Gerência e liderança – final

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Ao meu entender, se haviam perdido a confiança em Bottas, este devia ter sido substituído já para a segunda metade do campeonato, pois não tem sentido manter na equipe um piloto que não se sente valorizado e cuja moral, certamente, pode estar abalada por essa falta de confiança, muito menos tal e como estava transcorrendo a temporada. Em minha opinião, isso ficou fora de duvida durante o GP da Hungria, quando consciente de estar já descartado da equipe, Bottas teve uma péssima largada, com posterior acidente.

Nada disso passou despercebido e, quando perguntado ao respeito do acidente, Wolff insistia em que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, ainda que a sensação generalizada fosse de que sim estavam vinculadas. Contudo não deixa de chamar a atenção como na Red Bull fizeram justo o contrário, quando naquela mesma altura do campeonato Sergio Pérez foi confirmado que seguiria na equipe em 2022. Mesmo que se possa aduzir que, como profissional, Bottas devia continuar rendendo ao máximo que pudesse, não devemos desprezar os fatores intangíveis e de foro interno e pessoal que tanto nos condicionam, como sentirmo-nos valorizados, respeitados e apreciados, pois tudo não se reduz ao cumprimento de um simples contrato. Podemos contratar alguém pelo que sabe fazer, mas a paixão e o entusiasmo com a que se faz esse trabalho não se pode contratar, esta só pode e deve ser alentada e encorajada. Só assim se consegue o máximo rendimento. Como o próprio Bottas disse recentemente, agora que está na equipe Alfa Romeo: “Eu não sou apenas um piloto, mas um importante membro da equipe! “. Destas palavras se adivinha que o finlandês não tinha essa mesma sensação na Mercedes.

Se me permitem um parêntese, aqui poderíamos até recordar o caso de Clay Regazzoni na Ferrari em 1976, quando naquela temporada o Suíço já sabia que não contavam com ele para 1977. Assim chegaríamos ao ultimo GP do ano em Mount Fuji, no Japão, onde Niki Lauda, da Ferrari, e James Hunt, da McLaren, dirimiriam o título, ainda que Lauda desfrutasse de uma vantagem de três pontos. Então e devido às péssimas condições meteorológicas presentes, Danielle Audetto, o diretor da Ferrari, tratava de conseguir a suspensão da prova, sabendo que Lauda não estava disposto a correr naquelas condições. Audetto pensava que se pudesse convencer os pilotos estrela da época, isso seria suficiente para que os outros os seguissem e contava com o apoio de Clay, então um dos mais queridos e respeitados do grid. No entanto, durante a reunião com os pilotos, e para surpresa de Audetto, Regazzoni foi um dos que mais em contra esteve da suspensão. Isso não lhe devia de haver surpreendido, pois como podia esperar que alguém que ele havia descartado o apoiasse? O resultado todos sabemos qual foi: a corrida se disputou e Hunt se consagraria campeão… por um ponto!

Outro momento crucial da temporada aconteceu durante o GP do México, onde Hamilton e Bottas partiam desde a primeira linha. O plano acordado era segurar Verstappen atrás para que Hamilton pudesse tomar a ponta da prova e, se possível, escapar do holandês. No entanto, o plano foi por água abaixo quando Bottas deixou a “porta aberta” a Verstappen e este, sem duvidar, aproveitou a ocasião para superar os dois e assumir a liderança da prova até o fim. Novamente Wolff, criticaria Valttery publicamente, expondo se maneira gritante sua falta de delicadeza e respeito pelo seu piloto ao dizer que: “Isso não devia ter acontecido. Tínhamos dois carros à frente e pareceu que oferecíamos a imensidão do mar para o Max nos superar pelo exterior. Alem do mais, a derrapada posterior e a perda total de pontos, quando poderia ter sido o terceiro ou quarto lugar é, no mínimo, irritante. Foi um dia para esquecer!“ . Uma vez mais Wolff esquecia que um líder deve assumir responsabilidades e proteger seus subordinados e, apesar de sua lógica frustração pelo ocorrido, isso não desculpa sua incontinência verbal em publico.

Houve inclusive comentários no sentido de que a falta de combatividade de Bottas tinha sido algo intencional, mas creio que cogitar sobre algo assim é até injusto. Liderar consiste em motivar as pessoas e nisto me parece que Wolff não esteve à altura das circunstâncias. Basta ver o extraordinário rendimento de Pérez na Turquia ou em Abu Dhabi, onde o mexicano segurou Hamilton durante varias voltas com uma determinação e ímpeto próprios de alguém que se sente valorizado em sua equipe, cumprindo perfeitamente a tarefa que se lhe havia encomendado. Sentir-se valorizado era justo o que lhe faltava a Valttery na Mercedes nesse fim de temporada. Deveras alguém acredita que Bottas teria o estado de animo apropriado para poder fazer o mesmo que Pérez fez?

