O tamanho da batalha

Quanto mais lento, melhor
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Entrevista com Luiz Pereira Bueno
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Uma luta por posição que se transforma em batalha, em duelo. É quando vem aquele estalo. Nossa mente imediatamente resgata a premissa fundamental do esporte a motor: a busca pelos limites dentro de uma competição entre carros e pilotos. É o compromisso de tirar o máximo do equipamento e buscar a vitória, a glória, a consagração.

Automobilismo é isso, gente. São muitas as tantas vezes que somos levados a esquecer disso. É inevitável desanimar diante de tantas corridas burocráticas em tudo quanto é categoria. Não passam de formalizações beges do conjunto destacada-e-escancaradamente mais forte de um grid em vencedor. Mas vira e mexe, e o automobilismo volta a preencher nosso coração com alguma corrida maravilhosa.

É muito, muito prazerosa a sensação de testemunhar pilotos entregando tudo de si, colocando talento a serviço da excelência, justificando seus salários, assumindo riscos muito além das condições normais e andando no fio da navalha, flertando constantemente com o descontrole. Afinal, onde há risco, há recompensa. E a gente ali, vidrado, assistindo com o coração na boca. É bom demais.

Isso tudo ganha ainda mais intensidade quando falamos de Indianápolis. É tudo aquilo e mais um pouco: é a vitória, é a garrafa de leite, é a coroa de louros, é o rosto imortalizado no troféu, é o nome inscrito no panteão de triunfantes naquele que é autointitulado o grande espetáculo em corridas.

Conseguimos ver isso em cores fortes em uma excelente edição 2024 das 500 Milhas, a melhor em muito tempo.

Ora, a intensidade da vitória é diretamente proporcional ao tamanho da batalha. Vitória fácil, as pessoas esquecem. Vitórias suadas, lutadas, brigadas, aguerridas, ficam para sempre.

E que luta Josef Newgarden e Pato O’Ward protagonizaram no Indianapolis Motor Speedway. Que luta.

O começo foi bastante atribulado, cheio de acidentes e bandeiras amarelas, que proporcionaram um clima de incerteza, já que apareceram muitas táticas alternativas de pit stop. Tudo isso se encaminhou para um final de aceleração total, em que praticamente todas essas táticas convergiram e uma só rodada final de pit stop em plena bandeira verde para todos.

Esse andamento fez a corrida ser atraente como um todo. Muito boa do começo ao fim.

Nas últimas 30 voltas, desenhou-se naquele xadrez frenético os quatro pilotos em melhor posição e condição de brigar pela vitória. Alexander Rossi e Pato O’Ward com suas McLarens se ajudando mutuamente no vácuo; a Penske de Josef Newgarden; e Scott Dixon, que só se encontrava naquela posição por juntar sua competência de sempre às ótimas táticas de pits da Ganassi.

Dixon era o único conjunto Honda do grupo, em um ano dominado pelos propulsores Chevrolet. Logo não teria fôlego para brigar pela ponta. E em um determinado momento, O’Ward cortou o cordão com Rossi e partiu na luta contra Newgarden, com o resultado que todos fomos felizes testemunhas.

Não tenho absolutamente nada, nada, nada para dizer contra O’Ward. Há quem o acuse de ter sido precoce em seu movimento final, ao atacar na reta principal e não na reta oposta; eu simplesmente não consigo enxergar dessa maneira. O próprio Tony Kanaan, que hoje tem um cargo de coordenação dentro da McLaren em que se relaciona diretamente com os pilotos, disse que o carro de Pato estava melhor na reta principal do que na reta oposta. O movimento de ultrapassagem para tomar a ponta, portanto, só poderia acontecer ali.

O choro de O’Ward, ao finalmente estacionar o carro, causou a devida comoção na equipe McLaren, em quem estava no Indianapolis Motor Speedway, nos milhões que assistiam pela TV em tantos países, e em tantas e tantas manifestações de força e carinho nas redes sociais.

Ao atacar no começo da última volta, Pato julgou que Newgarden perderia o momentum e não teria como revidar na reta oposta, o que realmente estava acontecendo nas edições anteriores com esse chassi IR18/DW12 com Aeroscreen.

Pato fez o movimento certo e, Deus do Céu, o que falar do movimento do Newgarden? Sua ultrapassagem por fora foi algo de espetacular, digna de ser comparada ao movimento que Rick Mears fez contra Michael Andretti para tomar a ponta e vencer a edição de 1991. Como é a terceira vez que cito esse episódio (amo muito tudo isso), você pode saber mais lendo aqui e aqui.

Não foi Pato quem fez um movimento precoce; foi Newgarden quem revidou, com uma gana e combatividade que só se vê mesmo em Indianápolis.

Newgarden fez tudo certo para vencer – incluindo aceitar riscos incríveis; em uma das onboards de relargada, ele faz uma sucessão de ultrapassagens insanas. E essa segunda vitória seguida (algo que não acontecia desde Helio Castroneves 2001/2002) foi ainda mais intensa e valorizada, aumentando um currículo invejável para o americano.

