A carona do Maestro

Escutando os sinais (coluna+YouTube)
12/10/2026

Uma viagem pelo tempo com Juan Manuel Fangio

Há lugares onde o tempo parece passar mais devagar.

Talvez seja por isso que gosto das pequenas cidades do interior.

Ali, as manhãs ainda parecem ter sido feitas para começar sem pressa. As praças guardam bancos ocupados pelos mesmos personagens de sempre. O comércio fecha para o almoço. Os carros passam devagar.

E, quando a tarde cai, há momentos em que você tem a impressão de que o mundo moderno ficou alguns quilômetros para trás.

Foi exatamente assim que me senti naquela tarde.

Eu estava em uma pequena cidade, dessas que parecem existir fora dos mapas da pressa, quando percebi que precisava voltar.

Voltar para o presente.

Para a agenda cheia.

Para as reuniões.

Para os projetos.

Para as mensagens que se acumulavam no telefone.

Eu precisava de uma carona.

Fiquei esperando à margem da estrada.

Foi então que ouvi um som.

Não era o som filtrado e eletrônico dos automóveis modernos.

Era um motor.

Um motor de verdade.

O ruído cresceu lentamente até que um automóvel antigo apareceu na curva.

Parou diante de mim.

E eu fiquei imóvel.

Ao volante estava um homem de cabelos grisalhos, olhar sereno e postura elegante.

Eu conhecia aquele rosto.

Conhecia aquele olhar.

— Precisa de uma carona?

Minha resposta demorou alguns segundos.

— Maestro?

Ele sorriu.

— Alguns ainda me chamam de Fangio.

Entrei.

E naquele instante começou uma viagem que não estava no GPS.

O carro começou a avançar.

Não havia telas.

Não havia comandos eletrônicos.

Não havia navegador.

Não havia nada para nos dizer qual caminho tomar.

Apenas estrada.

E Fangio.

— Para onde vamos? — perguntei.

Ele respondeu:

— Para o seu tempo.

Não entendi.

Mas não perguntei novamente.

Aquela parecia ser uma daquelas viagens em que algumas respostas deveriam chegar no momento certo.

Primeiro destino, Balcarce

A primeira coisa que desapareceu foi o asfalto.

A estrada moderna se transformou em uma estrada de terra.

As paisagens mudaram.

E eu vi uma pequena cidade argentina.

Balcarce.

A cidade onde Fangio nasceu em 1911, filho de imigrantes italianos que lhe ensinaram valores que permaneceriam com ele por toda a vida: trabalho, honestidade, disciplina, respeito e responsabilidade.

Fangio apontou para uma pequena oficina.

— Foi aqui que tudo começou.

Ele não falava como um campeão.

Falava como um menino.

Contou-me que começou a trabalhar como mecânico aos onze anos.

Antes de aprender a dominar um carro, aprendeu a desmontá-lo.

Antes de aprender a vencer corridas, aprendeu a respeitar uma máquina.

— Eu precisava saber o que acontecia dentro dela — disse.

Olhei para ele.

— Por que um piloto precisa conhecer seu carro?

— Não apenas o carro máquina.

Ele fez uma pausa.

— Porque um piloto precisa conhecer aquilo que pode fazê-lo vencer.

A frase ficou comigo.

Hoje falamos de telemetria, inteligência artificial, dados, simulação e centenas de informações disponíveis em tempo real.

Fangio tinha ferramentas muito mais simples.

Mas havia algo que nenhum equipamento poderia substituir:

sensibilidade.

Ele ouvia o motor.

Sentia o carro.

Percebia a pista.

E conhecia seus limites.

Uma América do Sul que eu não conhecia, na verdade estradas que não estavam no mapa

Continuamos a viagem.

A estrada ficou longa.

Muito longa.

Agora eu estava vendo Fangio em seus primeiros anos de competição.

Carros primitivos.

Estradas difíceis.

Corridas que atravessavam enormes distâncias da América do Sul.

Fangio me explicou que aquelas provas foram sua verdadeira escola.

Milhares de quilômetros.

Dias de competição.

Máquinas preparadas muitas vezes com recursos limitados.

Ali ele aprendeu algo que levaria para a Europa anos depois: uma corrida não se vence apenas acelerando.

É preciso administrar.

Observar.

Preservar.

Escolher.

Esperar.

Atacar.

A Fórmula 1 ainda não existia como a conhecemos.

Mas o piloto já estava sendo formado.

De repente estávamos na Europa — Quando o sonho ganhou outra dimensão

A paisagem mudou novamente.

Agora havia neve.

Montanhas.

Circuitos.