Na atual temporada a Mercedes esta sofrendo para se adaptar ao novo regulamento vigente, e parece longe de poder lutar por vitórias, e muito menos por títulos. Alem do trabalho necessário que devem desenvolver os engenheiros para tornar o carro capaz de poder competir com Red Bull e Ferrari, a Wolff lhe espera a dura tarefa de conciliar os interesses da equipe com as de seus pilotos. Os acontecimentos do fim da temporada passada deixaram Hamilton, com razão, muito indignado e até se temia que decidisse abandonar a competição. No fim, creio que só a sua vontade de revanche e de “recuperar” o titulo que lhe foi roubado, o impulsionaram a afrontar esta temporada. Contudo, pelo visto nestas primeiras corridas do ano, parece que nada disso será possível. Por outra parte, tem ao seu lado a um ambicioso George Russell, que já o supera na classificação do campeonato, e de quem só se pode esperar mais. Assim, enquanto que para Hamilton, acostumado a dispor do melhor carro durante vários anos, esta pode ser uma situação bastante constrangedora e pouco motivadora, para Russell é justo o contrário, pois depois de três anos pilotando um dos piores carros e agora estar na Mercedes, ainda que o F1 W13 não seja o melhor, para ele representa um grande salto adiante em sua carreira.

Deste modo, pode se estar formando uma “tormenta perfeita” na equipe e depende de Wolff saber administrar tudo isso e evitar que o projeto acabe “descarrilando”. A Hamilton, sua frustração e seu ego exacerbado por suas continuas vitórias destes últimos anos, podem lhe trair em qualquer momento se acaba por sentir-se relegado, enquanto que a Russell, tratar de conter seu lógico ímpeto juvenil, limitando sua progressão e impondo-lhe o papel de segundo piloto, pode chegar a estragar uma prometedora carreira, assim como truncar que venha a ser o natural sucessor de Hamilton como piloto principal da equipe. Lewis já esta se queixando do carro e dizendo que é o pior que haja pilotado desde 2009, portanto parece que a Wolff já se lhe esta “acumulando o trabalho “

Wolff tem uma árdua tarefa pela frente que requer não só de toda a sua habilidade para a gestão, mas principalmente demanda uma capacidade de liderança não vista nele anteriormente. De Wolff depende que Hamilton conserve a vontade de vencer que sempre lhe caracterizou, enquanto se mantém a de Russell por aspirar ao mesmo, mas sempre imersos num ambiente cordial e de respeito dentro da equipe. Porem, o próprio Wolff deve ser capaz de se erigir como uma referencia para todos, pois essa é a única maneira de ser visto como um líder e de exercer alguma influencia sobre os outros, inspirando confiança. Assim, uma forma de conseguir isso, por exemplo, seria a de furtar-se de criticar a sua gente em público. Como também disse Welch: “No fim, o único que temos é nossa integridade!“.

Esta talvez seja a mais desafiadora tarefa de Wolff, visto seu comportamento anterior. Em 2016 a superioridade da Mercedes compensou as desavenças internas e a sua falta de liderança, mas nesta temporada essa superioridade já não lhes assiste, e é nos momentos de adversidade quando mais se manifestam as carências e vem à luz o pior de cada um, mas também quando o melhor é mais necessário. Assim, esperemos que ele haja aprendido a lição e seja capaz de ver a diferença entre gerencia e liderança.

Um abraço e até a próxima.

 

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

3 Comments

  1. Manuel Blanco disse:

    Obrigado Eduardo!

    Bom, é impossível saber o que outro pensa, mas não creio que nenhum piloto aceite logo de cara ser escudeiro de ninguém.
    Recordemos que Bottas chegou na Mercedes em 2017 para ocupar o lugar de Rosberg, que havia batido a Hamilton o ano anterior, portanto derrotar o inglês não se podia descartar… “a priori”.
    Recordemos também que Bottas, já na terceira corrida, conseguiu superar Hamilton na luta pela pole no GP de Bahrain, após as duas poles anteriores de Lewis, e viria a vencer na corrida seguinte. Assim seu começo foi muito promissor, mas a retirada na Espanha acabou com sua progressão. A partir desse momento, Bottas nunca esteve em condições de lutar em igualdade com Hamilton, que disputava o titulo com Vettel.
    Segundo o próprio Bottas disse, foi em 2018 quando assumiu o papel de segundo piloto que, segundo suas próprias palavras: “Não foi bom mentalmente, mas com o passar do tempo, aceita-se a situação”.
    Creio que devemos levar em consideração que, quando a um competidor se lhe pede que contenha seu instinto competitivo, isso acaba desestimulando sua progressão. Por isso dizia eu na coluna que Wolf deve ter cuidado com não fazer o mesmo com Russell.

    • Fernando Marques disse:

      Manuel,

      até entendo esse lado competitivo que todo piloto tem, mas ao aceitar ir para a Mercedes certamente Bottas sabia que teria um carro muito melhor que tinha (aliás o melhor carro da Formula 1) e por consequencias melhores resultados e vitorias na carreira. Foi um bom negócio pra ele, assim como foi para Barrichello quando foi para Ferrari. Mas penso que na maioria das vezes faltou competencia ao Bottas para ser “melhor” do que ele mesmo pensava ser. E me baseio nestas corridas dele pela Alfa Romeu. Não vejo ele defirente do que era na Mercedes.

      Fernando Marques

  2. Fernando Marques disse:

    Manuel,

    show de coluna.
    Mas te faço umas perguntas.

    1) O Valtery Bottas quando foi contratado pela Mercedes será que não sabia que seu papel seria de escudeiro do Hamilton?
    2) Pelo que ele mostrou na Williamas, será que Bottas não foi supervalorizado? Até por que pelo que vi dele até agora na Alfa Romeu, seu estilo de pilotagem continua o mesmo, ou seja pouco combativo e parecendo desestimulado,apesar dos bons resultados que vem conseguindo. Ultrapassar o Bottas continua sendo muito fácil como sempre foi na Mercedes.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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