
Esopo foi o autor das fábulas mais famosas que se conhecem, e algumas delas eram até mesmo utilizadas como exemplos de vida nos discursos políticos da Grécia Antiga. As fábulas falavam-nos de acontecimentos cotidianos, mas sempre sob uma perspectiva moral ou com algum ensinamento prático. Uma de suas fábulas mais famosas, que continua atual até os dias de hoje, é aquela que nos conta a história de uma lebre e uma tartaruga.
A fábula se passa em uma floresta distante. A lebre sempre se gabava de sua agilidade e velocidade explosiva, zombando da falta de jeito e da lentidão da tartaruga. Cansada de tanta humilhação, a tartaruga, em um momento de raiva, desafia a lebre para uma corrida até os limites da floresta. A lebre, entre gargalhadas, aceita o desafio.
Na data e hora marcadas, diante de uma grande multidão, a corrida começa com a lebre saindo a toda velocidade e desaparecendo rapidamente de vista, enquanto a tartaruga mal havia dado o primeiro passo. Com tanta vantagem, a lebre, já que estava muito calor naquele dia, decide descansar um pouco à sombra de uma árvore… e acaba caindo num sono profundo. Quando acordou, viu que a tartaruga estava prestes a alcançar a linha de chegada marcada e saiu correndo desesperadamente, mas foi em vão, pois, quando chegou à linha, a tartaruga acabara de cruzá-la.
A lição contida na fábula não poderia ser mais explícita, pois demonstrava claramente o valor da perseverança. Enquanto a lebre, com toda a sua arrogância, se vangloriava de sua velocidade, a tartaruga, paciente, mas sem parar, seguia seu caminho sem alarde até o triunfo final.
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Quando se pergunta a qualquer fã da Fórmula 1 se prefere um campeonato dominado por um único piloto ou um em que haja mais emoção devido à imprevisibilidade, normalmente a segunda opção é a escolhida. No entanto, é curioso que, quando ocorre um campeonato assim, o vencedor seja sempre submetido à análise mais minuciosa, detalhada e até mesmo cruel. Tudo é posto em dúvida; tudo é alvo de críticas severas; cada detalhe é examinado em busca da menor objeção. Parece que o problema de um campeonato em que qualquer um pode vencer é que o vencedor acaba sendo “qualquer um”.
Um exemplo perfeito de um campeonato assim foi o de 1982, quando o vencedor foi o finlandês Keke Rosberg (com seu Williams, na foto que abre esta coluna). Apesar de ter sido um dos mais disputados de que se tem memória, com onze pilotos de sete equipes diferentes vencendo corridas — o que deveria conferir a Rosberg a honra de estar entre os campeões mais valorizados —, ocorre exatamente o contrário e surgem todo tipo de objeções ao seu título para diminuir o mérito da conquista. Muitas vezes, sua vitória é atribuída à sorte, ou ao azar dos outros. Ele é acusado de ser um campeão “fraco” por ter conquistado apenas uma vitória (embora o campeonato fosse decidido, e seja decidido, por pontos), esquecendo-se de que ninguém conseguiu mais do que duas vitórias naquela temporada. Também se diz que o acidente de Didier Pironi, quando liderava a classificação do campeonato com folga, foi o fator mais decisivo, já que impediu o francês de disputar as últimas cinco corridas. Em suma, diante de todas as críticas, parece até que Rosberg só foi campeão por “acaso”. Que simplesmente estava no lugar certo na hora certa.
No entanto, acredito que essa visão, além de injusta, não leva em conta o panorama completo daquela temporada nem todos os acontecimentos e vicissitudes que ocorreram ao longo dela. Assim, tentarei fazer um percurso pelos meandros do que aconteceu; desvendar os fatos além do óbvio para compreender um pouco melhor aquela temporada e, se possível, devolver a Rosberg pelo menos parte do crédito que não lhe está sendo dado. Para isso, dividi a temporada em três fases que me parecem bem definidas: a primeira abrange as cinco primeiras corridas, a segunda compreende as seis seguintes e a última corresponde às cinco corridas restantes.
Passemos, então, à primeira dessas fases.
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O campeonato teve início com o Grande Prêmio da África do Sul, onde as equipes equipadas com motores turbo dominaram os treinos, ocupando as três primeiras filas do grid, como uma espécie de demonstração de que já estavam em condições de impor seu domínio sobre os motores atmosféricos. René Arnoux, pela Renault, largou da pole, mas seria seu companheiro Prost quem venceria a corrida, enquanto os outros turbos — Ferrari e Brabham-BMW — ficariam fora da disputa, o que deixava claro que ainda tinham muito a melhorar em termos de confiabilidade.
Em seguida, viria a corrida do Brasil, onde a Renault, desta vez com Prost, voltou a conquistar a pole position, com Gilles Villeneuve, da Ferrari, ao seu lado. Na terceira posição estava Keke Rosberg, com sua Williams-Cosworth. Nessa ocasião, a Brabham optou pelo motor Cosworth, mais confiável, com Nelson Piquet largando da sétima posição. Sob o calor carioca, Piquet (foto abaixo) e Rosberg acabaram superando a Prost, mas diante de uma reclamação posterior da Renault e da Ferrari, alegando que tanto a Brabham quanto a Williams estavam abaixo do peso mínimo, a FISA deu razão às reclamantes e desclassificou ambas. Com isso, a vitória ficou com Prost, enquanto John Watson, Nigel Mansell, Michele Alboreto, Manfred Winkelhock e Didier Pironi completaram as seis posições que davam direito a pontos.

Sem sair do continente americano, chegou o Grande Prêmio do Oeste dos EUA, em Long Beach. No circuito urbano da cidade californiana, os Turbo não se deram nada bem e apenas Gilles Villeneuve conseguiu terminar a corrida, embora tenha acabado sendo desclassificado devido à reclamação da Tyrrell sobre o aerofólio traseiro irregular utilizado pela Ferrari (foto abaixo). A vitória ficou com Niki Lauda, com Rosberg em segundo lugar, de modo que os dez pilotos que terminaram a prova equipavam seus carros com o motor Cosworth.

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O Grande Prêmio de San Marino levou as escuderias de volta à Europa, mas sem as equipes mais representativas da FOCA, que, em protesto contra a desclassificação de Piquet e Rosberg no Brasil, decidiram boicotar a corrida e não compareceram. Assim, com apenas quatorze participantes, a Renault ocupou a primeira fila do grid e a Ferrari a segunda, mas na corrida, os dois Renault abandonaram e a Ferrari conseguiu uma dobradinha, com Pironi em primeiro lugar e Villeneuve em segundo. No entanto, esse resultado não ficou isento de polêmica, já que não era o que lhes havia sido ordenado: manter as posições quando Villeneuve estava na liderança, mas Pironi não respeitou a ordem (foto abaixo).

O circuito de Zolder, na Bélgica, era a próxima parada e, mais uma vez, a Renault dominou a sessão de classificação, com seus dois pilotos nas primeiras posições do grid. Na Ferrari, a tensão no box era evidente após o incidente em Ímola, e tudo piorou ainda mais com o terrível acidente que custou a vida a Villeneuve naquela sessão, pelo que a Ferrari decidiu retirar-se do Grande Prêmio por respeito a Gilles. No sinuoso circuito belga, John Watson venceu, com Rosberg em segundo lugar, enquanto o único Turbo a terminar foi o Brabham-BMW de Piquet. Como curiosidade cabe citar que naquela corrida Chico Serra, marcou seu único ponto da temporada e último de equipe Fittipaldi.
Prossigo em nosso próximo encontro, segunda-feira, dia 18. Até lá
Manuel Blanco