O Conto do Vigário 1

Virando para a direita
20/08/2020
Estudo aponta
27/08/2020

O Conto do Vigário é um velho tipo de engano ou fraude mediante o qual o trapaceiro consegue convencer sua vitima de estar fazendo uma boa ação ou um bom negócio, quando o único que realmente se beneficia do assunto é o próprio vigarista.

Ainda que o Conto do Vigário se apresenta nas mais diversas formas e sob os subterfúgios mais engenhosos possíveis, sua essência tem sido invariavelmente sempre a mesma ao logo dos anos: aproveitar a confiança, inocência, desesperação, cobiça etc. da vítima e conseguir que o incauto otário caia na rede, mediante o grande poder de convencimento do vigarista ao contar uma história que resulte plausível e atraente.

A independência da Nigéria em 1960, cujo território se definiria em base à anterior administração colonial britânica e não considerando os antigos reinos locais e suas diferentes etnias, manteve o país em constante tensão até que esta se tornaria insuportável em 1966, desencadeando um golpe de estado e posterior contragolpe, só custo de milhares de mortos. Assim, em 1967, a parte sul oriental do país de maioria étnica Igbo (a que havia tentado o golpe), proclama a independência sob o nome de República de Biafra, iniciando uma guerra civil que se prolongaria até 1970.

O rei da etnia Ebira Abdul Rahman Ado Ibrahim –, perante a difícil e incerta situação dos acontecimentos, envia seu jovem filho, o príncipe Malik, a estudar num requintado colégio do Reino Unido, onde o menino ficaria até se mudar aos Estados Unidos, onde terminaria seus estudos universitários na Califórnia. O dinheiro não era problema, pois seu pai foi o primeiro que se dedicou à exploração das enormes jazidas de petróleo do país. Com os estudos terminados, Malik iria se ocupando dos diferentes negócios da família, que já se haviam diversificado para além do petróleo e abrangiam, entre outros, negócios imobiliários, pesqueiros e de telecomunicações,

Enquanto a guerra seguia em andamento, na longínqua Escócia, um jovem entusiasta do automobilismo, se aventurava na competição, chegando a proclamar-se campeão escocês da Fórmula Ford 1.600 em 1969. Quando a guerra terminava no começo de 1970, nosso jovem piloto estava disputando no Brasil o BUA Trophy Ford 1.600, obtendo como melhor resultado um 4º lugar em Curitiba, competindo contra gente como os irmãos Fittipaldi, Luiz Pereira Bueno, Ian Ashley, Ray Allen ou Tom Belso. Porém, onde ele mais destacava era com os Touring Car e, em 1974, venceria o BTCC (British Touring Car Championship) com Ford. Bem dotado para o gerenciamento, essa vitória o anima a fundar sua própria equipe, a TWR (Tom Walkinshaw Racing). Assim, além de piloto, também se ocupava da administração do negócio.

Em 1976 viria sua primeira grande conquista, quando venceu as 6 horas de Silverstone junto a John Fitzpatrick, com um BMW CSL que a TWR havia preparado. A TWR também prepararia os carros do popular campeonato BMW County Challenge de 1979 e 1980, onde chegaram a participar pilotos como Martin Brundle, Tiff Needel e Nigel Mansell. Nas temporadas de 1980 e 1981, a TWR venceria o BTCC com Mazda. Também em 1981, Walkinshaw, como piloto junto a Pierre Dieudonné, venceria as 24 horas de Spa com um Mazda RX-7. O sucesso da TWR também chegaria à Austrália, onde Walkinshaw até estabeleceu uma filial. Como diria Win Percy, um de seus pilotos e amigo: “ele era um tipo duro, com muita determinação, mas era um sujeito com bom coração!”

Nesses anos de sucesso e crescimento da TWR, uma nova equipe de Fórmula 1 entrava em cena, fazendo sua aparição no campeonato de 1978. Desavenças com Don Nichols propiciariam a excisão da equipe Shadow, quando seu patrocinador Franco Ambrosio e quatro de seus principais membros decidem formar sua própria escuderia, que adotaria seu nome em base às iniciais dos nomes de seus fundadores – Arrows: Ambrosio, Jacquie Oliver, Alan Rees, Dave Wass e Tony Southgate. Nem Walkinshaw nem Malik sequer imaginavam então que a Arrows seria seu ponto de encontro cerca de 20 anos mais tarde, numa dessas curiosas e estranhas reviravoltas com as que a vida nos surpreende.

Entrementes, a TWR de Walkinshaw continua sua carreira de sucessos e já trabalhava com outras marcas, como Audi e Range Rover. Porém, em 1982 a TWR faria do Jaguar XJ-S um duro contendente no ETCC (European Touring Car Championship), terminando em terceiro lugar no campeonato, mesmo sem contar com apoio oficial da marca, algo que se produziria já para 1983, pois a Jaguar ficou muito satisfeita com o trabalho da TWR em seus carros. Nessa mesma temporada de 1983, Walkinshaw seria o vice- campeão, para se proclamar campeão em 1984. Em 1985 e 86 seria novamente terceiro com Rover.

Para a temporada de 1986, a TWR junto à Jaguar, entram no WEC (World Sport Championship), conseguindo a vitória na primeira prova da temporada, os 1000 km de Silverstone e o terceiro lugar final no campeonato. Em 1987 a TWR-Jaguar já se consagraria campeã, com cinco vitórias, para repetir título em 1988 com seis vitórias, incluída Le Mans. Uma segunda vitória na mítica pista de La Sartre viria em 1990. Em sua última participação no campeonato em 1991, voltariam a levantar a taça de campeão.

Walkinshaw tinha esperanças de que a Jaguar desse o passo definitivo à Formula 1, mas quando ficou claro para Tom que isso não acabaria acontecendo, decide se aventurar sozinho na categoria de tal modo que, em meados de 1991, transcenderia a domínio público que Walkinshaw havia chegado a um acordo com Flavio Briatore, mediante o qual a TWR passava a deter boa parte das ações da escuderia Benetton. O acordo era bastante simples: Briatore se ocuparia da parte comercial e promocional, buscando os patrocinadores e financiamento necessários, enquanto que Tom se ocupava do bom funcionamento da equipe.

O resultado de tal associação não podia ser melhor, pois as vitórias e títulos não demoraram em chegar. Walkinshaw construiu uma equipe formidável, trazendo a bordo gente como Rory Byrne, Ross Brawn ou Pat Symmonds, mas, como diria Brawn, “é difícil ter dois galos no mesmo poleiro”.

Vamos adiante com a história de Tom Walkinshaw em nosso próximo encontro, em 3 de setembro

Abraços

Manuel Blanco

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

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