Gerência e liderança – parte 1

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Jack Welch nasceu no seio de uma família modesta, sendo seu pai ferroviário e sua mãe dona de casa. Contudo, Jack sempre se sentiu atraído pelo mundo dos negócios, e sendo ainda criança, se dedicou a repartir jornais e a atuar como caddy no clube de golfe local, antes de trabalhar numa loja de sapatos, tudo isso enquanto ainda estava na escola. Mais adiante, depois de se graduar como engenheiro químico, Welch conseguiria em 1960 emprego na General Electric, como assistente químico na divisão de plásticos. A partir daí, a carreira de Welch seria de contínua ascensão, mercê a o seu bom trabalho e, em 1981, assumiria a presidência da empresa, posição que manteria nos seguintes 20 anos, durante os quais a companhia apresentaria um crescimento espetacular.

Apesar de retirado desde 2001 (e falecido em 2020), Welch continuou sendo todo um exemplo referente para as novas gerações, dedicando-se a escrever, à docência e a oferecer conferências, sendo que muitas de suas frases continuam sendo de grande inspiração, não deixando lugar a dúvidas que promover entusiasmo nos subordinados é uma das principais tarefas de um líder. Assim, não é raro que destaquem dentre suas frases, precisamente, aquelas que fazem referência à liderança, como esta:

O trabalho mais importante que um líder tem é fazer a sua gente crescer, dando-lhe a oportunidade de realizar os seus sonhos

Toto Wolff teve uma vida mais fácil que Welch e sempre se sentiu atraído pelo automobilismo de maneira que, com apoio da mãe, logo começou a competir na Seat Ibiza Cup para, pouco depois, passar à Fórmula Ford alemã e austríaca. Porém, em 1994 e já com 22 anos de idade, Wolff perderia seus patrocinadores e consciente que sua corpulência era um obstáculo para progredir em sua carreira de piloto, decide continuar seus estudos de economia. Porém, Wolff os abandona seguro de que aprenderia mais “sobre o terreno” que nas aulas e, depois de um tempo trabalhando num banco na Polônia (aproveitando seu domínio do idioma), volta à Áustria e consegue um emprego na siderúrgica Koloman. Após dois anos lá, Wolff vê a oportunidade de iniciar um negócio próprio que, basicamente, consistia em atuar como agente da empresa na Polônia, mercado que ele então já conhecia bem. O negócio resultaria muito rentável e Wolff decide tomar um tempo livre para ir aos EUA para ver se havia alguma oportunidade de negócio por lá.

Wolff se encontrava em San Francisco justo no início do florescer das empresas tecnológicas do que viria a ser pouco depois o boom das chamadas Dot-Com, com sua posterior expansão a nível mundial. Assim, Wolff retorna à Áustria e, junto a seu amigo René Berger, funda em 1998 a  “Marchfifteen”, dedicando-se a investir em duas pequenas empresas do ramo. Isso terminaria sendo uma jogada mestra, pois ambas as empresas logo cresceriam bastante até o ponto de torná-las muito apetecíveis como investimento, tanto que acabariam sendo compradas por grupos norte-americanos por cerca de 325 milhões de dólares.

Com dinheiro fresco no bolso, Wolff retoma seu velho sonho de piloto e passa os seguintes anos competindo em campeonatos GT, inclusive com alguma vitória, como nas 24h de Dubai. Entrementes, em 2004, Wolff e Berger voltariam a se associar na fundação da “Marchsixteen”, com o objeto de investir em empresas de Internet e tecnológicas diversas. Em 2006, Wolff juntaria seu talento para os negócios com sua paixão pelo automobilismo comprando 49% da “ HWA “, a empresa que se ocupava de construir os carros dos campeonatos alemães da DTM e fórmula 3 para a Mercedes Benz, e tornando-se pouco depois diretor da companhia.

Em 2009, Wolff compra ações da equipe Williams equivalentes a 16% da companhia, passando em 2012 a ser diretor executivo. Contudo, no fim da temporada a Mercedes lhe oferece incorporar-se à sua equipe, ainda que sob a condição de que devia se integrar financeiramente com a compra de 30% das ações da mesma. Wolff não duvida nem um instante e, no fim desse mesmo ano de 2013, assumiria a direção completa da equipe (ocupando o lugar de Ross Brawn). A partir desse instante, fomos testemunhas do maior domínio que uma equipe jamais exerceu na fórmula um, conseguindo nos seguintes oito anos 7 títulos de pilotos e os 8 de construtores. Desta maneira, uma rápida olhada na carreira de Wolff nos mostra que sua habilidade para os negócios, assim como para identificar uma oportunidade enquanto esta se apresenta estão fora de dúvida. Também fica clara a sua capacidade para a gestão e a administração dos recursos disponíveis, algo que se espera de um bom gerente. Contudo, quando se trabalha com um grupo de pessoas, a liderança é tão importante quanto a gerência… talvez até mais!

