Flavio Gomes 1994

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Não li, mas já gostei, de Ímola 1994, livro recém-lançado de Flavio Gomes.

Soube pelas resenhas que ele revê a carreira no jornalismo, desde seu começo, meados dos anos 80, passando pelas coberturas in loco de Copas do Mundo de Futebol, Olimpíadas e uma mancheia de Grandes Prêmios, inclusive daquele que dá título ao livro, em que Roland Ratzenberger e Ayrton Senna perderam a vida e após o qual Flavio redefiniu a sua carreira, passando a ser o que é hoje, um jornalista de opinião – e que opiniões!

Sem ter lido o livro, me arrisco aqui a dizer que até Ímola 1994, ele era um jornalista, digamos, normal, refém do “quem, que, onde, quando, por que”, o arroz-feijão da reportagem – e glória eterna a quem pratica este jornalismo cotidiano, átomo da informação. Ocorre que este mister é uma estiva, pesada e mal paga, sujeita a burocracia, prazos e pressões geralmente desarrazoadas, tudo imerso no ambiente entre tóxico e infanto-juvenil das grandes redações. O jornalismo é, no Brasil, uma atividade profissional ainda adolescente e quem mergulha nela paga por isso.

Foi por coisas assim, creio, que Flavio resolveu romper com a Folha de S.Paulo, sua empregadora na época de Ímola (imagino que a história seja narrada em detalhes no livro e, pelo que sei, é eletrizante), e ele pode se tornar no que é hoje, um comentarista destemido ao ponto da temeridade, com um menu de assuntos sem limites, muito além do automobilismo, produção caudalosa, linguagem inovadora e desabrida – ah! Inveja da sem-cerimônia com que ele manda à m… ou mais longe quem ousa contestá-lo, leitores, colegas ou chefes.

Não deixou de ser o jornalista rigoroso que sempre foi, e prova disso é o seu www.grandepremio.com.br, irrepreensível no trato das notícias, nem deixou de viajar mundo afora, como narrado por ele em O Boto do Reno, livro de crônicas editado por Alessandra Alves usando o selo GPTotal, um momento alto da trajetória deste humilde site.

Já no https://flaviogomes.grandepremio.com.br/ ele manda ver sem dó, o mesmo nas redes sociais e programas de rádio e TV dos quais participa, encarando com visível prazer qualquer briga pelos seus pontos de vista, mesmo que seja a defesa do governo da Venezuela ou do PT. Em meio a tudo isso, ainda encontrou tempo para colecionar carros peculiares, correr em Interlagos e empurrar os filhos em direção à paixão pela Portuguesa de Desportos, que Deus perdoe Flavio por isso.

 

 

Nos meus primeiros tempos no jornalismo, final dos anos 70, começo dos 80, opinião nos jornais era algo limitado a editoriais escritos por beletristas provectos, que falavam mais ou menos como ministros do Supremo, e reportagens assinadas eram uma raridade – assinei meu primeiro texto em algum dia de fevereiro de 1977, na Folha, depois de bisbilhotar uma conversa entre o cardeal Paulo Evaristo Arns e o então prefeito Olavo Setúbal. Colunistas eram igualmente raros e mantidos sobre estrito controle das chefias.

Vi isso de perto, tendo crescido profissionalmente num ambiente rigoroso, Gazeta Mercantil, começo dos anos 80, reduto do Partidão, onde a ortodoxia política se somava à inércia própria dos comunistas da velha guarda, sempre à espera das ordens de Leonid Brejnev e da gerontocracia do Kremlin ou, no caso da redação, do impenetrável diretor Roberto Muller Filho. Expressar opinião em nossos textos era um anátema.

Isso começaria a mudar anos mais tarde. Impulsionado pela imprensa alternativa e abraçado pela Folha dos anos Otavinho Frias, o jornalismo de opinião foi progressivamente forçando o jornalismo dito objetivo contra a parede, confrontando-o com a falsa equivalência do “outro lado”, princípio que se tornou de todo anacrônico quando do “outro lado” estão mentirosos descarados como Bolsonaro, Trump ou Putin.

Hoje, o jornalismo de opinião como o praticado por Flavio está na linha de frente deste bom combate. Vivemos na época das bolhas e elas não se rompem com gentilezas e “dá licença”.

 

 

Nunca fui próximo a Flavio. Nos conhecemos brevemente creio que há uns 20 anos, ele tendo generosamente apadrinhado o GPTotal e me emprestado a edição 2000 do Marlboro Guide, que está aqui na minha mesa e que devolvo na primeira oportunidade, prometo.

Tempos depois, Flavio se tornou uma das minhas referências do pensamento enragé de esquerda. Eu o acompanhava principalmente quando – idiota que eu era – frequentava o Facebook. Agora, desde final de 2015, larguei de qualquer rede social, minhas leituras, minhas regras…

Pelo que sei, Flavio segue sendo um jacobino, um bolchevique (será? Ele é a favor da ditadura do proletariado? Da socialização dos meios de produção? Do partido único? Sei não. Às vezes acho que Flavio está mais para um anarquismo europeu contemporâneo).

