Mano a mano

The Greatest 3
15/04/2021
De volta às origens
22/04/2021

A chuva sempre foi uma forte aliada da F1 para termos uma corrida emocionante pela frente, com a pista molhada nos trazendo o imponderável às pistas. No GP da Emília-Romagna, houve erros em todas as partes do pelotão e em variados momentos. Fernando Alonso rodou na volta de instalação. Leclerc rodou na volta de apresentação, quase um Alain Prost na mesma pista. Mick Schumacher bateu durante o Safety-Car. Max Verstappem quase rodou numa relargada. Lewis Hamilton saiu da pista quando tentava alcançar Verstappen. Nikita Mazepin… esse rodaria de qualquer jeito.

Será que precisaremos desse expediente para trazer emoção à temporada? Desde o curto período de testes no Bahrein, estava muito nítido que 2021 seria diferente dos anos anteriores. Por pior que estivesse a Mercedes, os alemães se recuperariam mais cedo ou mais tarde, mas era garantido que a Red Bull estava mais forte.

Isso no mínimo garantiria uma briga próxima e muito esperada. Se Hamilton fez de Sebastian Vettel gato e sapato na comparação com o outro multi-campeão da década passada, era muito aguardada uma disputa mais parelha com Verstappen. O neerlandês é daqueles talentos puros que surgem de tempos em tempos e mesmo contando com tenros 23 anos de idade, já tem bagagem o suficiente para lutar pelo título com Hamilton. Faltava a Red Bull colaborar e fazer um carro pelo menos no nível da Mercedes. E isso finalmente aconteceu!

No domingo chuvoso em Ímola, o caos imperou numa corrida onde praticamente aconteceu de tudo, porém, os holofotes ainda ficaram nos dois protagonistas de 2021. No Bahrein Hamilton tirou uma vitória da cartola ao derrotar um Verstappen extremamente poderoso. Um erro na classificação colocou o holandês na terceira posição, mas no apagar das cinco luzes vermelhas, ele ignorou o spray e a estreiteza da pista para espremer seu carro entre a grama e a Mercedes de Hamilton e se colocar por dentro na Tamburello.

As duas estrelas da F1 chegaram lado a lado onde só cabia um carro e o toque foi inevitável, com o inglês chegando a danificar sua asa dianteira, mas mantendo a segunda posição, enquanto Verstappen era o novo líder. Com a pista ainda molhada, ele era claramente mais rápido, mas quando o asfalto começou a secar, Hamilton diminuiu a diferença, de 6s para menos de 2s quando os líderes chegaram num enorme grupo de retardatários.

Na ocasião, todo o pelotão já estava com pneus slicks, mas a pista ainda estava úmida fora do trilho. Voltando aos tempos em que a impetuosidade era maior do que o enorme talento, Hamilton tentou deixar para trás os retardatários o mais rápido possível e acabou freando na parte úmida da Tosa quando estava ao lado de George Russell, cometendo um raro erro, saindo da pista e batendo de leve no muro. A vitória estava perdida, mas poderia ter sido muito pior.

O polêmico acidente entre o próprio Russell e Valtteri Bottas ajudou sobremaneira Hamilton, mostrando que a sorte anda lado a lado com os campeões. Tendo perdido uma volta e com asa dianteira arrebentada, ele foi ajudado pela proporção do acidente e a consequente bandeira vermelha, podendo reparar seu carro e ainda recuperar a volta perdida. Com isso, pode terminar na segunda posição. Ao marcar a melhor volta da prova, desempatou a disputa toda particular que travará com Verstappen. Agora ambos têm uma vitória e um segundo lugar. A disputa entre eles será daquelas milimétricas, decidida nos pequenos detalhes ou por quem errar menos, incluindo aí as equipes.

Ensinado desde cedo que seria um campeão na F1, Verstappen finalmente se vê com equipamento para conseguir seu objetivo, mas para isso terá pela frente um multi-campeão experiente e motivado. Mesmo ninguém contestando o lugar que Hamilton já tem na história do esporte, seus números superlativos são contestados pela falta de uma resistência mais séria, seja de outra equipe, seja do seu companheiro de equipe (tirando, claro, Nico Rosberg). Se Hamilton bater Verstappen em condições de igualdade, essas contestações poderão diminuir bastante e o inglês deverá se alimentar disso para bater o adversário.

O ano de 2021 se desenha clássico nessa disputa mano a mano entre as duas maiores estrelas da F1.

