
A 1ª parte desta coluna, que relembra o título mundial de Keke Rosberg (foto que abre esta coluna) você lê aqui
E a 2ª aqui
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A segunda fase do Mundial de 1982 começa com o Grande Prêmio de Mônaco, onde Patrese conquista sua única vitória na temporada, com Pironi em segundo. Nenhum dos outros pilotos na disputa pelo campeonato pontua, seja por problemas mecânicos ou abandonos.
Em seguida, nas ruas de Detroit, John Watson garante sua segunda vitória, enquanto do outro lado da fronteira, no Canadá, a Brabham conquista uma dobradinha, com Piquet seguido por Patrese e Pironi completando o pódio. No entanto, foi um pódio agridoce devido ao acidente fatal no início da corrida envolvendo o jovem Riccardo Paletti.
Na Holanda, Pironi vence novamente e, na Grã-Bretanha, Lauda conquista sua segunda vitória na temporada, com Pironi em segundo (foto abaixo). O Grande Prêmio da França encerra esta fase, com uma dobradinha da Renault, com Pironi completando o pódio francês em casa, para a alegria da torcida local.

Nesta fase, a sequência de bons resultados de Pironi consolidou sua liderança no campeonato, e ele já era considerado o favorito ao título. A classificação dos dez pilotos de maior sucesso nesta fase é a seguinte (os pontos acumulados nesta fase e na primeira fase são mostrados à direita):

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Chegados a este ponto, acho que vale a pena parar um momento para comentar algo que é sempre “esquecido” quando se tenta minimizar o título de Rosberg.
A terceira fase começa com o Grande Prêmio da Alemanha, onde Pironi, assim como Villeneuve antes dele na Bélgica, sofre um grave acidente nos treinos livres e, embora sobreviva, sua carreira termina ali. Assim, Pironi não participa das últimas cinco corridas da temporada, o que é sempre mencionado com a alegação de que essa ausência beneficiou Rosberg.
Primeiro, devemos lembrar que o perigo de acidentes graves era algo a que todos os pilotos estavam expostos… incluindo o próprio Rosberg. Isso era algo que todos aceitavam, pois fazia parte do “jogo”, assim como também faz parte do jogo que alguns pilotos tenham um carro melhor do que outros.
Dito isso, não há dúvida de que a ausência de um rival direto sempre proporciona uma vantagem, algo que ninguém contesta. No entanto, seguindo o mesmo raciocínio, se a ausência de Pironi beneficiou Rosberg em cinco corridas, devemos também presumir que a ausência de Villeneuve beneficiou Pironi nos seis Grandes Prêmios desta segunda fase. Também acho que não há dúvida de que Gilles era um rival formidável na pista devido ao seu espírito combativo e caráter irredutível. Tanto que, quando um rival via a Ferrari em seu retrovisor, nem sequer considerava se deveria ou não tentar ultrapassá-lo, porque sabia que o faria a qualquer momento.
Gilles era muito querido na Ferrari e pelos tifosi, pois personificava tudo o que o Commendador esperava de um piloto: coragem, caráter e lealdade. Levando tudo isso em consideração, creio que não há dúvidas de que, com carros idênticos, Pironi não era páreo para Gilles. Portanto, a morte de Villeneuve livrou Pironi do pior rival que ele poderia ter enfrentado, que também era seu companheiro de equipe e modelo a seguir. Além disso, a ausência de Gilles permitiu que a equipe se concentrasse inteiramente em trabalhar para e com Pironi. Tudo isso me leva a concluir que, com Gilles vivo, Pironi provavelmente não teria alcançado uma sequência tão boa de resultados, pois Gilles teria superado Pironi.
No entanto, por cautela, darei a Pironi o benefício da dúvida e assumirei que Gilles terminou à sua frente em apenas quatro das cinco corridas em que pontuou durante esse período. Portanto, se considerarmos que Gilles tivesse terminado à frente de Pironi em seus quatro melhores resultados (HOL, MON, GBR e DET), o francês teria perdido oito pontos. Considerando seus quatro piores resultados (MON, GBR, DET e FRA), Pironi teria perdido seis pontos.
A presença de Gilles também teria um efeito dominó, impactando outros pilotos, como o próprio Rosberg, que, em ambos os cenários, teria perdido um ponto. Vale lembrar que Tambay substituiu Villeneuve a partir da Holanda e terminou logo atrás de Pironi nos Grandes Prêmios da Grã-Bretanha e da França; portanto, com a inclusão de Gilles, Tambay deve ser excluído dos resultados ao ajustarmos nossos cálculos, e os pilotos que terminaram atrás dele não perdem pontos.
Com tudo isso, o ranking “hipotético” para esta fase é o seguinte, mostrando os pontos dos 10 pilotos mais bem-sucedidos nesta fase, os pontos oficiais acumulados e os pontos hipotéticos:

Como podemos ver, uma vez eliminada a “interferência”, o cenário é completamente diferente e a vantagem atribuída a Pironi desaparece, de modo que ele e Rosberg acabam praticamente empatados na disputa pelo titulo na fase decisiva do campeonato, com Watson e Piquet entrando também na briga.
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Agora passamos para a terceira fase da temporada 82, que começa com o Grande Prêmio da Alemanha e o acidente de Pironi. No circuito alemão, Patrick Tambay, que substituiu Villeneuve, vence, com Arnoux em segundo. Eles são os únicos dois pilotos com carros turbo a terminar a corrida, com Rosberg completando o pódio. Na Áustria (foto abaixo), Elio de Angelis vence, superando Rosberg por apenas 0,050”, em uma disputa onde ambos terminaram na mesma volta. No Grande Prêmio da Suíça, realizado na França, Rosberg finalmente conquista sua tão esperada vitória, largando da oitava posição no grid.