Grandes fábricas.

E nomes que eu conhecia dos livros que coleciono havia tantos anos.

Alfa Romeo.

Maserati.

Mercedes.

Ferrari.

Eu estava vendo nascer uma parte da história que aprendi a admirar ainda menino.

Fangio chegou à Europa aos 38 anos.

Para os padrões atuais, seria quase impensável imaginar um piloto chegando à principal categoria do automobilismo nessa idade.

Mas talvez essa seja uma das primeiras coisas que o Maestro gostaria de nos ensinar:

o tempo não determina sozinho o momento de uma pessoa.

Ele começou sua trajetória no Mundial de Fórmula 1 em 1950 e conquistou seu primeiro campeonato em 1951, pela Alfa Romeo.

Eu perguntei:

— O senhor sabia que seria campeão?

Ele riu.

— Ninguém sabe.

— Então o que sabia?

— Que estava preparado para tentar.

Talvez seja uma diferença importante.

Há pessoas que esperam ter certeza para começar.

Fangio parecia preferir começar quando acreditava estar preparado.

E Fangio começou a mostrar ao mundo que estava preparado

A estrada toma o rumo dos circuitos europeus pelos anos 50, veio 1951 e com sua Alfa 158, Fangio confirmar seu primeiro título na Fórmula 1 .

O silêncio tomou conta do carro.

Eu sabia o que viria, Monza 1952.

Fangio sofreu um grave acidente durante uma prova fora do campeonato, depois de uma longa e exaustiva viagem pelas montanhas. Machucou o pescoço e precisou ficar afastado das pistas.

Não perguntei sobre a dor.

Algumas histórias não precisam ser explicadas.

Apenas observadas.

Fangio ficou olhando para a estrada.

— Às vezes a vida também coloca uma bandeira vermelha.

Permaneci em silêncio.

— E você precisa aceitar a parada.

Ele não disse mais nada.

Mas eu entendi.

O campeão que havia acabado de conquistar o mundo precisou reaprender a esperar.

Talvez o intervalo também faça parte da corrida.

A paisagem mudou novamente.

O carro agora tinha outra personalidade.

Prateado.

Elegante.

Poderoso.

Mercedes.

Fangio retornara à competição e, em 1954, iniciou uma nova fase de sua carreira. Começou o campeonato com a Maserati e depois passou à Mercedes quando a marca voltou oficialmente aos Grandes Prêmios, conquistando o título naquele mesmo ano. Em 1955, repetiria o campeonato pela equipe alemã.

— Por que mudou de equipe? — perguntei.

Ele me olhou como quem já esperava a pergunta.

— Porque uma carreira não pode viver de gratidão ao passado.

Silêncio.

— É preciso respeitar o que você viveu.

Ele acelerou suavemente.

— Mas também é preciso reconhecer quando chegou a hora de seguir adiante.

A frase parecia falar de equipes.

Mas poderia falar de empresas.

De profissões.

De relacionamentos.

De ciclos.

De nós mesmos.

Agora a estrada tomou outro rumo, direto a Maranello, Ferrari em 1956.

Fangio havia acabado de conquistar dois títulos consecutivos com a Mercedes e mudou para a Ferrari.

Foi campeão novamente.

Quarto título mundial.

Outra equipe.

Outro ambiente.

Outra maneira de trabalhar.

Ele me contou que nem sempre as relações eram simples.

Mas havia algo que o preocupava mais do que qualquer tensão:

o resultado.

— Um piloto precisa saber onde consegue entregar o seu melhor.

Foi nessa época que percebi algo que talvez seja uma das características mais fascinantes de Fangio.

Ele não parecia pertencer a uma marca.

Pertencia à própria carreira.

Alfa Romeo.

Mercedes.

Ferrari.

Maserati.

Quatro equipes.

Cinco campeonatos.

O homem permanecia.

As máquinas mudavam.

1957 — O esplendor de uma carreira

O céu começou a ficar escuro.

Fangio diminuiu a velocidade.

— Agora vamos chegar a uma estrada que você conhece.

Eu sabia qual era.

Nürburgring, o velho Nürburgring, 22 quilômetros de curvas, elevações, mudanças de ritmo e perigos.

Entramos em 1957, Fangio tinha 46 anos, já era tetracampeão.

Mas aquela seria uma das maiores demonstrações de pilotagem de sua carreira.

Durante a corrida, depois de uma parada nos boxes, ficou mais de um minuto atrás das Ferrari de Mike Hawthorn e Peter Collins.

Então começou a perseguição.