Na grande polêmica da corrida, Russell estava com a asa aberta para ultrapassar Bottas, que se colocou por dentro e, tentando intimidar o jovem inglês, foi um pouco para a direita. De fato, isso intimidou Russell, mas as consequências foram piores do que o calculado, pois ele colocou um pneu na grama molhada, perdeu o controle do Williams e se chocou com a Mercedes, levando ambos a baterem muito forte, sujando toda a pista. Russell ficou furioso, chegando a dar um ‘pedala Robinho’ no capacete de Bottas. A transmissão da Band foi unânime em acusar unicamente Russell, mas a câmera on-board de Raikkonen, que vinha logo atrás dos dois, mostrou claramente um Bottas jogando seu carro para cima de Russell para se defender. Uma situação, no mínimo, 50/50 e a direção de prova concordou que se tratou de um acidente de corrida.

Vale destacar um detalhe muito importante nessa briga: Bottas, com uma Mercedes, estava na nona posição. E se defendendo dos ataques de uma Williams! Independente do acidente, seu possível sucessor na equipe Mercedes, Ímola é mais uma na caderneta de corridas horrorosas de Bottas.

Ele, porém, não esteve sozinho no panteão das corridas safadas de ontem. Sergio Pérez largou na primeira fila, mas nem de longe esteve no nível de Verstappen. O mexicano errou durante o safety-car e mesmo com mais de dez anos de F1, simplesmente ultrapassando dois carros, algo proibido desde 1993! Para completar, quando estava em quarto lugar após cumprir sua punição, rodou sozinho e caiu para as últimas posições, não conseguindo pontuar. Helmut Marko já deve pensar em pedir a FIA para correr com apenas um carro…

Isso abriu margem para que outros pilotos se destacassem. Todos lamentaram a punição de Lando Norris no sábado pela estúpida regra de ‘track limits’, fazendo-o cair de uma potencial primeira fila para sexto. Porém Norris fez uma senhora corrida de recuperação e ao ultrapassar Charles Leclerc na relargada, estava num sólido segundo lugar, suportando bem a pressão da dupla da Ferrari.

Quando Hamilton apareceu no retrovisor de Norris, a situação parecia irreversível, mas Norris deu uma luta para o compatriota, que só assumiu a segunda posição nas voltas derradeiras da corrida. Norris já é um dos destaques da F1 em 2021 e é um incrível terceiro colocado no campeonato.

A Ferrari mostrou uma grande evolução ao que foi visto em 2020. Porém, se olharmos pelo lado do copo vazio, piorar a pífia temporada passada teria consequências inimagináveis em Maranello. Leclerc ficou a maior parte do tempo no pódio, mas não resistiu ao melhor ritmo de Norris e teve que se contentar com a quarta posição, enquanto Carlos Sainz, mesmo com os seguidos erros durante a corrida, ainda foi quinto.

Daniel Ricciardo foi sexto, mas não há muito que comemorar. Ele em nenhum momento esteve à altura do ritmo de Norris, a ponto de ser ‘convidado’ pela McLaren a ceder-lhe a sua posição. Lance Stroll marcou pontos com a Aston Martin, enquanto a carreira de Vettel é cada vez mais questionada com corridas seguidas abaixo da crítica.

Na MotoGP, Marc Márquez largou para o Grande Prêmio de Portugal com sua Repsol Honda, após nove meses de uma recuperação complicada e cheia de problemas. Conseguiu um lugar na segunda fila, largou muito bem e pensou-se em determinado momento que o espanhol faria um retorno triunfal.

Não foi o caso. Antes da largada, avisou que sentiu muitas dores no braço direito e até colocou em dúvida se conseguiria terminar a corrida. Após perder posições em sequência, Márquez foi subindo de posição com os abandonos e terminou num discreto sétimo lugar. Ele foi o melhor piloto da Honda e não estava distante do top-5. Com um ritmo decente até o fim, deverá evoluir durante o ano, mas o título parece difícil.

Falando em antigos campeões, Valentino Rossi vai fazendo um início de temporada tenebroso. Só não era o pior piloto da Yamaha por causa da largada horrorosa de Viñales, mas já era alcançado pelo espanhol quando caiu sozinho, fora do top-10.

Com 42 anos, Rossi corre o sério risco de ser aposentado, ao se tornar uma pálida sombra do que já foi. Fabio Quartararo venceu em Portimão, próxima parada da F1, e assumiu a ponta da MotoGP, mas o francês esteve numa situação parecida ano passado e murchou de forma inacreditável a ponto de terminar o campeonato num obscuro sexto lugar. Resta saber se conseguirá manter o ritmo até o fim.