Monza seria o palco da próxima corrida e, como esperado no veloz circuito italiano, os carros turbo dominaram, com Ferrari, Brabham-BMW e Renault ocupando as seis primeiras posições do grid, enquanto Rosberg era o primeiro representante da Cosworth, em sétimo. No entanto, na volta 24, Rosberg perdeu sua asa traseira e teve que parar nos boxes para substituí-la, perdendo duas voltas e a chance de pontuar, enquanto Watson terminou em quarto, atrás de Arnoux, Tambay e Andretti. Isso significava que Rosberg e Watson teriam que decidir o título em Las Vegas, com apenas três pontos de vantagem para Keke. Contudo, essa vantagem foi o que deixou Watson menos otimista, chegando a declarar após Monza:
“Eu não perdi a esperança de ser campeão. Sempre encaro cada corrida como ela vem e não penso no campeonato. Tento me preparar para a corrida durante os treinos e pilotar o melhor que posso. Então, espero um bom resultado e marcar alguns bons pontos… com um pouco de sorte decorrente do azar dos outros.”
Aqui, Watson confirmou outro fator que também faz parte do jogo: a própria sorte e o azar dos outros.
No circuito improvisado no estacionamento do cassino Caesar’s Palace, os carros da Renault voltaram a assumir a liderança, com o surpreendente Michele Alboreto e seu Tyrrell-Cosworth em terceiro no grid. O italiano venceria a corrida, seguido por Watson em segundo, Eddie Cheever em terceiro e Prost em quarto, o único piloto com motor turbo ainda na disputa. Rosberg terminou em quinto, sagrando-se campeão. Aliás, Rosberg teria sido campeão mesmo sem pontuar, já que a única maneira de Watson conquistar o título era vencer e torcer para que Rosberg não pontuasse, mas nem um teve tanta sorte nem o outro tanto azar !
A classificação oficial desta terceira fase, em relação às dez primeiras posições, foi a seguinte:

Nesta fase, o que mais chama a atenção é o sólido desempenho da Cosworth, com Rosberg como seu melhor representante, já que o finlandês lidera a classificação com 21 pontos, conquistados num Tour de Force digno do que se cabe esperar de um campeão: Rosberg deu o seu melhor precisamente quando mais precisava.
A essa altura, a superioridade dos motores turbo era indiscutível e, cientes disso, até mesmo as três principais equipes da FOCA já haviam garantido acordos para usar um desses motores. A Brabham já havia equipado o BMW para a maior parte da temporada recem acabada; a Lotus tinha um acordo com a Renault para 1983, assim como a Williams, que também havia fechado um acordo com a Honda, e a McLaren estava trabalhando em seu motor turbo TAG com a Porsche. Por sua vez, a Alfa Romeo também construiu um motor turbo para 1983. No entanto, o já veterano DFV parecia relutante em se aposentar discretamente e, numa espécie de canto do cisne, acabou vencendo três das cinco corridas desta fase e superando seu poderoso sucessor: o Cosworth marcou 60 pontos nesta fase, em comparação com os 42 do turbo.
Assim terminou a temporada 82, e a classificação final oficial, comparada à nossa classificação hipotética, foi a seguinte:

Como podemos ver, a vantagem de seis pontos de Rosberg sobre Pironi na classificação final oficial, que gerou tantas críticas ao título do finlandês devido à ausência do francês nas etapas finais, foi uma ilusão resultante de diversas interferências que alteraram o curso normal dos eventos e distorceram a percepção do resultado final. Assim, sem interferências, esses seis pontos teriam se convertido em 20, na melhor das hipóteses, ou 21, na pior, o que teria tornado as coisas muito mais difíceis para Pironi nessas cinco corridas, caso ele tivesse podido competir nelas.
Nessa fase, Pironi não só teria enfrentado Rosberg em sua melhor forma, como também a um Cosworth renascido, enquanto os motores turbo em geral pareciam estar perdendo fôlego em comparação com a sua potente segunda fase. Assim, sem interferências, Rosberg teria sido coroado campeão por antecipaçao logo após sua vitória na Suíça. E tudo isso em uma temporada tão competitiva, com diferentes pilotos e equipes conquistando vitórias… foi um feito verdadeiramente notável !
Como a lebre da fabula, os turbo esbanjavam potência, dominavam as classificações com sua irresistível velocidade e largavam de forma fulgurante, enquanto que Rosberg seguia em frente sem alardes, de mansinho e sem chamar a atenção. Como ele mesmo disse anos depois:
“Eu não me importava com o que acontecesse com os outros, eu só queria ganhar a minha corrida.”
Talvez seja precisamente por causa dessa discrição que sua conquista não receba o reconhecimento que merece, mas podemos até recordar o velho ditado que diz que “ Devagar se vai ao longe”, e Rosberg foi longe mesmo; tanto que acabou vencendo… tal como o havia feito a nossa tartaruga.
Até a próxima e sejam bons
Manuel Blanco