Hamilton 92

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E a história foi feita! Sim, há muitos pormenores a serem ditos sobre todo o contexto da F1 atual como foi bem falado pelos meus irmãos Marcio Madeira e Lucas Giavoni nas suas últimas colunas, mas não se podem negar os fatos. Lewis Hamilton se tornou hoje o piloto com o maior número de vitórias da história da F1, ultrapassando a antiga marca, que já parecia imbatível, de Michael Schumacher obtida catorze anos atrás. O incrível número de vitórias obtidas por Hamilton leva à alguns fatos assustadores. O inglês tem agora o mesmo número de vitórias de Alain Prost (51) e Ayrton Senna (41) somadas, os pilotos-lendas que estão em quarto e quinto nessa lista histórica de maiores vencedores da F1.

A corrida de hoje no belíssimo circuito de Portimão foi uma amostra de um Lewis Hamilton bem diferente do imberbe piloto que estreou na F1 em 2007 e venceu sua primeira corrida logo na sua sexta corrida. O talento e velocidade de Hamilton nunca foram negados, mas algumas arestas foram sendo lapidadas ao longo dos anos e hoje temos um Lewis Hamilton maduro dentro e fora das pistas. A vitória de número 92 não foi de ponta a ponta. Hamilton nem parecia à vontade no circuito localizado no Algarve, ao contrário de Bottas, que foi mais rápido em praticamente todos os treinos. Na hora agá, Hamilton foi lá e tirou o doce da boca de Bottas para conseguir outra pole no último momento. A corrida não começou da forma ideal não apenas para Hamilton, como para todos os pilotos do grid. Lewis chegou a cair para quarto, mas ciente de sua superioridade, respirou fundo e atropelou quem vinha pela frente. Nem tendo o mesmo carro dominante faz de Valtteri Bottas um rival a ponto de ameaçar o inglês. Apesar de ajudado pelo famigerado DRS, a forma como Hamilton ultrapassou Bottas foi mais um exemplo de sua ampla superioridade sobre o companheiro de equipe. A vitória estava no papo e mesmo com uma câimbra aqui, um pneu desgastado acolá, Hamilton dominou o resto da prova para colocar ainda mais seu nome na história da F1. Agora, ele é uma grande referência do automobilismo!

Sem ter muito que fazer para enfrentar os carros da Mercedes, Max Verstappen fez o seu papel atual na F1 e conseguiu o lugar mais baixo do pódio, mesmo batendo rodas com Sergio Pérez na caótica primeira volta da corrida. Contudo, a Red Bull tem preocupações mais latentes no momento. Alexander Albon fez outra corrida abaixo da crítica e sequer pontuou. Para piorar, ainda tomou uma volta… de Verstappen! O lugar do tailandês já corre sério perigo e a falta de paciência de Helmut Marko pode fazer de Albon e mais nova vítima da gulosa máquina de triturar pilotos da Red Bull. Enquanto isso, Pierre Gasly fez outra boa corrida, mostrando ao mesmo Marko que nem todos os jovens pilotos tem a mesma velocidade de desenvolvimento. Após um ano horroroso com a Red Bull em 2019, Gasly foi rebaixado para a hoje Alpha Tauri e seu trabalho desabrochou, com ótimas atuações do francês. Contudo, a falta de paciência de Marko não ajuda seus jovens pupilos e talvez a Red Bull olhe para fora do seu programa de jovens pilotos para trazer um piloto que pelo menos pontue no Mundial de Construtores, algo que Albon não vem conseguindo. Pérez foi um dos destaques da corrida ao cair para último depois do toque com Verstappen e chegar a ocupar um quinto lugar, mas o mexicano perdeu duas posições nas voltas finais. Pérez é um dos candidatos ao lugar de Albon. Já Stroll… Não deixa de ser triste para a F1 ver um piloto tão fraco ter um bom equipamento nas mãos e cometer erros tão elementares, como não respeitar a lei da física em que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. A tentativa de ultrapassagem sobre Norris foi de um otimismo atroz e o toque entre os dois jovens pilotos foi inevitável, fazendo Stroll rodar, ser punido corretamente e abandonar quando estava em último, fazendo a equipe do seu papai perder mais pontos preciosos no Mundial de Construtores.