Se antigamente a chuva era comemorada num domingo de F1, ela não faria tanta falta assim em Ímola. Verstappen mostrou suas intenções logo na largada ao peitar Lewis Hamilton quando ambos estavam lado a lado na primeira curva. Esse tipo de atitude mostra com quanta ferocidade está o neerlandês para conquistar seu primeiro título, mas o raro erro de Hamilton também demostrou que o inglês não cederá o seu cetro sem luta.

2021 promete!

Abraços!

João Carlos Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

4 Comments

  1. Olá Fernando!

    O que eu quis dizer sobre a chuva era que muitas vezes rezávamos para que chovesse para termos uma corrida emocionante na F1, pois em condições normais, a corrida tendia a ser bastante previsível. Com essa disputa que tende a ser épica entre Verstappen vs Hamilton, talvez não teremos mais que torcer pela chuva para termos uma corrida empolgante, como foram as duas últimas.

    Sim, acho a contratação de Sérgio Pérez acertada, mas não há como negar sua péssima corrida em Ímola, por mais combativo que ele tenha sido. Por sinal, sua combatividade veio por causa dos seus erros.

    • Fernando Marques disse:

      JC,

      Eu entendi seu ponto de vista sobre a questão da chuva.
      Eu apenas tentei mostrar o quanto o imponderável pode ser bom para uma boa dinâmica da corrida. E existem muitos impoderaveis que podem ocorrer numa corrida. Não só uma chuva, mas no caso desta corrida a meu ver sim por que até eu não acreditava e bem esperava por chuva em imola.
      Mas como eu não sou bom escrevendo, posso ter passado a impressão que discordei de você neste sentido. Muito pelo contrário, você foi perfeito na análise.

      Fernando Marques

  2. Fernando Marques disse:

    Esqueci de comentar uma coisa … como o desempenho do Bottas cai em termos de pilotagem quando ele tem uma Mercedes com problemas … a falta de combatividade dele é flagrante … a sua desmotivação nas pistas é flagrante … deveria já ter aprendido com Hamilton como deve fazer quando as coisas não estão boas pro lado dele … Hamilton deu um belo exemplo de como fazer …

    Fernando Marques

  3. Fernando Marques disse:

    J.C. Viana,

    belo texto … mas vou dar um pouco da minha visão da corrida … ela diferencia um pouco da sua em alguns pontos … vamos então …

    1) A chuva – quando ela aparece de forma digamos assim inesperada ela trás uma nova dinâmica as corridas … no caso desse fim de semana, mesmo que com o tempo nublado, todos os treinos foram realizados sob pista seca … já no domingo na hora da corrida … chovia … eu acho isso bom …
    É diferente quando todo fim de semana chove, inclusive na corrida … os carros vão para corrida mais “acertados” para andar na chuva …

    2) Talvez isso explique a largada ruim do Hamilton … faltou tração a ele … sobrou ao Verstappen … mas não achei a corrida decidida a favor do Verstappen neste momento … uma pista molhada sempre trás surpresas … a surpresa infelizmente foi Hamilton errar e sair da pista … ali a vitoria caiu no colo do holandês …

    3) A corrida do Sergio Peres … enquanto ele esteve na pista achei ele combativo … mesmo não obtendo um bom resultado … A RBR, ao contrário do que entendi o que voce disse, não errou e sim acertou na sua contratação … a dupla da RBR é a mais forte desta temporada … inclusive se comparada a dupla Hamilton/Bottas … Hamilton a meu ver está um degrau ainda acima do Verstappen em termos de pilotagem … Verstappen uns dois acima do Peres (que ainda tem muito a evoluir na equipe) e Peres pelo que estamos vendo está uns 5 ou 6 degraus acima do Bottas …

    4) Concordo com sua visão sobre o acidente entre Bottas e Russel … só que Russel saiu meio queimado com a Mercedes … um novo incidente desse pode tirar ele da Mercedes ano que vem … e assim não ficou 50/50 e sim 60/440 pro Bottas …

    5) Com duas corridas apenas disputadas, uma coisa está mais que certo … este ano teremos na pista uma boa briga pelo titulo da temporada … Verstappen tem um carro a altura para desafiar Hamilton …

    quanto a Moto GP … não consegui ver a corrida … mas comemoro e brindo a volta do Marc Marquez as corridas … ele tem dois desafios … recuperar a boa forma dele e a da Honda … vai ser uma parada muito difícil mas não duvide que ele consiga … até l[a vamos ver se as Ducatis conseguem vencer as Yamahas … esse ano parece que não dá para a Suzuki entrar nesta briga … Valentino Rossi , bem de repente pode ser a hora dele se aposentar ou de repente quem sabe nos dar uma surpresa …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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