Nas onze voltas restantes, Fangio bateu e voltou a bater o recorde da pista, chegando a reduzir a diferença e ultrapassar os dois rivais. Venceu a corrida e conquistou seu quinto campeonato mundial.

O carro em que estávamos começou a acelerar.

A paisagem desapareceu.

Eu já não via a estrada.

Via apenas o Nürburgring.

Fangio segurava o volante.

Eu podia quase ouvir o motor da Maserati.

— Maestro…

Ele não respondeu.

— O que o senhor sentiu naquela corrida?

Ele continuou olhando para frente.

— Medo.

Fiquei surpreso.

Ele percebeu.

— Sempre houve medo.

E então completou:

— O importante não é não sentir medo.

— É saber o que fazer com ele.

Aquela talvez fosse a resposta que eu mais precisava ouvir.

A ultima curva

A pista desapareceu.

Voltamos à estrada.

Mas agora eu percebi algo.

Estávamos chegando à cidade.

Ao presente.

O trânsito começou a aparecer.

Prédios.

Sinais.

Motocicletas.

Celulares.

Painéis digitais.

Tudo aquilo que Fangio nunca conheceu como parte de sua rotina.

Meu telefone voltou a vibrar.

Uma reunião.

Uma mensagem.

Um compromisso.

Outra cobrança.

Olhei para Fangio.

Ele percebeu.

— Parece que estão esperando você.

— Estão.

Ele sorriu.

— Então precisa voltar.

— E o senhor?

Ele continuou dirigindo.

— Eu pertenço a outra estrada.

Foi então que compreendi.

A viagem não tinha sido para fugir do presente.

Tinha sido para enxergá-lo de outra maneira.

Pedi que parasse.

O carro encostou.

Abri a porta.

Antes de sair, olhei novamente para ele.

— Maestro, obrigado pela carona.

Fangio segurou o volante com as duas mãos.

Olhou para mim.

E disse:

— Você precisava voltar ao seu tempo.

Pausa.

— Eu apenas lhe mostrei que o passado ainda pode ensinar o caminho.

O carro partiu.

Fiquei olhando até desaparecer na curva.

Voltei para a cidade.

Meu telefone continuava cheio de mensagens.

Minha agenda continuava cheia.

O mundo não havia mudado.

E talvez essa seja justamente a questão.

Eu é que havia mudado um pouco.

Eu não queria viver nos anos 1950.

Não queria trocar os recursos de hoje pelas limitações daquele tempo.

Não queria romantizar os perigos daquela Fórmula 1.

Queria apenas lembrar que existe uma diferença entre viver preso ao passado e saber honrá-lo.

Nós, fãs de Fórmula 1, temos esse privilégio.

Podemos acompanhar carros que parecem computadores sobre rodas.

Podemos assistir às corridas em alta definição.

Podemos conhecer cada curva através de simuladores.

Podemos acompanhar telemetria, estratégia, pneus, dados e velocidade em tempo real.

Mas ainda podemos abrir um livro antigo.

Ouvir o som de um motor histórico.

Rever uma fotografia em preto e branco.

Lembrar daqueles que correram quando não havia nada disso.

E, por alguns instantes, voltar àquele mundo.

Não para morar nele.

Mas para aprender com ele.

Porque a Fórmula 1 não é apenas uma sucessão de campeonatos.

É uma sucessão de gerações.

E cada geração recebe algo da anterior.

Fangio recebeu das estradas da América do Sul aquilo que levou para a Europa.

Depois deixou sua marca para Moss.

Moss deixou para outros.

E outros deixaram para Senna, Prost, Piquet, Schumacher, Alonso, Hamilton, Verstappen e tantos outros.

A pista muda.

Os carros mudam.

A tecnologia muda.

Os homens mudam.

Mas algumas coisas permanecem.

A coragem.

A disciplina.

A capacidade de aprender.

O respeito pela máquina.

O respeito pelos adversários.

A paixão.

E, principalmente, a capacidade de compreender que nenhuma volta é eterna.

Um dia, todos nós precisamos entrar nos boxes.

Talvez seja por isso que aquela carona tenha ficado comigo.

Porque Fangio não me levou de volta ao passado.

Ele me devolveu ao presente carregando um pedaço dele.

E enquanto caminhava de volta para minha rotina, pensei:

Talvez seja essa a verdadeira função da memória.

Não nos impedir de seguir.

Mas nos lembrar de onde veio a estrada.

E, naquele fim de tarde, enquanto o velho automóvel desaparecia na distância, tive a sensação de que ainda conseguia ouvir sua voz:

“Eu apenas lhe mostrei que o passado ainda pode ensinar o caminho.”

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

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