Foto-Legendas – Le Mans, 81 a 99

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Porsche 956 LH 1983

Entre 1981 e 1999, as 24 Horas de Le Mans viveram anos caóticos, no melhor sentido do termo. Uma hegemonia longa, outras breves, vencedores inesperados em rápida alternância, lindos carros, a sombra da Porsche pairando sobre todo o período. A marca alemã ganhou direta ou indiretamente mais da metade das corridas no período.

Como pano de fundo, muitas mudanças de regulamento, por conta do rápido progresso técnico (inclusive com limitações no uso de combustível) e comercial e pela agressiva ofensiva da F1, liderada por Bernie Ecclestone, visando tirar de Le Mans fabricantes e patrocinadores.

A seguir, um pouco – só um pouco – do que aconteceu em mais este período extraordinário da clássica corrida francesa.

1981

Vence o Porsche 936, o mesmo modelo que já vencera em 76 e 77 e que havia sido competitivo nos anos seguintes.

Foi pilotado por Jacky Ickx e Derek Bell, dupla nossa conhecida da vitória de 75. Eles derrotam um esquadrão de cinco carros da Rondeau, que tem de se contentar com os 2º e 3º lugares.

 

1982 – 1987

A Fia cria o Grupo C e começa a hegemonia do Porsche 956, um dos mais belos carros de corrida de todos os tempos. Serão nada menos do que seis vitórias seguidas em Le Mans, até 87, sendo que em 83 e 84, o chassi vencedor é o mesmo.

O motor é o mesmo do modelo 936 vencedor em 81, um seis cilindros flat, turbocomprimido, com 2,6 litros, produzindo uns 630 HPs, concebido originalmente para a Fórmula Indy. O carro incorporava o efeito solo, produzindo três vezes mais downforce que o modelo 917.

O modelo 956, mais tarde batizado 962, foi produzido em larga escala – 29 deles apenas entre 82 e 84 – e colecionou vitórias em série na Europa e Estados Unidos.

Em Le Mans, os vencedores foram pilotados, em 82, por Ickx e Bell; em 83, por Hurley Haywood e Al Holbert; em 84, por Klaus Ludwig e Henri Pescarolo (em sua 4ª vitória nas 24 Horas); em 85, por Paolo Barilla, Ludwig e John Winter; em 86 e 87, com o modelo sendo designado como 962C, por Bell, Holbert e Hans-Joachim Stuck.

1988 + 1990

A Jaguar consegue quebrar a hegemonia da Porsche em 88 com seu modelo XJR-9, pilotado por Johnny Dumfries, Jan Lammers e Andy Wallace. O carro foi projetado por Tony Southgate, veterano da F1, e construído por Tom Walkinshaw, que mais tarde assombraria a categoria. O carro era equipado com um motor Jaguar V12 de sete litros.

Em 1990, a vitória veio com o modelo XJR-12 LM. Ao volante, Martin Brundle, Price Cobb e John Nielsen. A primeira vitória da Jaguar em Le Mans no pós-guerra acontecera em 51 e foi repetida em 53, 55, 56 e 57.

1989

É a vez da Mercedes voltar a vencer em Le Mans, lembrando que isso só havia acontecido antes em 52.

O retorno da marca às 24 Horas foi cercado de grande expectativa, tendo quebrado um tabu compreensivelmente criado após o acidente de 55, que cobrou a vida de 84 pessoas e feriu mais de cem, na maior tragédia da história do automobilismo.

O vencedor em 89, modelo C9, foi pilotado por Stanley Dickens, Jochen Mass e Manuel Reuter e construído e inscrito pela Sauber, que vinha acompanhando a Mercedes na sua cuidadosa volta ao automobilismo de competição, tentando reviver – com pleno sucesso como se viu –as míticas Flechas de Prata.

1991

No ano em que se inaugura o complexo dos boxes de Le Mans, acabando com a crônica falta de espaço que atormentou as equipes por tantos anos, uma grande surpresa ao final das 24 Horas: vence o Mazda 787B, equipado com um motor Wankel, pilotado por Johnny Herbert, Volker Weidler e Bertrand Gachot.

O grid de largada da prova é extraordinário, reunindo equipes da Mercedes, Jaguar, Peugeot e Porsche, o que só enobrece a vitória dos japoneses, que segue sendo a única em Le Mans de um carro movido por um motor não acionado por pistões (engenheiros, me corrijam se eu estiver errado: o termo técnico para definir um motor Wankel é “motor não reciprocante”) e também a primeira de um fabricante japonês, coisa que só aconteceria novamente em 2018, com a Toyota.

Em 91, um Jaguar XJR-12 termina as 24 Horas em 2º lugar. Ao volante, Davy Jones, Michel Ferté e Raul Boesel. É o melhor resultado colhido até então por um piloto brasileiro em Le Mans.

1992 – 1993

Mais uma marca clássica chega à vitória em Le Mans. Desta vez é a Peugeot, com o modelo 905B, pilotado por Mark Blundell, Yannick Dalmas e Derek Warwick em 92 e Chris Bouchut, Geoff Brabham e Éric Hélary em 93. O carro, fabricando em fibra de carbono, é equipado com um motor V10 aspirado de 3,5 litros, similar ao usado na F1.

