Conflito de gerações

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Verstappen alcança e ultrapassa Leclerc. Uma cena que promete se repetir muitas vezes em 2022.

Eis que após décadas de ensaios, promessas e especulações, a Fórmula 1 finalmentedeu as caras em Miami. E, no fim da contas, o resultado desse encontro tantas vezes antecipado acabou refletindo de forma bastante controversa o quão externas e mercadológicas são as forças que sempre se fizeram sentir na atração entre categoria e cidade, bem como o quanto estas mesmas forças foram potencializadas a partir da gestão da Liberty Media.

O produto de tão longa espera tinha tudo para se consolidar como um evento de gala, realizado numa praça revolucionária que agregasse valores à F1, dentro e fora da esfera esportiva. Poderia, mas não foi exatamente o que se viu. Em vez disso, a notória boa vontade com que a categoria rainha mira suas ambições de renovação de público em americanos e jovens, investindo na construção de narrativas muitas vezes farsescas, gerou um ambiente sobre o qual pairou, o tempo todo, a sensação de que muita coisa acabou sendo negligenciada, concessões demais acabaram sendo feitas, a ponto de ser difícil reconhecer em carros e pista uma continuidade do que já foi o campeonato mundial de carros e pilotos.

Nos mais variados fóruns falou-se mais a respeito da marina sem água, dos iates em terra firme, da investida da FIA contra piercings e joias e dos protestos de alguns pilotos em relação a tal tipo de controle, do que da disputa propriamente dita. E mais: quando a discussão eventualmente conseguia alcançar conjuntos e pista, fatalmente começava por críticas ao trecho esdrúxulo,entre as curvas 14 e 16,em que o traçado admite a passagem de apenas um carro, a minguados 60 km/h, e inevitavelmente enveredava para pretensos e ásperos embates de geração, nos quais qualquer crítica era tratada por uns e outros como saudosismo puro e simples, reações de quem não se permite aceitar que o tempo passou e o mundo mudou.

Talvez, a depender do ponto em que se vê, tenha sido mesmo essa a intenção. É possível que tais discussões sejam a confirmação de que o público-alvo foi atingido e sensibilizado, e que a audiência da categoria esteja se renovando conforme o planejado. Talvez o problema resida em alguns de nós, que vivemos demais, vimos demais, desenvolvemos conceitos nítidos demais a respeito daquilo que define – ou deveria definir – o pináculo do esporte a motor.

Enfim, não gostaria de subitamente me descobrir assim, o tiozão que não percebeu a hora de parar de ir a certas festas e passa as noites deslocado e regurgitando murmúrios de que em sua época é que as coisas eram boas. A verdade, contudo, é que a despeito de toda minha simpatia pela renovação do público e pelas mudanças que tal processo necessariamente pressupõe, não consegui gostar da pista, nem tampouco acreditar na seriedade esportiva de um evento realizado numa praça precária e focado, possivelmente um pouco além da conta, nos bastidores e na perfumaria.

A sensação de estranhamento em relação ao GP certamente foi potencializada pela nítida incompatibilidade entre estes novos carros da F1 e o trecho de menor velocidade da pista, ou pela sensação de peso e lentidão, quer seja em disputas diretas, que ser seja nos momentos em que o limite da aderência era superado – algo que podia acontecer simplesmente ao se desviar minimamente do traçado ideal, dados o acúmulo de detritos e a precariedade do asfalto.

De fato, a sensação que tive em vários momentos foi a de estar vendo o que seria uma evolução dos protótipos da Cart do fim dos anos 90, pesadões, compridos e cheios de torque e velocidade final, mas lentos e instáveis em velocidades baixas, propensos a guinadas incorrigíveis em zonas de aceleração.

Máquinas muito diferentes, portanto, dos pequenos carros de 800 cv e pouco mais de 500 kg, ágeis e ariscos como karts, instáveis e desafiadores em curvas de alta, que consolidaram minha paixão pela categoria e seguem como minha referência pessoal daquilo que um F1 deveria ser.

A dinâmica que temos observado nessas corridas iniciais de 2022 emula a própria coreografia que se desenha para o campeonato, ao menos até esse ponto: Leclerc partindo à frente, Verstappen o alcançando e superando a seguir.

Observe que, num universo de cinco possibilidades, Charles Leclerc assinalou a pole position três vezes, e completou a primeira fila nas duas restantes. Na prática, isso significa dizer que em 80% das provas ele largou à frente de seu principal rival, Max Verstappen. No avançar dos finais de semana, contudo, é Max quem aparenta dispor de ligeira vantagem, tendo vencido as três corridas que completou. A esse respeito, é justo registrar que ele estava atrás de Leclerc quando abandonou no Bahrein e na Austrália, mas ainda assim tem demonstrado pequena superioridade nas provas mais recentes e, tão importante quanto, seu carro tem habitualmente alcançado maiores velocidades finais, tornando-o naturalmente favorito a vencer disputas diretas por posição.

