória apoteótica em Interlagos 1991 ou a inesquecível volta de classificação na Hungria no mesmo ano, renderam a ele um status de lenda que só é permitido àqueles que, para além do brilhantismo, batem no peito e chamam a responsabilidade, tomando partido diante das circunstâncias, de um jeito ou de outro.

No fim das contas, a eterna discussão sobre quem terá sido o melhor piloto de todos os tempos é subjetiva, e encontra-se além dos limites do método científico. Ainda assim, se acaso fosse possível vaticinar uma conclusão, ela provavelmente não apontaria Ayrton Senna como vencedor. O fato é que ele era humano e apaixonado demais para ficar livre de fragilidades. Não faltam, no entanto, argumentos para sustentar que ele foi, sim, o piloto mais rápido a ser revelado pelo esporte a motor desde Jim Clark, e que raríssimos esportistas em toda a história souberam recompensar com tanta entrega, competência e carisma o apoio que receberam por parte dos fãs.

Dava gosto torcer por Ayrton Senna.

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Leia também:
“O combate contra Prost”, de Eduardo Correa
“A geração que não viu”, de Flaviz Guerra
“Because it’s there!”, de Manuel Blanco
“The turning point”, de Marcel Pilatti
“Enigma e chuva”, de Carlos Chiesa
“A maturidade de Senna”, de Lucas Giavoni
“Senna e a bandeira”, de Alessandra Alves

Especial Ayrton Senna
Especial Ayrton Senna
Por ocasião dos 21 anos da morte de Ayrton Senna, os colunistas do GPTotal dedicam uma série de textos ao tricampeão.

13 Comentários

  1. Helton Oliveira disse:

    Olá Marcio, seus textos são excelentes, tem mais algum texto sobre os Perfis dos pilotos ?
    Desde já agradeço a atenção !

  2. Ale disse:

    E como dava gosto de vê-lo correr. Faz falta

  3. Concordo plenamente com o Fernando a respeito da importância da combinação entre as qualidades do piloto, e o contexto em que ele compete. Essa, sem dúvida, é uma das frentes que melhor explica a distribuição dos resultados ao longo dos 64 anos do campeonato mundial.
    Só não concordo tanto, em relação à leitura das possíveis variações.
    No meu entendimento, a chave para a comparação de Senna com Villeneuve nos foi dada pelo próprio Ayrton, durante o programa Roda Viva de 1986, quando perguntaram a ele se ele se inspirava em algum piloto, e ele respondeu Gilles Villeneuve e Niki Lauda.
    Ora, Gilles e Lauda não poderiam estar em extremos mais opostos no que se refere à abordagem ao volante e à vida. Responder isso é como acender uma vela a Deus e outra ao diabo. Ou, como o “voar como borboleta e ferroar como a abelha” de Muhammad Ali, ou o “martelo e manteiga” de Jorge Lorenzo.
    Entendo que Senna admirasse a rapidez e a ousadia de Gilles, mas sentisse nele a ausência de controle, de respeito aos limites, que encontrava em Lauda, ainda que sem vibração.
    Em minha opinião, Gilles era tão rápido quanto Senna, mas não tão veloz. Seu entendimento sobre acerto fino era muito menor, e seu desrespeito aos limites comprometia sua velocidade final, na aderência menor do atrito dinâmico entre pneus e asfalto.
    Acredito que Gilles poderia ter tido enorme sucesso até o fim dos anos 50, com os carros que funcionavam em derrapagem controladas e numa época em que a fase da repetição não era tão homogênea assim.
    Do mesmo modo, acredito que Senna mostrou ser capaz de se adaptar a fragilidades mecânicas, como fez em 1985, a partir da Áustria, abrindo mão de toda aquela velocidade para começar a chegar até o fim das provas.
    Enfim, acredito que Senna poderia vencer em qualquer época, embora pudesse se dar melhor a partir de 1994, quando o reabastecimento aproximou as corridas dos treinos. Já Villeneuve, acredito que sua melhor época teria sido com pneus finos e motores dianteiros.
    Abraço!

    • Fernando Marques disse:

      Marcio,

      a minha comparação entre Senna e Villenueve não foi no sentido de dizer que um era melhor que o outro e sim de estilos semelhantes. O Senna não nasceu para fazer corridas táticas, nem o Villenueve. O Mario citou o Jim Clark. Não vi ele correndo. Daí não citá-lo. Fica a meu ver a duvida. Ela jamais será esclarecida.
      O Senna citar o Lauda, talvez tenha citado o Lauda dos anos 70. Ele era muito veloz e tático. Mas corrida tática nunca teve nada a ver com o Senna.

      Fernando Marques

    • Arlindo Silva disse:

      Embora ainda ache que ele seria um piloto competitivo, acho que as coisas seriam mais dificeis para o Senna com a chegada do reabastecimento. Certamente que ele poderia se destacar, mas não sei se seria o piloto dominante, ainda mais no estágio de carreira que ele já estava (34 anos e 10 de carreira).

