O herói desconhecido

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Pode reparar: (quase) sempre que ocorre uma morte de grande impacto mundial, no dia anterior, no mesmo ou na data imediatamente seguinte acontece outra muito relevante que acaba sendo ofuscada pela repercussão da outra. Foi assim em 22 de Novembro de 1963, por exemplo, quando Aldous Huxley, britânico autor de Admirável Mundo Novo e 7 vezes indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, encontrou seu destino final: no mesmo dia, porém, o presidente americano John Kennedy era assassinado, um evento que mudou a história política moderna.

Outra situação parecida se deu em 2009, no dia 25 de junho: Farrah Fawcett, famosa atriz dos anos 70 e 80, indicada ao Emmy e ao Globo de Ouro (com especial destaque para o seriado As Panteras), faleceu na mesma data em que Michael Jackson veio a óbito – também conhecido como O dia em que a Internet parou, tamanha a busca simultânea por informações sobre o Rei do Pop.

Na Fórmula 1, isso também aconteceu.

Amanhã, Dia do Trabalho, se completam 30 anos da morte de Ayrton Senna, data que certamente será lembrada mundo afora, das editorias de jornais às realizações de eventos esportivos. No entanto – e eu mesmo já dediquei (e ainda vou dedicar) muitos textos a Senna, sempre buscando algum viés ou prisma diferente para analisar esse que é, de longe, o mais complexo personagem da categoria e um dos mais emblemáticos da História do Brasil -, quero hoje dedicar meu espaço no GPTotal para falar daquele que encontrou a morte no dia anterior: o austríaco Roland Ratzenberger.

Em sua excepcional crônica em três partes sobre a história dos austríacos na categoria máxima do automobilismo, meu querido Lucas Giavoni escreveu sobre três pilotos do país europeu (Niki Lauda, Gerhard Berger e Jo Gartner), além de brilhantemente costurar o roteiro com a carreira de um quarto (Helmut Marko). Lucas dedicou poucas palavras a Ratzenberger, apenas dizendo que se tratava de um piloto de endurance com o sonho de correr na F1 – sonho esse indubitavelmente motivado pela trajetória dos compatriotas.

É óbvio que Ratzenberger, no aspecto esportivo, não teve uma carreira fora de série. Pouco mais de 100 dias mais novo do que Ayrton Senna, Roland só se encontraria com o brasileiro naquele início de 1994, mundo novo para ambos. Apesar desses 10 anos de diferença, Ratzenberger também lutou, viajou e correu mundo para realizar seu projeto de competir na Fórmula 1.

Dono de poucas, mas emblemáticas vitórias na carreira – nos monopostos, ganhou uma corrida especial da F-Ford 1600, em 1986, outra na Euro Series, em 1987, e uma na F3 Britânica, em 1989. No turismo, ganhou provas no Japão no início dos anos 90, além de uma vitória na sua classe em Le Mans, 1993 -, sua grande conquista foi mesmo do ponto de vista pessoal.

O piloto brasileiro Maurizio Sala conviveu com Ratzenberger e conta um pouco dessa história de superação em entrevista a Fred Sabino: “Ele costumava ficar hospedado no chão do meu flat para economizar diárias de hotel. Pelo menos umas três vezes ele ficou lá para não ter de pagar mais hotéis antes de voltar para a Europa”.

Ao assinar com a Simtek, o contrato de Ratzenberger previa 5 GPs. Seria companheiro de David Brabham, filho do lendário tricampeão Jack Brabham e que tinha disputado a temporada de 1990 pela equipe do pai. Além de mais experiente na categoria, David era 5 anos mais novo que Roland.

Em sua estreia, em Interlagos, Ratzenberger não obtém tempo suficiente para ficar entre os 26 e largar. Brabham é o último a perfilar, com um tempo 1,521s melhor que o de seu companheiro de equipe. No Pacífico, Ratzenberger consegue alinhar dentre os classificados, em último, ficando 1,608s atrás de David, o 25º. Mas na corrida Ratzenberger consegue terminar em 11°, melhor marca da equipe até o GP da Espanha.

