A carona do Maestro – parte 2

Com as mãos na taça (coluna+YouTube)
26/10/2026

Continuando a coluna e a carona do Maestro, vale a leitura da primeira parte, clica no link abaixo

A carona do Maestro – parte 1

 

Respeitar uma época é compreender suas circunstâncias, sem diminuir aquilo que seus protagonistas conseguiram realizar.

Foi nesse momento que senti que minha admiração pelo Maestro havia ganhado outra dimensão.

Nürburgring, 1957: a volta que atravessou o tempo

Fangio reduziu a marcha.

À nossa frente, surgiu uma estrada que reconheci imediatamente.

Nürburgring.

O velho Nürburgring.

Aquele circuito gigantesco, sinuoso, cercado por florestas, elevações e curvas que pareciam desafiar os próprios limites da máquina e do homem.

Era 1957.

Fangio tinha 46 anos e quatro títulos mundiais. Pilotava uma Maserati 250F e disputava mais um Grande Prêmio da Alemanha.

Durante a corrida, uma parada nos boxes comprometeu sua vantagem. As Ferrari de Mike Hawthorn e Peter Collins assumiram a dianteira, e Fangio voltou à pista atrás dos adversários.

O que aconteceu depois entrou para a história.

Nas voltas finais, o argentino passou a estabelecer marcas extraordinárias, recuperando a diferença até alcançar e ultrapassar os dois rivais.

Venceu a corrida.

Conquistou seu quinto campeonato mundial.

Mas eu não queria perguntar quantos segundos havia recuperado, quantas curvas havia feito no limite ou quantos recordes estabelecera.

Queria saber o que se passava dentro daquele homem.

— Maestro, o que o senhor pensou quando percebeu que ainda poderia vencer?

Ele manteve os olhos na estrada.

— Eu precisava fazer o que ainda podia ser feito.

Esperei que continuasse.

— A corrida não havia terminado.

Olhei para ele.

Talvez essa fosse a resposta mais simples e mais difícil de compreender.

Fangio não podia desfazer a parada nos boxes. Não podia recuperar o tempo perdido por vontade própria. Não podia mudar as condições da corrida.

Podia apenas decidir o que fazer a partir daquele momento.

Há uma sabedoria especial em reconhecer a diferença entre aquilo que já não podemos alterar e aquilo que ainda depende de nós.

Enquanto o carro atravessava as curvas, tive a impressão de ouvir o motor da Maserati de 1957. Imaginei a tensão, a concentração e a precisão exigidas de um piloto que não dispunha dos recursos de segurança e informação que hoje consideramos indispensáveis.

Não era apenas velocidade.

Era conhecimento acumulado.

Era leitura de pista.

Era coragem acompanhada de cálculo.

Era experiência transformada em decisão.

E havia algo mais.

Uma espécie de entendimento íntimo entre o homem, a máquina e o caminho.

Naquele instante, deixei de pensar em Fangio como o homem dos cinco títulos.

Eu estava diante de alguém que havia aprendido a transformar tudo o que vivera em capacidade de agir quando mais precisava.

Talvez seja isso que distingue os grandes mestres.

Não apenas o que sabem.

Mas aquilo que conseguem fazer com o que sabem.

O adeus às pistas

A paisagem começou a perder as cores do passado.

O circuito ficou para trás.

A estrada voltou a ser estreita, e o automóvel seguiu em silêncio por alguns quilômetros.

Perguntei a Fangio como havia sido deixar as corridas.

Ele não respondeu imediatamente.

Depois de tantos anos dedicados ao automobilismo, afastou-se da competição em 1958. Deixava para trás cinco títulos mundiais e uma reputação que atravessaria gerações.

— Foi difícil? — perguntei.

— Toda despedida tem seu momento.

Não havia tristeza ostensiva em sua voz. Apenas a serenidade de quem compreende que algumas etapas precisam terminar.

Pensei nos carros que deixam os boxes pela última vez. Nos pilotos que retiram o capacete e sabem que não voltarão a disputar uma corrida. Nas equipes que se despedem de seus grandes nomes.

O automobilismo nos ensina a celebrar chegadas, ultrapassagens e vitórias.

Fala menos sobre a arte de partir.

Talvez porque seja mais fácil admirar quem conquista do que compreender quem sabe encerrar um ciclo.

Fangio não precisava continuar correndo para provar quem havia sido.

Sua história já estava escrita.

E continuaria sendo lida muito depois de sua última bandeirada.

A volta ao presente

Foi então que os sinais do nosso tempo começaram a reaparecer.

Primeiro, o asfalto moderno.

Depois, os prédios.

Os semáforos.

O trânsito.

As motocicletas que avançavam entre os carros.

E, finalmente, o telefone no meu bolso.

A tela acendeu.

Mensagens, compromissos, lembretes.

O presente estava à minha espera, exatamente como o havia deixado.

Olhei para Fangio.

— Maestro, o mundo mudou muito.

Ele observou o movimento à nossa frente.

— É natural.

— A Fórmula 1 mudou também. Os carros são mais seguros, a tecnologia é impressionante, os pilotos têm acesso a informações que naquela época seriam inimagináveis.

Ele assentiu.

— Isso é bom.

A resposta me surpreendeu pela simplicidade.

Eu esperava alguma comparação, talvez uma reflexão sobre a dureza de seu tempo ou sobre aquilo que se perdeu.