A análise dessas tendências tem a dupla característica de ser essencial para que se alcance uma compreensão minimamente justa a respeito da qualidade dos serviços que vêm sendo entregues pelos dois principais postulantes ao título, ao mesmo tempo em que é extremamente difícil de ser levada adiante.

A esse respeito, algumas perguntas parecem se impor. Leclerc está conquistando essas poles no braço, como pareceu ser o caso no Albert Park? Ou a Ferrari é simplesmente um carro superior quando andando com tanque vazio e pneus macios? E Max? Está apresentando um trem de corrida eventualmente superior, ou é a Red Bull quem consegue entregar desempenhos equivalentes, com a vantagem de carregar menor arrasto aerodinâmico?

A diferença de desempenhos entre os pilotos da Ferrari quando comparada a 2021 seria sinal de que Leclerc estaria guiando desmotivado quando distante da briga pelas melhores posições, ou simplesmente seu estilo se adaptou melhor aos novos carros, como parece ser o caso de Sérgio Pérez? Questionamentos semelhantes podem ser direcionados à Mercedes. Azares à parte (e a influência destes fatores não deverá ser desprezada), estaria Hamilton desmotivado, e/ou lutando para se adaptar ao comportamento dos novos carros? Ou Russell é simplesmente melhor do que se supunha e está mesmo em condições de fazer frente ao heptacampeão? Será que a disputa estaria se desenvolvendo de maneira diferente se houvesse um título a ser disputado?

As perguntas mais relevantes, contudo, devem dizer respeito ao refinamento dos carros diante de um regulamento que ainda propicia fartos espaços a serem explorados. E aí, Maranello será capaz de acompanhar o ritmo evolutivo da Red Bull ao longo do ano, quando se considera que do outro lado há um Adrian Newey entendendo cada vez melhor quais são as demandas do novo formato? A Mercedes terá condições de salvar o desempenho de seu carro em meio às restrições impostas por regulamento?

E quanto aos motores? Qual a real influência deles no que vimos até aqui? Os problemas de confiabilidade da Red Bull foram devidamente resolvidos? A perda momentânea de desempenho no carro de Sérgio Pérez neste GP de Miami seria sinal de que ainda há um caminho a ser percorrido nesse sentido? A Ferrari está mesmo limitando o ímpeto de seus cavalos, em nome de uma maior confiabilidade?

Acredito que veremos muitas destas perguntas sendo respondidas ao longo dos próximos meses. Mas, se os amigos quiserem dividir suas visões e opiniões a esse respeito, sintam-se convidados a comentar.

A corrida, em poucas palavras

Qualquer pretensão que a Ferrari pudesse ter de tirar proveito da presença de Carlos Sainz para atrasar Verstappen e permitir a fuga de Leclerc evaporou em apenas um punhado de metros. Apostando que Carlos adotaria postura um tanto conservadora após abandonar duas corridas seguidas nos giros iniciais, Max mergulhou por fora com a decisão de quem tinha um plano em mente: se posicionar por fora na curva 1, para atacar por dentro a curva 2, consolidando a ultrapassagem. Talvez fosse previsível, mas ainda assim o piloto espanhol simplesmente não poderia se dar ao luxo de um terceiro abandono consecutivo.

À frente Leclerc puxou o ritmo tentando evitar que Max pudesse fazer uso do DRS, mas aparentemente o esforço por se manter à frente do holandês cobrou demais dos pneus. Na oitava volta a transmissão da corrida reproduziu um áudio em que o engenheiro de Verstappen o informava de que era possível notar desgaste num dos pneus dianteiros da Ferrari. Naquela altura Max já vinha em posição de acionar o DRS, e o que poderia ter sido uma boa briga por posição tornou-se uma mera formalidade. Na abertura na 9ª volta o holandês assumiu a ponta, definindo o que seriam as duas primeiras posições da corrida.

Pausa para uma consideração repetitiva: num campeonato em que parece haver uma importante diferença de desempenhos entre treinos e corridas, a presença do DRS banaliza disputas que tinham tudo para ser de altíssimo nível. Imaginem, por exemplo, o que teria sido esta corrida, com Max tendo dificuldades para ultrapassar um Leclerc ligeiramente mais lento…

As duas posições seguintes também foram definidas sem muita empolgação. Sainz enfrentou problemas em sua troca de pneus, e só não foi superado por Pérez porque pouco antes o mexicano perdeu ao menos sete segundos com um problema que momentaneamente roubou parte do desempenho entregue por sua unidade de potência. Mais tarde, com a intervenção do carro de segurança, Pérez foi aos boxes e esperava-se que a borracha nova lhe permitisse atacar e superar Sainz. A única tentativa concreta, no entanto, foi demasiadamente otimista e mesmo perigosa, permitindo a Carlos executar o X.

