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Leia aqui a 1ª parte desta coluna: http://gptotal.com.br/e-a-economia-estupido-1a-parte/

O pior é que não se pode atribuir a Masi desconhecimento do regulamento, pois durante o Eifel GP do ano passado, quando se lhe recriminou haver mantido o carro de segurança durante “demasiado tempo”, ele se defendeu dizendo: “o regulamento requer que a todos os carros se lhes permita recuperar suas voltas perdidas”. Pois bem… isto não aconteceu nesta ocasião!

O regulamento também foi desprezado no que se refere à retirada do carro de segurança, que estabelece que este deixe a pista na volta seguinte à que todos os carros com volta perdida tenham se situado em fila atrás dos líderes. Neste caso, isso teria acontecido na volta 59… mas o GP se disputava em 58 voltas! Assim, a corrida devia ter acabado sob bandeira amarela, e com todos os concorrentes seguindo o carro de segurança e Hamilton…

Como é lógico e ante tanto despropósito, a equipe Mercedes apresenta uma queixa formal ante os fiscais em base a estas violações do regulamento no que se refere aos artigos 15 e 48. A resolução foi tão surpreendente quanto os próprios acontecimentos vividos, pois em sua resposta os fiscais se limitaram a invocar o artigo 15.3 do regulamento, argumentando que este dava poder ao Diretor de Corrida sobre o uso do carro de segurança e, em consequência, recusava a queixa.

Qualquer um que leia o artigo pode ver que apenas estabelece uma hierarquia de poder entre as diferentes autoridades presentes durante a celebração de um GP, especificando que o poder do Diretor de Corrida prevalece sobre o do Comissário da Corrida. Em nenhum lugar se diz que esse poder seja ilimitado e lhe permita fazer o que bem entenda com o carro de segurança. De modo geral, seria descabido imaginar que um regulamento que concede poder a alguém, lhe conceda também o poder de desprezar esse próprio regulamento. Em definitiva, o poder do Diretor de Corrida emana desse regulamento, mas este também está por cima dele mesmo.

No referente ao artigo 48, a resposta foi, assim mesmo, tão lacônica quanto ridícula e uma vez mais “exprimiam” o regulamento para justificar o imbróglio, aduzindo que: “uma vez se avisa os pilotos que o carro de segurança se retira… este deve ser retirado nessa volta”. Porém esquecem que para chegar a esse momento, se devem cumprir certas condições… que não se deram!

As respostas, apesar de dizerem muito pouco… realmente diziam tudo. Diziam que as coisas ficariam como estavam!

E ficam mesmo, pois os chefões da Mercedes em Stuttgart já disseram que aceitam o resultado. Para a empresa, a Fórmula 1 apenas é uma forma de promoção da marca e tanta polêmica não é boa para a sua imagem.

Todos estes anos de vitórias e títulos já foram muito bem aproveitados e o investimento amortizado. Porém, não deixa de ser chocante que o homem que lhes convenceu de que se envolvessem de cheio na Fórmula 1, proporcionando-lhes uma enorme exposição mundial, seja agora “abandonado”. Parece que o que menos importa é a razão, pois… o negócio é o negócio!

No fim esta será outra temporada que permanecerá na lembrança de todos, pois a sua resolução não podia nem ser superada por uma superprodução de Hollywood, e a Liberty teve o que queria: audiência. No que à FIA se refere, e como nosso querido Rafael Mansano disse em sua recente coluna (http://gptotal.com.br/o-campeao-da-fia/): “para a FIA, o resultado foi ótimo. Sangue novo, um jovem, uma mudança para sair da mesmice de ser sempre o mesmo vencedor”.

No que a mim respeita, foi o pior final possível e deixando-me a sensação de que ganhou quem queriam que ganhasse. Teria bastado que Masi seguisse o regulamento e ninguém poderia acusá-lo de nada. No entanto, resulta difícil não ver que a sua interferência foi a que decidiu o campeonato. Uma temporada tão interessante não merecia terminar deste modo.

Tenho visto como, sempre que se comenta este final, se salienta que “venceu quem merecia!”. No entanto, me parece que, com isto, apenas se está tratando de se autoconvencer de que, no fim, tudo esteve bem. De que, no fim, o resultado se pode aceitar como bom. De que, de algum modo, o fim justifica os meios.