Mas Fangio não parecia querer disputar espaço com o presente.

— Cada época tem suas possibilidades — continuou. — O importante é saber o que fazer com elas.

Fiquei em silêncio.

Compreendi, então, que reverenciar o passado não significa desejar que ele volte.

Não quero uma Fórmula 1 menos segura para que seja mais parecida com aquela que Fangio conheceu. Não quero abrir mão da evolução tecnológica para recuperar a atmosfera das corridas antigas.

Quero poder desfrutar o espetáculo de hoje sem esquecer o caminho percorrido para que chegássemos até aqui.

Quero acompanhar os campeões atuais e continuar emocionado diante das histórias de quem correu antes deles.

Quero reconhecer a genialidade de um projetista contemporâneo e continuar admirando aqueles que construíram máquinas extraordinárias com recursos muito mais limitados.

Quero viver o meu tempo.

Mas sem perder a capacidade de olhar para trás com respeito, curiosidade e gratidão.

Porque o passado não precisa ser melhor em tudo para continuar sendo extraordinário.

E o presente não precisa apagar o passado para construir o futuro.

O Maestro e a estrada

O automóvel finalmente parou.

Eu havia chegado ao meu destino.

Desci devagar, ainda tentando compreender tudo o que aquela viagem havia representado.

Antes de fechar a porta, olhei uma última vez para Fangio.

— Maestro, obrigado pela carona.

Ele sorriu.

— Você precisava voltar ao seu tempo.

Fiquei esperando.

Ele ajeitou as mãos no volante e completou:

— Eu apenas lhe mostrei que o passado ainda pode ensinar o caminho.

Fechei a porta.

O automóvel partiu lentamente, tomou a curva e desapareceu.

Permaneci parado por alguns instantes.

Não sei dizer quanto tempo passou.

Talvez alguns segundos. Talvez o suficiente para compreender que certas viagens não terminam quando chegamos ao destino.

Meu telefone continuava cheio de mensagens. Os compromissos permaneciam na agenda. A rotina não havia mudado.

Mas eu já não a enxergava exatamente da mesma maneira.

Pensei em Fangio, em sua trajetória, nos cinco campeonatos, nas máquinas que pilotou e nas pessoas que encontrou pelo caminho.

Pensei também em todos os que vieram depois dele e na responsabilidade que cada geração carrega ao receber uma história tão rica.

Nós, apaixonados por Fórmula 1, temos uma relação particular com o tempo.

Vivemos o presente a cada Grande Prêmio. Sofremos com uma ultrapassagem que não acontece, vibramos com uma vitória inesperada e discutimos estratégias como se estivéssemos dentro dos boxes.

Mas basta uma fotografia antiga, um livro esquecido na estante ou o som de um motor histórico para que alguma coisa nos transporte de volta.

Não é apenas saudade.

É reconhecimento.

É a percepção de que fazemos parte de uma história que começou muito antes de nós e continuará depois que deixarmos de acompanhá-la.

Talvez seja por isso que continuemos voltando a Fangio, a Moss, a Clark, a Lauda, a Piquet, a Prost e a Senna.

Não porque desejemos viver novamente o tempo deles.

Mas porque queremos compreender melhor aquilo que fizeram, as circunstâncias que enfrentaram e o legado que deixaram.

A história da Fórmula 1 não é um museu onde entramos para escapar do presente.

É uma estrada que percorremos para entender de onde viemos.

E foi isso que aprendi naquela carona impossível.

O Maestro não me convidou a abandonar meu tempo.

Trouxe-me de volta a ele.

Com a lembrança de uma época em que os homens precisavam ouvir os motores, sentir as máquinas e descobrir, volta após volta, até onde poderiam chegar.

Uma época diferente da nossa, com seus encantos, suas limitações e seus perigos.

Uma época que merece ser lembrada sem ser idealizada, celebrada sem ser transformada em mito intocável e estudada sem perder a emoção que a tornou inesquecível.

Porque admirar o passado não é viver de costas para o futuro.

É reconhecer que a estrada que percorremos hoje foi aberta por aqueles que vieram antes.

E, enquanto caminhava de volta à minha rotina, tive a sensação de que ainda conseguia ouvir o motor daquele automóvel se afastando.

Talvez fosse apenas minha imaginação.

Ou talvez fosse a memória me lembrando de algo que, na pressa dos dias, tantas vezes esquecemos:

O presente é o único tempo em que podemos conduzir nossa própria história. Mas é o passado que nos ajuda a compreender a estrada.

E, se um dia eu tiver novamente a oportunidade de encontrar o Maestro à beira de uma estrada, espero ter a mesma disposição daquela tarde.

Entrar no carro.

Ficar em silêncio.

Ouvir suas histórias.

E agradecer pela carona.

Porque algumas viagens nos levam a lugares que nunca conhecemos.

E outras nos devolvem ao lugar onde sempre estivemos, mas que já não conseguimos enxergar da mesma maneira.

Esta, sem dúvida, foi uma delas.

 

Até a próxima!!

Mário Salustiano

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

1 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Mario,

    Eu penso que para entender o presente, é necessário saber, mesmo nao tendo vivido esse passado, conhecer a história.
    E aí sempre tiro o chapéu para o GEPETO quando somos presenteados com as histórias do automobilismo. Parabéns pela coluna.

    Fernando Marques

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