Chegando em Imola, Ratzenberger já mostrava uma aproximação do colega de Simtek. Antes do acidente – portanto, com ainda mais oportunidades para melhorar sua marca -, Ratzenberger assinalara 1’27”584, o 26o mais rápido novamente, mas desta vez 0,767s atrás de Brabham, e 0,333s melhor do que Paul Belmondo, piloto da Pacific que já havia disputado o campeonato de 1992.

Quando partia para nova tentativa, Ratzenberger bate na curva Villeneuve a inacreditáveis 314 km/h. De modo simbólico, a Simtek não alinha o segundo carro no GP de Mônaco, e a primeira fila do grid monegasco fica vazia, com as bandeiras do Brasil e da Áustria pintadas nos postos 1 e 2 para lembrar os dois mártires do GP de San Marino.

Ao longo da temporada, a Simtek teria os seguintes pilotos substituindo Ratzenberger: o francês Jean-Marc Gounon, o japonês Taki Inoue e o italiano Domenico Schiatarella. Desses, somente Gounon conseguiu, ocasionalmente, andar próximo de Brabham, mas em outras tantas corridas ficou uma vida atrás do australiano. Inoue e Schiatarella chegaram a tomar 3, 4 segundos do filho de Sir Jack.

Certamente, Ratzenberger faria melhor.

Poucos sabem ou lembram, mas Ratzenberger foi cremado. Em sua cerimônia de despedida, em torno de 250 presentes (ante 250 mil no cortejo de Senna), somente os austríacos Lauda, Berger e Wendlinger, além de Johnny Herbert, seu amigo, e o chefão da FIA, Max Mosley (melhor dizendo, Mack Mouse, correto, Lucas?) representando a F1.

Nas palavras do falecido dirigente, “Fiz questão de vir ao funeral de Ratzenberger porque todo mundo foi no de Ayrton. (…) Pessoalmente, senti mais a morte dele do que a de Senna, porque Roland fez tudo por si próprio, ele não tinha dinheiro e era uma pessoa genuinamente boa”.

Apesar de eu não gostar dessa história de chamar a morte de Ratzenberger de “O outro lado de Imola 1994” (numa tentativa de, também a isso, atribuírem favorecimento midiático a Ayrton Senna), é óbvio que o piloto austríaco tem uma história bonita e vitoriosa a seu modo, pois, como se diz, nosso verdadeiro objetivo na vida é sermos a melhor versão de nós mesmos e superarmos os nossos próprios limites.

No final do mês passado, exatamente no dia em que Robinho era aposentado da sociedade e a imprensa só falava nisso, meu pai teve sua aposentadoria (compulsória) consumada. Nas despedidas de suas duas escolas – ele era professor de História -, vi colegas de profissão e demais trabalhadores das instituições lhe renderem homenagens e o parabenizarem por meio século dedicado à sala de aula. Mais do que isso, testemunhei centenas de crianças de 9, 10, 12 anos o abraçando, tirando selfies e gritando seu nome em uníssono.

Meu pai foi um lutador ainda mais anônimo do que Ratzenberger. E tão vencedor quanto Senna.

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

3 Comments

  1. Leandro disse:

    Não me lembro agora, se aqui, no Grande Premio ou outro site, tem uma entrevista com o pai do Ratzenberger, muito boa.

    Eu tinha 9 anos na época, acabava de perder meu vô no fim de março de 94, não acompanhava Formula 1, assistia vez ou outra quando a TV estava ligada já, não sabia quando tinha corrida, mas sabia nomes de alguns pilotos e equipes.

    Não lembro de nada na época sobre a morte do Ratzenberger, lembro que quando Senna bateu, eu não liguei muito, já tinha visto algumas batidas piores em que os pilotos saíram bem, quando o resgate o levou, fui fazer algo fora de casa, não lembro se era brincar, só no Fantástico soube o que houve.

  2. Cleide disse:

    Excelentes textos.
    Assuntos sobre toda a história de grandes nomes no mundo .
    Nosso grande professor faz parte da história.
    Parabéns.

  3. Fernando Marques disse:

    Marcel,

    homenagens mais que justas e merecidas … ainda bem que nos restam as boas lembranças …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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