Ele terá ano que vem a chance de fazer algo até hoje inédito no Indianapolis Motor Speedway: ganhar três vezes em seguida, coisa que o próprio Helinho passou perto de conseguir. Mas o homem que realmente chegou mais perto de fazê-lo foi o espetacular Bill Vukovich, vencedor da corrida em 1953 e 1954, e de quem eu ainda devo um texto.

Por falar em Castroneves, ele não teve carro para maiores pretensões. Ainda assim, conseguiu mostrar alguns momentos de competitividade, andando no Top-10. Seu 20º lugar só aconteceu por causa de um último pit stop desastrado, do qual assumiu toda a culpa.

É muito bom vê-lo no grid, Hélio certamente agrega muito com sua presença e suas quatro conquistas, a tentar conquistar a quinta. E vai ser muito bom vê-lo de novo ano que vem, em mais uma tentativa.

Quanto a Pietro Fittipaldi, o fato de ter sido envolvido no acidente da largada, vítima de um atrapalhado Tom Blonqvist, só aconteceu por sua posição complicada de largada, justamente porque a Rahal jamais teve um bom acerto – ainda que o bom desempenho de Takuma Sato nos treinos continue a ser um mistério.

Pietro está tento uma temporada difícil no geral; a nós só resta torcer por dias melhores.

Kyle Larson também merece o devido destaque. Provavelmente o melhor piloto da Nascar do momento, ele agarrou a oportunidade de disputar as 500 Milhas de Indianápolis este ano pela parceria da McLaren com seu time de Nascar, a poderosa Hendrick, para fazer o famoso Double: corre Indy e então corre pegar um jato executivo pra chegar a tempo de disputar a Charlotte 600 da Nascar.

Com o adiamento da largada causado pela chuva (previsto por um invejável sistema meteorológico, muito preciso e muito antecipado), se manteve no cockpit, optou por correr em Indianápolis, mostrando seu respeito à corrida. Larson acabou não correndo em Charlotte, já que por lá a chuva também deu as caras, fazendo a corrida de 600 milhas ser encerrada pouco depois de sua metade.

Larson mostrou rápida adaptação aos carros de Indy, mostrou velocidade nos treinos, um bom ritmo de prova e só escorregou mesmo em um dos pits, quando foi punido por excesso de velocidade na entrada.

Esperamos ver Larson mais vezes por lá. É outro nome que agrega demais à corrida.

Simon Pagenaud, afastado das pistas há bastante tempo por lesão sofrida em Mid-Ohio, teve um retorno especial às pistas em Indianapolis.

O francês foi escalado para pilotar em exibição o G Force-Toyota Penske com o qual seu mentor Gil de Ferran venceu a Indy 500 de 2003. Pagenaud inclusive fez um capacete especial para a ocasião, fundindo a pintura usada na vitória de 2019 com o clássico desenho branco com listras de seu amigo e “Yoda”.

Pagenaud dividiu seus sentimentos sobre Gil com o veterano jornalista Marshall Pruett, que mesmo com câncer e fazendo quimioterapia, foi para Indianapolis em mais uma cobertura da corrida. E Pruett foi um dos que mais sentiu a perda de Gil de FErran, os dois eram muito amigos.

É… você partiu cedo demais, Gil.

Toda edição das 500 Milhas tem o Pit Stop Challenge, animada disputa mata-mata pra ver qual time tem a parada de box mais rápida.

A final foi entre… Newgarden e O’Ward. E deu Newgarden aqui também.

Tá vindo Le Mans. Quem vai ser doido de ficar acordado todas as 24 horas junto comigo?

 

Abração!

Lucas Giavoni

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1, da Indy 500 e de Le Mans.

6 Comments

  1. Jorge Torp disse:

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  3. Rubergil Jr disse:

    Grande Lucas, não podia deixar de comentar sua coluna, ainda que com algum atraso.

    Foi sim uma 500 milhas muito interessante. Uma corrida bem disputada, e com algumas variáveis de estratégiaa interessantea. Especialmente o cidadão Scott Dixon, além de guiar muito, ele e sua equipe são verdadeiros case de estudo de estratégias. Agora em Detroit também barbarizaram. Dixon é outro injustiçado em Indianapolis, merecia muito mais que uma singela vitoria em 2008.

    Na parte final da corrida, cheguei a me perguntar se alguém ali iria repetir o feito de Alexander Rossi em 2016 de fazer um stint ultra-longo e fazer uma parada a menos, mas não teve jeito.

    Belíssima disputa de Newgarden e Pato, dois excepcionais talentos da Indy. Confesso que na última volta temi um final “a lá 1989” (ou 2012), mas foi uma disputa limpa e linda. E sim, também lembrei na hora daquele passão do Mears no Michael em 1991.

    Alías, Lucas, queria registar que há exatos 30 anos tivemos a historica edição em que os Penske com motor Mercedes 500I humilharam o resto do grid. Ainda precisamos contar esta história com detalhes aqui no GPTotal – e sei que você a conhece de cor e salteado. Até pensei em escrever um texto sobre essa corrida, e ainda o farei. Mas antes, quero ler o livrro “Beast” do Jade Gurss.