A Ferrari parece ter duas equipes bem distintas. De um lado, Charles Leclerc faz ótimas classificações, coloca seu carro limitado em posições acima do seu potencial e o monegasco marca pontos importantes como o sólido quarto lugar logrado hoje. Do outro lado, Vettel fez outra corrida medíocre, onde sofreu para pontuar. A situação de Vettel dentro da Ferrari já começa a deixar o tetracampeão numa situação incômoda, pois seu desempenho está muito abaixo do que um piloto que é o terceiro maior vencedor da história da F1 pode apresentar. Depois da corrida, Vettel criticou a Ferrari, insinuando que Leclerc recebe equipamento melhor. Binotto retrucou dizendo que esperava mais do seu segundo piloto.

Se já não bastasse um ano muito ruim dentro das pistas e longe da briga por vitórias, a Ferrari ainda tem que lhe dar com um piloto claramente descontente e que pode ter o mesmo triste destino de Alain Prost 28 anos atrás.

Kimi Raikkonen completou faz pouco tempo 41 anos de idade, mas o finlandês mostrou nesse domingo que ainda é capaz de exibições de tirar o fôlego. A sua primeira volta hoje em Portimão foi daquelas de emoldurar num quadro, quando pulou de décimo sétimo para sexto com uma pilotagem segura numa condição de pista escorregadia e levemente molhada e pneus congelados. Entre uma patada e outra, Kimi, que no Ceará poderia ser conhecido como Seu Lunga nórdico, ainda é capaz de sutis toques de genialidade.

Muito se pergunta como seria a F1 se Lewis Hamilton e a Mercedes não estivessem correndo. Seria mais equilibrado e emocionante? De certa forma, a MotoGP vem respondendo essa pergunta com uma temporada completamente imprevisível com a ausência de Marc Márquez, onde não há lógica de uma corrida para outra. Enquanto Morbidelli venceu hoje dominando a corrida de ponta a ponta em Aragão, seu companheiro de equipe, o badalado Fabio Quartararo, foi apenas oitavo em outra exibição opaca. A melhor Ducati foi o quinto colocado Zarco, com um modelo de 2018. A Yamaha que vem vencendo não é da equipe de fábrica, mas sim da equipe satélite. A única moto regular desse ano é a Suzuki, que vai colocando seus dois pilotos em ótimas posições a ponto de Joan Mir ser líder do campeonato sem ter uma única vitória. O equilíbrio marcante desse ano, porém, não garante muita coisa para Mir ou qualquer um que esteja na luta pelo título, pois a diferença entre os primeiros colocados é bastante pequena e tudo pode mudar nas próximas corridas.

Da mesma forma como Lewis Hamilton fez história de um lado do Atlântico, Scott Dixon fez história no lado de cá com o sexto título na Indy. Aos 40 anos Dixon se mostra cada dia mais em forma e faminto para bater outros recordes. Correndo sempre com a Ganassi, onde conquistou seus seis títulos, Scott Dixon foi sempre capaz de levar a equipe nos últimos anos nas costas para angariar seus resultados. Dixon oscilou nas últimas provas, deixou a decisão ir para a prova derradeira em St Petersburg, mas o piloto da Ganassi usou sua tarimba para conseguir o sexto título e ficar apenas um atrás da lenda A.J. Foyt. Porém, já podemos colocar Dixon entre as lendas da Indy.

Lewis Carl Davidson Hamilton escreveu mais uma página na história da F1. Aos 35 anos de idade e correndo pela melhor equipe das últimas décadas, Lewis Hamilton tem tudo para chegar às marcas centenárias em número de poles e vitórias. A Mercedes vem construindo o melhor carro da F1 nos últimos sete anos e desde a saída de Nico Rosberg, Hamilton reina sozinho dentro do time, mas é inegável que o que conseguiu nesse domingo o coloca entre os gigantes do esporte.

Abraços!

João Carlos Viana

 

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

1 Comment

  1. Fernando marques disse:

    Muito bom o circuito de Portimão.
    Se tivesse uma graminha depois da zebra seria melhor ainda.
    Vou deixar aqui uma pergunta pra galera do Gepeto catar as minhocas.
    Hamilton ainda não renovou seu contrato com a Mercedes.
    Ao fim do ano ele certamente terá igualado os sete títulos do Schumacher.
    Será recordista em vitórias e poles. Os recordes que realmente valem de verdade.
    Será que em vez de renovar ele se aposenta?

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