A primeira de Lewis

A tartaruga – 3ª parte
12/06/2026

Trinta anos atrás, Michael Schumacher vencia a sua primeira corrida pela Ferrari em Barcelona, após uma exibição de encher os olhos do alemão debaixo de muita chuva. A performance de Lewis Hamilton (foto que abre esta coluna) nesse 14 de junho de 2026 não foi tão impressionante, mas valeu pelo marco histórico. Três décadas após Michael, o segundo heptacampeão da história da F1 venceu sua primeira corrida pela Ferrari em Barcelona.

Assim como em 1996, a Ferrari não tem o melhor carro do pelotão, mas, se Schumacher usou a pista encharcada a seu favor, Hamilton fez funcionar uma agressiva estratégia de três paradas para derrotar a poderosa Mercedes, que amargou sua primeira derrota em 2026, assim como mais uma quebra, dessa vez no carro do líder do campeonato, Andrea Kimi Antonelli, dando um leve suspiro para George Russell, que acabara de ser ultrapassado pelo companheiro de equipe e acabou recortando dezoito pontos de desvantagem no campeonato. No entanto, George viu Lewis Hamilton se consolidar como vice-líder do campeonato e entrar na luta pelo título.

O final de semana em Barcelona começou com a polêmica decisão da FIA em reverter a punição a Gasly em Monte Carlo, fazendo com que o francês da Alpine ‘voltasse’ ao pódio conquistado na pista. O grande ponto foi que a Alpine, liderada pela raposa felpuda Flavio Briatore, achou um fato novo para a grande quantidade de punições por excesso de velocidade em Monte Carlo, o que eliminou os 10s de punição acrescidos ao tempo de Gasly.

Porém, Mercedes e McLaren reclamaram que, se havia um problema na medição de velocidade no pit-lane em Mônaco, as punições impostas a Piastri e Russell teriam que ser revertidas também, sendo que o inglês ainda foi punido novamente com um drive-through por não ter cumprido a punição original, fazendo Russell sair da zona de pontos. Como restituir isso? Com a palavra, a FIA, que criou mais um problema para si.

Os treinos livres mostraram um George Russell (foto abaixo, à frente de Kimi) extremamente forte e a Mercedes, sem surpresas, liderando em Barcelona, pista que todas as equipes conhecem e que tradicionalmente valoriza os melhores carros. Antonelli não se destacou em nenhum momento, enquanto a McLaren mostrou força no segundo treino livre. Leclerc anunciara que utilizaria os mesmos freios de Hamilton, após polêmica com a histórica fornecedora da Ferrari, a Brembo. Leclerc se mostrou mais à vontade e andando à frente de Lewis, mas Charles jogou tudo pelos ares ao errar no Q3, tendo que largar em décimo. Depois da classificação, Leclerc chegou a declarar que “deve ser difícil alguém torcer por mim…”

Photo by David Davies/PA Images via Getty Images

Outro destaque negativo para a Aston Martin, que tomou 1s da novata Cadillac na classificação e Alonso perdeu uma classificação para Stroll depois de quase dois anos, significando que Fernando, piloto da casa, ficou com a última posição no grid. Para quem falou que essa pode ser sua última corrida em Barcelona, esse resultado de Alonso não lhe ajudou em nada. Contudo, a Cadillac ainda sofre com problemas sérios de estrutura nos seus carros. Se no Canadá a suspensão dianteira de Pérez se desmontou praticamente sozinha, no treino livre de sábado Bottas ficou sem freio, numa situação bastante perigosa.

No momento decisivo da classificação, Russell confirmou seu favoritismo com uma pole bem forte e, para ajudar sua causa, além de Antonelli ter permanecido três décimos atrás dele, Hamilton ainda colocou sua Ferrari entre a dupla da Mercedes. Após ficar atrás de Leclerc o tempo todo, Lewis foi muito forte onde importava e ficou bem próximo de Russell. Lando Norris ficou meros três milésimos atrás de Kimi, seguido pela dupla da Red Bull e só então Piastri.

Photo by Rudy Carezzevoli/Getty Images

O dia estava bem quente em Barcelona e, com a Pirelli usando compostos mais macios em comparação ao ano passado, a corrida em Montmeló seria baseada muito na estratégia das equipes e no desgaste de pneus. Hamilton mostrou a que veio ao largar com pneus macios, indicando que atacaria seu antigo companheiro de equipe, George Russell, no apagar das luzes vermelhas (foto acima), enquanto a maioria do grid largaria com pneus médios. No entanto, ao contrário do que foi visto nas primeiras provas de 2026, a Mercedes parece ter resolvido o problema de largadas e Russell não apenas manteve a ponta da corrida, como Antonelli quase tomou o segundo lugar de Hamilton. Isso, após Kimi ter problemas com seu Mercedes antes da largada e quase ficar de fora.