Porém, a meu modo de ver, não é uma questão de quem venceu ou não, mas de como isso aconteceu. O diretor da corrida não seguiu as normas e isso interferiu no curso dos acontecimentos. Não é uma questão de quem merecia ou não vencer, mas de quem se beneficiou dessa interferência. Certamente, Max merecia a vitória, mas tanto quanto Hamilton que, possivelmente a merecia até mais, pois era ele quem dominava a corrida com autoridade. Portanto merecimento não está em dúvida.

No entanto, o que nenhum deles merecia era que tudo acabasse do modo que acabou: para Max, seu primeiro título (e quem sabe se o único) sempre ficará maculado por essa interferência que tanto lhe favoreceu. Merecido, sim, mas indiscutível… não. Para Hamilton, será uma derrota amarga e com sabor a roubo, pois isso mesmo é o que acabou parecendo ser: um roubo.

Contudo, que se lhe haja roubado o título ou não, realmente, se trata do que menos importa. Pois o que mais me molesta é que esse roubo foi perpetrado contra a competição, privando-a da iniludível e indiscutível integridade da qual sempre deve estar revestida. A integridade na competição deve ser como uma couraça que a proteja e, basicamente, se apresenta em forma de regulamentos. Assim, quando esses regulamentos não se respeitam por aqueles que devem velar pelo seu estrito cumprimento… essa integridade se ressente.

Por último, o que verdadeiramente mais me molesta é que, como aficionado de longo tempo, eu também sinto que fui roubado. Eu fui roubado da confiança que ainda tinha nessa integridade (ou pelo menos na que ainda restava). Roubado da fé que tinha em que os campeonatos se dirimiam só nas pistas.

Talvez eu seja apenas um ingênuo e a competição é o que menos conta. Talvez o que mais importa sejam coisas como as audiências, as vendas deste ou aquele produto, os negócios etc., pois como dizia aquele cartaz pendurado na sede de campanha de Clinton… É a economia, estúpido!

Um abraço, até a próxima

Manuel Blanco

 

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

2 Comments

  1. manuel disse:

    “ A FIA vai mudar o resultado da corrida de Abu Dhabi ? “
    ————————————————————————-
    Oi Fernado,

    Sinceramente, acho que não !
    Basta lembrar aquele tal painel para investigar a morte de Jules Bianchi. Imagino que teremos algo parecido nesta ocasião !
    Alargam a resolução até o começo da temporada, e no embalo da mesma, ninguém presta atenção á tal resoluçao.
    A fia já anunciou, com sua habitual verborragia que:
    “ Um detalhado análise e exercício de clarificação para o futuro com todas as partes relevantes terá lugar “

    Vejá só: PARA O FUTURO.

  2. Fernando Marques disse:

    Grande Manuel,

    parte 2 espetacular.
    A sua coluna nos faz refletir sobre muitas coisas a respeito da Formula 1. O que aconteceu na ultima etapa da temporada foi um total desrespeito ao regulamento e digo mais, abre sérios e perigosos precedentes ao que pode vir pela pela frente na Formula 1. Aliás a Formula 1 virou um circo de desrespeito ao regulamento.
    A Mercedes, como muito bem dito por você, não quer ficar envolto em polêmicas e aceitou o veredito. Até por que, quem deveria fazer alguma coisa realmente contra a essa falta de respeito com o regulamento, não fez e nem fará. Decretou Max Varsptappen campeão e assinou em baixo. Ou seja fez parte do roubo. O sentimento que tenho em relação ao que foi a temporada de Formula 1 é que tudo foi uma FARSA. O GP da Belgica foi uma farsa. Aquela freada do Max na reta no meio da pista …

    No inicio da temporada de 2021, já me parecia claro que esta poderia ser a ultima temporada de L. Hamilton na Formula 1. Ganhando ou não seu 8º titulo. Havia algumas marcas super interessantes a conquistar como a pole e vitória de nº 100 e essas marcas foram alcançadas. Ele, independentemente de ganhar seu 8º titulo ou não, se tornou o maior piloto da historia. E pelo que parece a aposentadoria do Hamilton pode ser uma realidade.

    A FIA prometeu uma investigação e em breve saberemos o resultado do inquérito. Mas falando sério, a FIA vai mudar o resultado da corrida de Abu Dabi? Obvio que não. Teremos um soneto pior que a emenda. A Formula 1 perdeu a credibilidade.

    Faz bem o Hamilton se aposentar. Faz bem o botão OFF estar apertado, Vai curtir a sua vida. Ele não precisa de mais nada da Formula 1. Faria a mesma coisa no lugar dele.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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