Eu, decididamente, estou mais para menchevique e dos bem moderados, uma coisa Angela Merkel, por aí. Sabe como é: nós, mencheviques, ganhamos a parada até agora contra os bolcheviques, mais riqueza produzida, menos desigualdade, bem menos sangue derramado, mas a história é uma criança e tudo pode mudar no futuro. Uma triste percepção deixada pela pandemia é que regimes autoritários impostos a uma sociedade naturalmente conformada podem enfrentar melhor uma crise deste tipo e também progredir mais rápido do que democracias. Espero que eu esteja errado. Seria uma tragédia pior que a pandemia se a história, esta senhora volúvel, nos mostrasse que a democracia é uma via menos eficaz para o progresso humano.

 

 

Automobilistas em peso são reacionários, me perdoem a observação. Imagino que a maioria perfile Nelson Piquet em suas manifestações pró-Bolsonaro, incluindo negacionismo, violência policial, o salve-se quem puder que é o programa do governo federal no momento.

Ao sair das redes e me fechar no mundinho protegido do GPTotal, me poupei bastante da polarização reinante e isso me diferencia de Flavio. Ele não fugiu à luta, o que por si só já seria motivo mais do que suficiente para admirá-lo.

Neste mar encapelado, extenso e escuro, Flavio é um fio desencapado, pronto a explodir à primeira provocação, seja o assunto Bolsonaro, Coreia do Norte ou se os pilotos do passado eram melhores que Hamilton&Cia. Eu, decididamente, não sou assim. Se Flavio puxar a faca, eu vou tentar fazê-lo embainhá-la. Ele briga, eu tento conciliar, ele é Ulisses, eu tento ser Tancredo.

Acredito que a civilização prospere do encontro de pessoas como eu e ele, em oposição à reação trevosa. A virtude está em algum lugar entre nós dois, sempre em tensão e em oposição àqueles que não acreditam na civilização como remédio para os nossos males.

Reconheço aqui que são os fios desencapados como Flavio que mudam mais a ordem das coisas neste mundão louco que padecemos hoje. Conciliadores como eu têm seu lugar, sempre terão, mas as coisas se movem mais rápido quando Flavio chuta o pau da barraca.

Claro que não se pode esperar de um fio desencapado que não ataque os doces antes de apagar a vela do aniversariante, que não saia pra fumar escondido, que não fale palavrões na frente das meninas. Ser um fio desencapado tem seu preço e consequências, para o fio em si e para os circunstantes. E f…-se!

 

Eduardo Correa

 

Serviço: Imola 1994 pode ser comprado exclusivamente pelo site da Gulliver Editora (https://gullivereditora.com.br/). Custa 70 reais e pesa pouco mais de meio quilo.

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

6 Comments

  1. Rubergil Jr disse:

    Flavio Gomes é um ótimo jornalista, isso é inegável. Suas histórias são deliciosas de ler, seus textos têm um português invejável – aprendi muito. O Grande Premio é minha referência de jornalismo esportivo – site que aliás, conheci graças à parceria com o GPTotal lá pelos anos de 2003/2004.

    Mas há alguns anos deixei de ler o blog do FG. Discordo veementemente de muitos de seus posicionamentos, chegando mesmo a me sentir ofendido algumas vezes. Os fios desencapados de esquerda como ele me causam tanta náusea como os fios desencapados de direita. Odeio tanto o exagero esquerdista como o exagero de direita. Odeio Lula, e odeio Bolsonaro. Sim, estou com muito ódio no coração mesmo, kkkkk.

    Como você, Edu, eu não tenho redes sociais, e tenho evitado ler blogs e textos opinativos tanto de esquerda como de direita (deixei de ler também o Autoentusiastas por isso). A desilusão política me é grande, até passo mal em pensar num segundo turno entre Lula e Bolsonaro. É nisso que se resume o Brasil de hoje? Pensando bem, talvez esse tenha sido o Brasil de sempre.

    Mas enfim, num coisa eu concordo com o Edu. Sempre vão existir fios desencapados dos 2 lados, e a solução encontra-se num meio termo. Num “centrão”, por assim dizer – não o do Congresso!

    • Fernando Marques disse:

      Por isso sou voto nulo.
      Lula x Bolsonaro … Ninguém merece … O Brasil não merece

      Fernando Marques

      • Manuel disse:

        Dizia Harold McMillan que: ” A democracia é o único sistema que garante que os povos não tenham um governo melhor do que merecem ! “

  2. Thiago Rocha disse:

    Certamente eu gosto mais de F1 por causa de vocês dois. Escreva mais Edu, escreva sempre. Escreva mais um livro 🙂

  3. Gus disse:

    Em comum, vocês têm o amplo domínio da escrita, cada um com suas singularidades. E como é bom ler gente com essa virtude, cada vez mais rara. É um regalo!
    Abraço.

  4. Fernando Marques disse:

    Edu,

    Eu adoro futebol e automobilismo.
    Sou fã incondicional do Zico e do Piquet. O que eles pensam da política brasileira. Não sei e nem quero saber. Detesto política. Sou voto nulo. Eles são meus ídolos pelo que fizeram no esporte.
    O que mais gosto no Flávio Gomes são seus DKW’s … Seja os carros, seja a sua moto … Aliás adoro carros antigos …
    Creio que um dia irei ler este seu novo livro. Realmente promete ser uma leitura agradável e muito bacana.
    Mas Flávio Gomes como formador de opinião, tenho controvérsias … na área do esporte … Na política como disse passo batido e voto nulo.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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