Regulamentos 3

Colunas Inesquecíveis: O som Slade
06/05/2026

A primeira parte desta coluna você lê aqui https://gptotal.com.br/regulamentos-1/ e a segunda aqui: https://gptotal.com.br/regulamentos-2/

O abandono gradual do laxismo pelas autoridades esportivas no regulamento técnico da F1 é um processo que coincide ou deriva de várias coisas.

A mais importante delas, no meu entendimento: a categoria enriqueceu, enriqueceu estupidamente e muito rápido. O que era um ou dois milhões de dólares por ano para uma equipe no começo dos anos 70, virou uma dezena de milhão e depois algumas centenas de milhões num intervalo de menos de três décadas.

Um rápido exemplo do enriquecimento da F1: o Lotus 78 foi concebido por Colin Chapman e mais quatro engenheiros em uma antiga casa de campo, no interior da Inglaterra (foto acima, mostrando um Lotus 79, herdeiro do modelo 78). Bem possível que a equipe toda não tivesse mais do que trinta funcionários nesta altura. Vinte e oito anos depois, a McLaren inaugura uma sede cinematográfica em Woking (foto que abre esta coluna), onde trabalham mais de mil pessoas, a maioria delas muito provavelmente com grau de engenharia. Enriquecimento é isso aí, bicho.

E sabe como é: “quem tem capital, em qualquer magnitude, quer mais capital. Não devido a alguma mania pessoal, mas porque esse é o único dogma incontornável do capitalismo: acumular capital não é uma escolha, mas uma necessidade imanente daqueles designados como capitalistas”, como escreveu recentemente, na Folha, o professor Zander Navarro.

Como disse Falcão, dinheiro não é tudo, mas é 100%!

Para o bem ou para o mal, a F1 tornou-se um empreendimento capitalista até a medula. Não que não fosse antes, mas a grana era muito menor e as pessoas tinham um pouco mais de vergonha. Donos de equipes, pilotos, projetistas, todo um oceano de prestadores de serviços e mais organizadores de GPs, autoridades, nosso velho conhecido Bernie Ecclestone e, depois dele, o povo da Liberty Media, passaram a olhar para a categoria como um negócio regido pela máxima capitalista de receitas e lucros crescentes. Esporte? Ah, sim, existe por umas duas horas em algumas tardes de domingo, entre a largada e a chegada dos GPs, como observou uma vez o falecido Frank Williams – acho que foi ele, não tenho certeza.

Tudo dobrou-se a este imperativo, que certamente não é categórico. O regulamento técnico não poderia ficar de fora.

É verdade que se pode maximizar as receitas e lucros de qualquer categoria esportiva – e só Deus quanto gente o faz –, mas, mesmo assim, não invadir a essência do esporte. Pense no futebol, por exemplo.

Ele também passou pelo mesmo processo de enriquecimento estúpido nas últimas décadas (que, no final das contas, depende, como no caso da F1, da difusão da categoria ao vivo, tornada possível pelos satélites de comunicação e, nas últimas décadas, pela digitalização dos meios de comunicação), mas não se mexeu nas regras do jogo. A evolução do futebol dentro do campo se deu pela adoção de métodos melhores de preparação física, treinamento, captação e desenvolvimento de jovens etc., mas ninguém pensou em acabar com a regra do impedimento ou mexer na duração das partidas (se bem que o novo procedimento de acréscimos ainda vai matar muito torcedor do coração…). Dinheiro a dar com pau ronda o futebol, mas fdp nenhum foi lá dizer “ah… 90 minutos é muito” ou “ninguém entende regra de impedimento”.

Não foi, porém, este o caso da F1. Pode-se dizer em defesa das autoridades que há relevantes questões de segurança envolvidas, inclusive a do público nos autódromos. De fato, muitas das mudanças de regulamento a partir dos anos 80 foram em busca de maior proteção aos envolvidos, começando pelos pilotos.

Pelo que pesquisei (sujeito a correções, pelas quais já agradeço), o primeiro crash test foi exigido em 85, sendo continuamente aprimorado desde então, assim como a imposição de medidas mínimas para dimensionamento do cockpit. O trabalho foi levado a sério e funcionou; as mortes caíram radicalmente na categoria. O médico Sid Watkins foi, merecidamente, entronizado como santo padroeiro desta nobilíssima causa.

Mas sabemos todos que não foi só para aprimorar a segurança que os regulamentos técnicos passaram a ser alterados e detalhados no nível da minúcia em intervalos de tempo cada vez mais curtos. Eles foram essenciais, no meu entendimento, para os capitalistas combaterem aquilo que consideravam uma ameaça às vendas e lucros crescentes: as hegemonias na categoria.

Hegemonias, sabemos bem, sempre existiram na F1, de pilotos, equipes e motores, às vezes tudo junto.

Nunca é demais lembrar que a Alfa Romeo venceu os nove primeiros GPs da categoria, entre 50 e 51. Nos anos seguintes, tivemos as hegemonias Ascari/Ferrari (a equipe ganhou todos os GPs nas temporadas 52 e 53, menos um), Mercedes, Fangio, Brabham/Cooper, Clark/Lotus, motor Ford Cosworth etc.

Estas hegemonias têm em comum o fato de serem curtas, muitas vezes por uma única temporada – Clark/Lotus 65, por exemplo. Fangio, que emendou quatro títulos seguidos, o fez por três equipes diferentes.

Depois dos títulos de Jack Brabham e da Cooper em 59 e 60, só teremos um campeão por dois anos seguidos em 86, quando o laxismo do regulamento já era uma lembrança.

Nos anos seguintes, até 99, tivemos três novos bicampeões em temporadas seguidas – Ayrton Senna, Michael Schumacher e Mika Hakkinen. Depois disso, o dilúvio: cinco títulos seguidos de Schumacher, dois de Fernando Alonso, quatro de Sebastian Vettel, seis de Lewis Hamilton em sete anos e quatro de Max Verstappen. Em 25 temporadas, 2000 a 2024, só três valentes – Kimi Raikkonen, Jenson Button e Nico Rosberg – conseguiram furar esta muralha de fibra de carbono.

É verdade que falamos de quatro pilotos excepcionais, mas por trás das respectivas hegemonias houve também uma montanha de dinheiro da própria equipe e de seus fornecedores, especialmente visível nos investimentos da Bridgestone na Ferrari dos anos Schumacher.

A melhor ideia que os capitalistas e suas autoridades de estimação tiveram pra combater hegemonias foi mexer no regulamento. E assim entramos numa fase de mudanças mais frequentes e, em muitos casos, inúteis quando não completamente descabeladas, como vemos no momento.

Sigo no tema em nosso próximo encontro, no começo de junho.

Até lá, bom final de semana a todos

Edu

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

2 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Edu,

    Coluna simplesmente perfeita.
    O dia que o impedimento acabar o futebol volta aos tempos bons. Derruba qualquer esquema tático retroativo. O bom era ver centro avante banheirista fazendo gol.
    O dia quem sabe, a fórmula 1 em toda a as suas plenitude, voltar ao que era, a mesma coisa.

    Tô 1000 % com vc …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Carlos disse:

    Excelente ponto, Edu. Como de hábito.

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