      Olhando para a geração que chegou nessa época (especialmente Schumacher e Hakkinen), e olhando também o comportamento de Senna em corridas em que teve de encarar um ritmo de prova forte do princípio ao fim (Hungria 1986, 1989, Jerez 1990, Brasil 1994), eu vejo que ele teria mais dificuldades do que no período anterior.

      Se você olhar a mecânica do GP do Brasil de 1994 (onde o Senna teve algumas dificuldades especialmente no segundo stint), ela não difere muito das mecânicas de vários GPs protagonizados por Schumacher e Hakkinen no final daquela década.

      Outros pontos a se salientar é que a geração que veio nos anos 1990 era melhor preparada para andar na chuva do que a anterior e os principais rivais de Senna não seriam tão ruins nas negociações com retardatários como por exemplo o Prost era.

      Abraços
      Arlindo

      • Eu tomo como base justamente o GP do Brasil de 1994, Arlindo.
        Ao longo da carreira, Senna teve seu ritmo de prova sempre limitado por questões de fragilidade mecânica, conservação de pneus ou consumo de combustível. A partir de 1994, no entanto, ele teria a liberdade para dar o máximo sempre.
        Não discuto que Schumacher teria sido um rival ferrenho, pois tinha no ritmo de prova sua maior virtude, ao passo que não rendia tanto quando tinha que conservá-los (92, 93, 2005, 2010-12). Mas é preciso lembrar que no Brasil, em 1994, Senna colocou uma volta em cima de ninguém menos que Damon Hill, com equipamento idêntico, e que o Benetton estava numa condição, no mínimo, duvidosa.
        Não tiro os méritos da grande corrida do Schumacher, mas a diferença de tempo nos reabastecimentos foi absurda, e você conhece a história do que viria pela frente.
        Meu entendimento de que Senna teria anos vitoriosos pela frente nasce do fato de que, no limite extremo, ele era mais veloz do que Schumacher, da forma como a Williams evoluiu ao longo daquele ano, e dos ótimos carros que Newey desenhou para os anos seguintes, e que certamente teriam sido bons mesmo em outros regulamentos.

  4. Mário Salustiano disse:

    Márcio e amigos

    Realmente a cada texto os colunistas nesse especial sobre Senna está sendo o tipo da experiência onde o ato da leitura é surpreendente do começo ao fim, e voce Márcio manteve a escrita.

    Parabens!!!!

    Mário

  5. Rubergil Jr disse:

    Caramba, Marcio, você sempre escreveu bem, mas este texto está demais.

    O Edu também escreveu um texto épico. Muito legal este especial.

    Dá gosto ler o GPTotal..

  6. Mauro Santana disse:

    Belo texto Marcio!

    Realmente dava gosto de torcer pelo Senna, pois ele nunca desistia de uma batalha, mesmo que isso lhe custa-se abandonos ou acidentes.

    E concordo contigo Fernando, da mesma maneira se o Gilles não tivesse encontrado o seu destino e tivesse permanecido na F1 até os anos de 85 e 86.

    Já pensou as batalhas que haveriam na pista caso isso tivesse acontecido!?

    Seria Fantástico!!!!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Fernando Marques disse:

      Uma batalha entre Gilles Villenueve e Senna certamente iria deixar o Mansel no pelotão de trás …

      Fernando Marques

      • Mauro Santana disse:

        Com certeza Fernando, e aí, a história do Leão na F1 poderia ter sido muito diferente.

        Mas, a nós amantes da F1, só nos resta imaginar, imaginar, imaginar…

        Abraço!

  7. Fernando Marques disse:

    Marcio,

    eu sempre tive a certeza que o Ayrton Senna apareceu na Formula 1 numa hora certa para ele. Se o surgimento dele fosse nos anos 70, não tenho duvidas que ele seria lembrado como um Gilles Villenueve e Ronnie Peterson. Ou seja foram sensacionais pilotos vencedores mas que nunca campeões mundiais. Não havia carros velozes e resistentes ao mesmo tempo.
    A Formula 1 evoluiu e no fim dos anos 80 quando surgiu o Senna a Mclaren pode-lhe dar um carro veloz e resistente. A Formula 1 nunca foi benévola com pilotos com essas características em toda a sua historia até então. Poder ter um carro rápido e resistente foi uma benção. Se Gilles ou Ronnie tivessem tido carros assim teriam sido campeões pois não ia ter Emerson, Piquet, Lauda, Stuwart para segura-los.
    Uma unica semelhança não foi alterada. A maioria teve o seu fim de forma trágica nas pistas.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Mário Salustiano disse:

      Fernando

      voce tem razão , mas eu imagino que Clark também foi um piloto de estilo descendente semelhante a Senna e foi Bi campeão, também em relação aos anos 80 apesar do grande avanço tecnológico ainda havia um alto índice de abandonos por problemas mecânicos, imagina Senna correndo nos dias atuais onde quase não vemos quebras, apesar de mera especulação de minha parte acho que ele bateria a marca de 100 vitórias na carreira de 160 GPs disputados

      abraços

      Mário

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