    Pra fechar, queria destacar contigo como o contexto esportivo mudou nestes ultimos 30 anos. Antes se buscava essa vantagem extra no motores, havia uma verdadeira corrida armamentista de usinas, daí surgiram os Ilmor-Chevrolet, os fantásticos Ford-Cosworth XB (o motor do recorde de Luyendyk) e o próprio Ilmor-Mercedes 500I. Também os chassis tinham uma disputa interessante: Lola, March, Penske, Reynard. Claro que essa briga gerava uma disparidade de desempenho muito maior entre os competidores, mas ao mesmo tempo promovia quebras e abandonos por levar tudo ao limite do desempenho.

    Desde a IRL, para conter os custos, se uniformizaram motores e chassis. Então hoje,a diferença entre o melhor e pior do grid é muito, muito menor do que antes, e com muito menos quebras. Ou seja, ganhar corridas escalando o pelotão já não é mais tão possível como antes. Por exemplo, se faltando 20 voltas um piloto está abaixo do 4º lugar, muito dificilmente ele terá condições de ir para a ponta, o ritmo se eleva, o gasto de combustivel é maior, e não há tanta diferença de desempenho. Outro fato: há 30 anos, apenas os 2 primeiros terminavam na mesma volta (e isso era a norma nos anos 80 e 90), e hoje, praticamente todos terminam na mesma volta, já alguns anos.

    Abraços!

  4. MarcioD disse:

    Lucas,

    Corrida espetacular! Indy 500 é imperdível, assisto há mais de 30 anos. Lamento muito a categoria ter deixado de competir nos outros Superspeedways. Provavelmente é por razões de segurança.

    Essa corrida foi tão emocionante que até minha esposa, que nunca acompanhou corrida de carro de qualquer categoria, veio acompanhar as trinta ultimas voltas, torcendo pelo Pato.

    Agora convenhamos, seria uma injustiça o Newgarden perder essa corrida. Pela posição de largada, pelo n° de vezes que esteve no pelotão da frente e pelas ultrapassagens, que entre outras destaco a que fez por fora, uma dupla na volta 155 na curva, outra na volta 174 na reta, em cima do Pato e Rossi e a ultima em cima do Pato, por fora na curva, na volta final. Observe que nessa ultima Newgarden ultrapassou e começou a abrir, demostrando sua superioridade.

    Eu acredito que a única chance do Pato seria uma ultrapassagem surpresa nas ultimas curvas da ultima volta, seguido de um bloqueio bem feito na reta de chegada. Caso contrário, pelo desempenho apresentado pelo “Zé Jardim Novo”, em qualquer outra alternativa ele seria reultrapassado.

    Na corrida do ano passado Newgarden ultrapassou Ericsson no inicio da volta final e teve que ziguezaguear para não ser ultrapassado. Pato e sua equipe deveriam ter considerado isso.

    Então me lembrei de uma situação que ocorreu numa corrida a pé na época do ginásio, na qual eu estava competindo pela liderança com um cara que tinha a melhor resistência da turma. Eu tinha 14 anos na época, era um ótimo velocista e bom de resistência. Na 2ª volta do circuito resolvi ataca-lo. Antes da penúltima curva eu o ultrapassei e ele forçando o ritmo me ultrapassou e diminuiu a velocidade. Na terça parte do retão consegui ultrapassa-lo novamente e ele repetiu a manobra. Eu simplesmente não conseguia ficar na frente do cara.

    Pensei então no seguinte estratagema: eu vou me manter a uma distancia maior desse cara, em linha com ele, de forma que não perceba a minha presença e relaxe. Após a ultima curva eu começo a me aproximar, e depois, no meio da reta curta final eu dou tudo, o ultrapasso e ele não tem tempo de reagir. Executei o plano e consegui ultrapassa-lo faltando uns 5 metros da linha de chegada e venci.

    Eu acredito que faltou esse tipo de raciocínio estratégico para o Pato e sua equipe, faltou avaliar a força de Newgarden. Se não desse certo pelo menos ele não teria chorado ao final da corrida, o que seria um bom negócio. Era tudo ou nada.

    Abraços

  5. Leandro disse:

    Que corrida! Perdi muitas voltas, mas consegui acompanhar a partir da 149ª 😛

    Eu estava torcendo por alguma McLaren, acho muito bacana ver Zack Brown se desdobrando entre F1, Indy e tudo mais rsrs

    A entrevista do Hélio no fim da corrida me fez abrir um largo sorriso, que seja uma prova melhor pra ele.

    Já há alguns anos a Indy 500 é sagrada pra mim, sempre que posso estar em casa, gosto de acompanhar, assim como as 24 Horas de Le Mans.

    Notei que F1 pra mim perdeu muito desta empolgação, fico animado só com o início de temporada, não pela corrida inicial em si, mas isso e pelo costume de acompanhar…

    Hoje F1 não está no meu pódio do automobilismo, mas é a que mais acompanho e assisto…

  6. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    Indy 500 em 2024 foi sensacional.
    Bem ao estilo que todos gostam de ver.
    Emoção do início ao fim.

    Excelente a sua coluna

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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