Em outros lugares ao longo do pelotão, Isack Hadjar e Gabriel Bortoleto largaram muito mal e perderam muitas posições, enquanto Leclerc pulou de décimo para sétimo e Verstappen ultrapassou Piastri. A corrida ficou bastante estática no começo. O forte calor não motivava os pilotos a atacarem seus adversários, pois isso poderia estragar os pneus e, como consequência, atrapalhar as estratégias.

Saindo com pneus macios numa pista de alto desgaste de borracha, Hamilton abria o leque de estratégias, indicando uma rara tática de três paradas programadas, enquanto a maioria das equipes esperava duas paradas. Uma parada? Praticamente impossível. Como esperado, Hamilton abriu a primeira rodada de paradas e, para cobrir o ritmo mais forte de Lewis, a Mercedes logo trouxe Russell, enquanto Antonelli e Leclerc ainda ficaram mais algumas voltas na pista antes de realizarem suas primeiras paradas.

As posições se mantiveram mas, com pneus duros, Russell começou a sofrer mais, enquanto Antonelli crescia. O italiano rapidamente se aproximou dos dois primeiros colocados. Hamilton mantinha-se próximo de Russell e quando já tinha Antonelli próximo de si, o inglês entrou para os boxes para a Ferrari realizar o seu segundo pit-stop. Ao colocar pneus médios, a Ferrari mostrava as suas cartas e todos sabiam que Hamilton iria para uma tática de três paradas. Hamilton voltou à pista muito rápido, enquanto Antonelli encostava de vez em Russell e ameaçava alguns ataques. Lando Norris (foto abaixo) fazia uma corrida sólida e com basicamente a mesma estratégia da Mercedes, acompanhava de perto os carros da matriz com sua McLaren.

Photo by Rudy Carezzevoli/Getty Images

O ritmo avassalador de Hamilton nos permitia prever um final de corrida emocionante, mas Lewis nem precisou mostrar isso, pois a sorte lhe sorriu. Quando liderava a prova após a dupla da Mercedes e Norris completarem suas segundas e últimas paradas, Fernando Alonso abandonou seu Aston Martin na curva nove. O Safety Car Virtual deu as caras bem no momento em que a terceira parada de Hamilton se aproximava. Com todos os carros mais lentos na pista, Hamilton foi aos boxes e, com a Ferrari sendo perfeita na parada, Lewis emergiu do pit-lane um pouco à frente de Russell, permanecendo na ponta e com pneus mais novos. A corrida de Barcelona estava nas mãos habilidosas de Hamilton.

Depois de um 2025 esquecível, em que Lewis Hamilton chegou a dar declarações bem ruins sobre si mesmo, levantando várias questões sobre como Hamilton seguiria na F1, o inglês deu a volta por cima em 2026, começando por superar seu rápido, mas inconstante, companheiro de equipe Charles Leclerc. Segundo o próprio Hamilton, ele ajudou a ‘construir’ o novo carro da Ferrari mais ao seu estilo, o deixando mais confortável com sua pilotagem, mesmo que a Ferrari ainda tenha um déficit de potência no motor em comparação à Mercedes. Com pneus novos, Lewis Hamilton imprimiu um ritmo muito superior à dupla da Mercedes, não dando chances aos seus adversários, permitindo a Lewis conseguir sua 106ª vitória na sua laureada carreira, sua primeira com a Ferrari.

Enquanto Hamilton comemorava bastante com sua equipe, seu antigo chefe de equipe estava puxando os cabelos nos boxes. Dez anos depois do infame incidente entre o próprio Hamilton e Nico Rosberg (que fez a entrevista pós-corrida) em Barcelona, Toto Wolff via seus dois pilotos lutarem por posição novamente. Russell parecia sem muita defesa contra Antonelli, mas o inglês precisava dar uma resposta frente à ótima sequência de Kimi, que tinha Norris não muito atrás. Antonelli precisava avançar e falou isso no rádio, mas Toto Wolff não interferiria numa disputa entre seus dois pilotos, ainda mais valendo pontos que poderão decidir o campeonato.

Antonelli fustigou bastante e, faltando quatro voltas, o italiano saiu mais forte da última curva, efetuando uma bela ultrapassagem no final da reta dos boxes. Porém, uma volta depois, mais fantasmas na cabeça de Wollf surgiram quando Antonelli apareceu lento, como ocorrera com Russell em Montreal. Um problema de bateria promoveria o primeiro ‘zero’ de Antonelli em 2026, fazendo com que o vice-líder Hamilton encostasse no campeonato.

Para Russell, o abandono de Kimi foi importante, pois ele descontou bons pontos no campeonato mas, para quem viu a corrida, ficou claro que George foi mais uma vez superado por Kimi na pista, além de que o inglês não capitalizou com uma vitória o infortúnio de Antonelli.