Em 2º lugar na prova de 92, fica um Toyota, que iniciava a sua luta para conquistar Le Mans. Seria um longo caminho a percorrer.

1994

A vitória cabe ao Dauer 962, inscrito pela Le Mans Porsche Team e pilotado por Dalmas, Haywood e Mauro Baldi.

O Dauer era uma derivação do Porsche 962, tendo recebido este nome para explorar brechas de regulamento que nunca tive paciência de deslindar. Seu motor era o já bem conhecido seis cilindros flat turbo, de três litros, que começou sua vitoriosa carreira em Le Mans ainda nos anos 70.

1995

Na 24 Horas mais chuvosa disputada até então – foram 17 horas sob chuva –, vimos a vitória do McLaren F1 GTR, pilotado por JJ Lehto, Dalmas e Masanori Sekiya.

O lindo carro, criação de Gordon Murray, consegue a vitória e também o 3º, 4º (com Maurizio Sandro Sala sendo um dos pilotos) e 5º lugares logo em sua estreia em Le Mans, coisa que só a Ferrari conseguiu entre os grandes fabricantes.

Os McLaren eram equipados com motores BMW V12, de 6,1 litros.

1996 – 1997

Uma mistura estranha: o carro vencedor por dois anos seguidos em Le Mans, designado TWR Porsche WSC-95, é um protótipo construído por Tom Walkinshaw a partir do Jaguar XJR-14, com motor e consultoria da Porsche e inscrito pela Joest Racing. O motor, adivinhem…, é o seis cilindros flat.

Em 96, ao volante estavam Jones, Reuter e o estreante Alexander Wurz, que se tornaria, ao 22 anos, o mais jovem a vencer as 24 Horas. Em 1997, os pilotos são Michele Alboreto, Stefan Johansson e Tom Kristensen, na primeira das suas nove vitórias em Le Mans.

1998

Vence o Porsche 911 GT1-98, pilotado por Laurent Aïello, Allan McNish e Stéphane Ortelli, deixando em 2º um modelo gêmeo.

A designação do vencedor engana. Associamos o modelo 911 aos GT mais conhecidos da Porsche, não sendo difícil cruzar com eles por aí. O vencedor em Le Mans, porém, nada tem em comum com o modelo de rua. Foi construído em torno de um chassi derivado do modelo 962, sendo capaz de atingir 330 km/h na Mulsanne, graças ao seu motor de seis cilindros flat, duplo turbo, 3,4 litros, refrigerado a água.

1999

A primeira e única vitória de um BMW em Le Mans vem ao fim de uma corrida notável, disputada pela Audi, Ferrari, Mercedes, Nissan e Toyota, apenas para citar grandes fabricantes. O BMW V12 LMR vencedor foi pilotado por Dalmas, Pierluigi Martini e Joachim Winkelhock, e chegou na frente graças à combinação de confiabilidade e economia de combustível. O carro foi construído pela WilliamsF1. O motor V12 tinha seis litros de capacidade cúbica.

A prova de 99 foi marcada pelos acidentes com os Mercedes CLR durante os treinos e a corrida. Os carros alemães têm um defeito de concepção que os torna propícios a decolarem em plena reta, provocando acidentes pavorosos com Mark Webber (no treino e warm-up) e Peter Dumbreck, que escaparam ilesos.

Rendida às evidências, a Mercedes retira os carros remanescente da prova, a exemplo do que fizera em 1955.

Mais Foto-Legendas:

Le Mans – Os anos 70: https://gptotal.com.br/foto-legendas-le-mans-anos-70/

A saga do Ford GT40 em Le Mans: https://gptotal.com.br/foto-legendas-a-saga-do-ford-gt-40-em-le-mans/

As joias da Ferrari em Le Mans https://gptotal.com.br/foto-legendas-as-joias-da-ferrari-em-le-mans/

O Porsche 917 https://gptotal.com.br/foto-legendas-porsche-917/

Jim Clark https://gptotal.com.br/foto-legendas-jim-clark/

Legendas 1 https://gptotal.com.br/foto-legendas-1/

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

4 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Edu,

    a Série “Fotos Legendas” Le Manns é tão espetacular que o esquecimento a respeito do Jose Carlos Pace obviamente está mais que perdoado … é muito show de fotos e belíssimos carros …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Edu disse:

    Robertão e o amigo Mário Salustiano apontam, com toda razão, um erro em minha coluna: antes de Raul Boesel, um piloto brasileiro já havia conseguido um 2o lugar em Le Mans: foi José Carlos Pace, correndo em dupla com Arturo Merzario com um Ferrari 312 PB nas 24 Horas de 73.
    Perdoem meu esquecimento
    Edu

  3. robertão disse:

    Apena corrigindo. A materia cita o segundo lugar de Boesel ” É o melhor resultado colhido até então por um piloto brasileiro em Le Mans.”
    José Carlos Pace chegou em segundo na edição de 1973 com a Ferrari 321PB

  4. Rubergil Jr disse:

    Obrigado pelas fotos e narrativas, muito legal!

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