Como simples observador desde fora, me parece que Wolff teve uns anos bastante “fáceis”, durante os quais a vantagem de equipamento unida a um regulamento propício, fez que a presença de um líder nem fosse necessária na equipe Mercedes. O bom gerenciamento dos recursos foi bastando para se manter no topo da categoria, e os títulos foram se sucedendo um após outro. Porém, a temporada de 2016 já nos mostrou as carências de Wolff no que se refere à liderança, e não foram raros os atritos entre seus pilotos ou, inclusive, episódios de desobediência às suas ordens. Se uma das principais características de um líder é inspirar confiança e infundir respeito… Wolff falhou neste quesito. Como também dizia Welch:

“Excelência e competitividade não são incompatíveis com a honestidade e integridade”

Wolff, então, não foi capaz de transmitir isto aos seus pilotos e, a meu modo de ver, tampouco foi capaz na temporada passada. Todos esperavam que a temporada de 2021, última a ser disputada sob um regulamento que havia resultado tão propício à Mercedes (graças ao seu excelente trabalho, dito seja), fosse outro passeio triunfal da equipe da estrela e de Lewis Hamilton a caminho de seu oitavo título. No entanto, uma surpreendente e renascida Red Bull resultou um osso duro de roer. De fato um osso que acabou “engasgando” a Mercedes.

Independentemente do inglório e inesperado desfecho do campeonato passado, creio que Wolff não soube lidar com uma situação que, pela primeira vez, era adversa para a sua equipe e, quando mais falta fazia a presença de um líder… este não estava. Nessa temporada, mais do que nunca, o segundo piloto era de crucial importância e sua contribuição poderia ser decisiva durante o desenrolar do campeonato. Contudo, eu me atrevo a dizer que Wolff não soube ver isso, pois a forma de “gerenciar” seu segundo piloto, não foi a que se requer num momento tão delicado. Citando novamente a Welch:

“Quando somos nomeados líder, não nos é dada uma coroa, nos é dada a responsabilidade de fazer sobressair o melhor nos outros”

Concretamente é isso que me parece que faltou Wolff fazer com respeito a Valtteri Bottas, justo quando mais precisavam de sua contribuição. Tampouco podemos esquecer como Wolff criticou a Bottas com motivo do GP de Sakhir de 2020 dizendo publicamente que tinha que falar com ele, pois “não havia brilhado nessa corrida”. Desde aquele GP, onde George Russel ocupou o lugar de Hamilton, ausente devido ao seu contágio por Covid, a incorporação de Russell à equipe Mercedes era algo que se dava como seguro, o que deixava a Bottas numa situação incômoda e, conforme a temporada avançava, os rumores da entrada de Russell no seu lugar iriam se intensificando, até que finalmente, no meio da temporada, se confirma o rumor e Russell é anunciado oficialmente como piloto da Mercedes para 2022, em detrimento de Bottas. Aqui não posso deixar de citar a Welch novamente:

“Dar confiança às pessoas é a coisa mais importante que se pode fazer. Porque então eles atuarão.”

Nesse sentido, Wolff deixou muito a desejar, pois confiança é o que lhe faltou a Bottas, e não há mesmo nada pior do que ser conscientes de que já não se confia em nós. O tal anúncio veio no pior momento da temporada, justo quando a Mercedes estava se recuperando e quando mais precisavam de Bottas. Certamente o finlandês, após cinco temporadas na equipe e já com 31 anos, parecia evidente que não podia dar mais de si, portanto trazer um jovem e talentoso piloto era a decisão mais correta. No entanto e apesar de ser a decisão correta que se espera de um bom gerente, a diferença entre um gerente e um líder é que um líder, além de fazer o que é correto, também o faz com correção.

 

Confira, em breve, a conclusão desta coluna

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

1 Comment

  1. Fernando Marques disse:

    Manuel Blanco,

    me parece obvio que a partir do momento de Keke Rosberg resolveu parar de correr que a Mercedes iria contratar um outro piloto “escudeiro” para formar a equipe junto com L. Hamilton. Não seria cabível exigir isso do Keke, que estava junto com a equipe desde o retorno da Mercedes como equipe na Formula 1. Afinal foi ele que ralou, que trabalhou como nunca, que deu a primeira vitória neste retorno … ou seja quando Hamilton foi para Mercedes sabia que se a Mercedes brigasse pelo título, que seu maior adversário nas pistas e fora dela também.
    Valteri Bottas ao aceitar ser piloto de Mercedes, sabia muito bem que viria para ser escudeiro. Barrichello sempre soube disso também quando aceitou ir para a Ferrari. E ele a meu ver sempre se mostrou incapaz de ser um bom piloto escudeiro.
    A decisão mais correta seria do Toto Wolff, seria a contratação de um outro piloto para o lugar de Bottas há uns dois anos atrás …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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