Em condições normais, Valtteri Bottas teria levado a Alfa Romeo à quinta colocação, ao cabo de uma atuação muito sólida desde os treinos. O finlandês, contudo, cometeu um erro nas voltas finais, quando era perseguido pela Mercedes de George Russell, calçada com pneus novos, trocados durante a intervenção do carro de segurança. Uma freada tardia, um leve toque no muro, e como resultado acabou sendo superado pelas duas Mercedes, de Russell e Hamilton. A respeito das Mercedes, por sinal, é justo observar que Hamilton foi superior ao companheiro de equipe durante a maior parte do fim de semana. Isso posto, é igualmente justo observar que Russell escalou o pelotão com méritos próprios, tendo percorrido quase 40 voltas com os pneus com que largou, em ritmo forte e consistente. A aposta na eventual aparição do carro de segurança foi consciente, e acabou rendendo dividendos. Com sorte e competência, o fato é que Russell levou seu carro até a bandeirada sempre entre os cinco primeiros colocados em todas as provas disputadas até aqui, escrevendo uma campanha de notável solidez.

A julgar pela hierarquia dos ritmos de prova seria momento de falarmos sobre Fernando Alonso e Pierre Gasly. Os dois, contudo, se encontraram a menos de 20 voltas para a bandeirada, desencadeando a sequência de fatos que iriam redundar na intervenção do carro de segurança.

Protagonista de mais uma grande largada, Alonso já havia tocado levemente a Mercedes de Hamilton nas curvas iniciais, e mais tarde havia perdido tempo com uma troca de pneus problemática. Considerado responsável pelo toque com Gasly, teve cinco segundos somados ao seu tempo de prova, que se tornariam dez após os comissários entenderem que ele cortou caminho e obteve vantagem na penúltima volta da prova. Com as duas punições somadas ele acabou caindo da oitava para a 11ª posição, sendo superado por Ocon, que a exemplo de Russell adiou a parada até a entrada do carro de segurança; Albon, que assinou mais uma grande corrida desde que chegou à Williams; e Stroll, que, junto ao companheiro Vettel, havia largado dos boxes.

Para Gasly o desfecho foi igualmente frustrante. Tendo o carro danificado pelo toque com Alonso, ao piloto francês só restaria abandonar a disputa. E ele não iria sozinho. Guiando de forma atabalhoada em seu caminho rumos aos boxes, acabou ciscando na frente de Lando Norris, que o tocou com certa violência, abandonando de imediato e provocando a intervenção do carro de segurança.

No fim, o resultado da corrida teve a propriedade de não refletir com exatidão os ritmos apresentados mas, ainda assim, ter sido justo, diante das circunstâncias.

Um ponto muito positivo, e que merece ser registrado, foi a presença de Danica Patrick como entrevistadora no sábado e, acima de tudo, do desbravador Willy T. Ribbs no domingo, após a prova. E saiu-se muito bem, diga-se de passagem.

Em meio a tantas lendas e tantos astros circulando pelo paddock e pelas áreas vip, foi a presença de Ribbs, e o reconhecimento que recebeu, que efetivamente me sensibilizaram.

Uma ótima semana a todos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

1 Comment

  1. Fernando Marques disse:

    Marcio,

    cada vez mais me surpreendo positivamente com suas colunas … fiquei pensando o que falar do GP de Miami … da pista … da corrida … e voce simplesmente sintetizou tudo em sua coluna o que eu queria falar … e mais a forma como voce abordou a questão da renovação do publico que acompanha a Formula 1 foi simplesmente sensacional.

    Vou tentar acrescentar alguma coisa sobre este fim de semana da Formula 1 em Miami:

    – os americanos sabem como promover eventos … dinheiro não falta … e nem publico pagante também … penso que quem foi ao parque onde foi “construida a pista” deve ter realmente proporcionado um a si mesmo um grande domingo … pelas imagens aéreas estava claro que o parque era mesmo de diversão … quem quis ver a corrida viu, quem não quis curtiu um belo domongo de sol …

    – achei o traçado do circuito de Miami uma bela porcaria … mas penso que isso era apenas um mero detalhe para quem foi lá ver a corrida …

    – quem quis ver a corrida,certamente viu uma corrida, para mim chata de se assistir … eu achei muito chata mesmo … pela grana que custou os ingressos sinceramente vai entender como gostar de uma corrida onde só valeu a largada e a ultrapassagem do Verstappen sobre Leclerck …

    – se o futuro da Formula 1 for isso, fico imaginando o GP do Brasil dessa forma … teremos corrida no sambódromo de Manaus … hehehehe

    Obvio que a Formula 1 precisa de renovação … mas como dinossauro que sou e que desde os 1O anos de idade acompanho a Formula 1, as saudades do automobilismo raiz, da Formula 1 raiz estarão sempre enraizadas na minha mente.

    Ou Leclerck e Ferrari reagem ou então vão comer muita poeira do verstappen e da RBR …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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