Outro ponto é que a Mercedes, que no ADUO, sistema que a FIA inventou para tentar emparelhar as fornecedoras de motores, ficou atrás da Ford/Red Bull, parece mesmo precisar de inovações na questão de confiabilidade. Os motores alemães destruíram algumas corridas dos pilotos que usam motores Mercedes e, dessa vez, foi com o líder do campeonato e piloto da equipe de fábrica ser a principal vítima dessa inconfiabilidade. A Mercedes viu o vice-líder do campeonato tirar 25 pontos com mais essa quebra.

O abandono de Antonelli, que foi seguido logo depois por Leclerc, promoveu Lando Norris ao pódio, criando um fato histórico. Desde 1968 não tínhamos um pódio inteiramente britânico e desde 1958 não tínhamos um pódio totalmente inglês. Norris fez uma corrida forte, sempre próximo da Mercedes, mas o atual campeão não pôde atacá-los, mesmo forçando bastante e Lando novamente andou bem mais do que Piastri, que chegou numa opaca quinta posição. A má fase do australiano parece não ter terminado ainda.

Porém, para a McLaren foi importante constatar que Norris provou que não apenas a Ferrari se aproximou do ritmo da Mercedes, mas também a equipe de Zak Brown e seus papaia-caps. Max Verstappen largou bem com pneus macios, mas o neerlandês pouco apareceu depois disso, se aproveitando do abandono de Antonelli para terminar num distante quarto lugar. Hadjar deu show nas primeiras voltas, ultrapassando vários carros após sua má largada. O francês da Red Bull terminou em sexto lugar, sem condições de evoluir mais após escalar o pelotão intermediário.

A forma fácil como Hadjar deixou vários carros do pelotão intermediário para trás apenas reflete a sensação de que há um verdadeiro abismo entre as quatro principais equipes e o resto do grid. Inicialmente a dupla da Racing Bulls liderou esse pelotão, com Lawson e Lindblad usando suas boas posições de pista, inclusive com o jovem inglês sendo o último a fazer sua primeira parada, mas a Racing Bulls acabou sobrepujada pela Alpine (foto abaixo) que, após as primeiras paradas foi para frente da Racing Bulls, com Gasly na frente de Colapinto, após a equipe ordenar uma inversão dos seus carros, para desgosto de Colapinto.

Photo by Clive Rose/Getty Images

Lawson e Lindblad fecharam a zona de pontos, num dia em que apenas quinze carros completaram a prova. Hulkenberg estava na luta pelos seus primeiros pontos, mas acabou abandonando por um dos motivos mais bizarros da história da F1. Correndo logo atrás de Lawson, Hulk viu o neozelandês sair da pista rapidamente e por isso, uma ‘chuva’ de brita atingiu o Audi do alemão. Uma dessas pedras atingiu o sistema de segurança do carro de Hulkenberg, desligando a unidade de potência e destruindo a corrida promissora de Nico.

Após sua má largada, Bortoleto pouco evoluiu no pelotão mas, se aproveitando dos abandonos, terminou em 11º, quase voltando aos pontos, mesmo que tomando duas voltas. Sainz terminou logo atrás de Gabriel, num dia não muito bom da Williams, que viu Albon se tornar o piloto com mais corridas pela equipe cruzar a linha de chegada com várias voltas de atraso. Bearman também abandonou, mas por pouco não foi vítima de Ocon no começo da corrida. Sergio Pérez completou com sua Cadillac, enquanto a Aston Martin abandonou com seus dois carros e Alonso chegou a declarar que preferia estar nas arquibancadas do que correndo com seu carro atual.

A vitória de Hamilton (foto abaixo) deu alguns recados para esse campeonato. A quebra da invencibilidade da Mercedes, numa pista onde normalmente os melhores carros se destacam, mostra que o time de Toto Wolff não pode baixar a guarda e que os demais times estão chegando, principalmente Ferrari e McLaren.

Apesar da sorte do SC Virtual na hora certa, o ritmo que Hamilton imprimiu em sua estratégia diferente poderia colocá-lo em primeiro, independentemente do seu golpe de sorte, significando que, mais do que a Ferrari está de volta, Hamilton também está de volta! Com Antonelli sofrendo seu primeiro abandono e Russell saindo derrotado de Barcelona, pode ser que o campeonato não esteja tão ganho como a Mercedes imaginava.

Não esqueci de Le Mans, não. É que Lucas Giavoni comentará a corrida na próxima sexta, dia 19.

Abraços!

João Carlos Viana

 

 

 

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

1 Comments

  1. Edu disse:

    Bela corrida de Hamilton e da Ferrari, coisas raras nos últimos tempos

    Edu

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