Supercampeões

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Motorsports: FIA Formula One World Championship 2011, Grand Prix of Italy, 07 Michael Schumacher (GER, Mercedes GP Petronas F1 Team),

Schumacher e Hamilton, sete Mundiais cada na F1; Fangio, cinco; Prost e Vettel, quatro; Brabham, Stewart, Lauda, Piquet e Senna, três. Dez pilotos, todos supercampeões. O que têm em comum, além da habilidade diferenciada pra vencer corridas – 442 em 1031 GPs e 42 em 71 Mundiais?

 

 

Ética?

Uma vez a usei pra desempatar um “quem é o melhor” entre Fangio e Senna, em favor do argentino. Sempre me senti tentado em usar a ética, o comportamento exemplar na pista e fora dela, como traço distintivo. Entre Fangio e Senna foi fácil, mas e quando envolvemos os demais?

Forçando um pouco a barra, considerando que todos são humanos, dá até pra deixar pra lá as grosserias de Piquet a Mansell, Enzo Ferrari e Galvão Bueno e também as manobras de Prost contra Senna nos tempos da McLaren. Afinal, Senna também jogava duro nos bastidores da equipe e teve aquela fechada em Portugal 88… Brabham, muita gente comenta, também era, digamos, rude no trato dos adversários, mas acho que o pessoal deixava pra lá, por ele ser australiano.

Mas como justificar Schumacher? Mesmo com todo mundo olhando, do começo ao final da carreira, ele não se furtou a abalroar colegas, mesmo quando disputava uma 10ª posição, como fez com Rubinho na Hungria 2010. A menos que se diga que Schumacher é a exceção que justifica a regra, melhor não misturar caráter em questões esportivas, mesmo porque, como observou recentemente o escritor Julián Fuks, é um equívoco “julgar que alguém exímio no que faz, excepcional em seu ofício, seria mais virtuoso e mais digno que os demais em todos os outros aspectos”.

 

 

Que tal a adaptabilidade?

Muitos supercampeões brilharam neste quesito, o maior deles, é minha opinião, sendo Piquet, capaz de vencer com diferentes tipos de motor, freios, configurações aerodinâmicas, regulamentos e equipes.

Mas alguns não passam neste teste. Vettel, por exemplo, conquistou seus quatro títulos com um tipo único de carro e sempre na mesma equipe. Com um novo regulamento e equipe, ele submergiu tristemente a partir da imposição dos motores híbridos e há quem identifique as suas dificuldades pela incapacidade de se adaptar aos freios depois do advento dos motores híbridos.

Hamilton também não pode ser elogiado pela versatilidade. Com os motores híbridos da Mercedes, largamente superiores à oposição, obteve 71 das suas 93 vitórias.

 

 

Se tentarmos a autocontenção como traço distintivo teremos, com certeza, algo a explorar.

Autocontenção é a qualidade de conter as próprias mãos mesmo diante do desejo premente de pegar algo que lhe é oferecido. Tem muita relação com aquilo que Stewart chamou de “quebrar a barreira da vitória”. Hamilton deu bons exemplos do que é autocontenção em suas três últimas vitórias, Nurburgring, Portimão e Imola.

Alargando um pouco o sentido de autocontenção, podemos entendê-la como o reino da racionalidade ante os instintos primitivos de agressividade e competitividade que movem um piloto. Estamos falando, em última instância, de civilidade e não deixa de ser surpreendente que supercampeões possam ser definidos por ela. O automobilismo de competição em seu pináculo é, como no caso do alpinismo, território de gente dominada por “uma tendência psiconeurótica”, como citou Jon Krakauer no livro Sobre Homens e Montanhas, ao contar a história de John Menlove Edwards, um dos pioneiros do alpinismo. “Não escalava por diversão, mas para refugiar-se do tormento interior que caracteriza a sua existência”.

Muito supercampeões certamente encontraram refúgio na F1 e aprenderam rápido a se autoconter, mas nem sempre é fácil. Senna, por exemplo, demorou a se conformar com as limitações da civilização e talvez tenha chegado a Imola 94 sem entendê-las ou aceitá-las totalmente. Outros pilotos, com amplo potencial para se tornarem supercampeões, jamais se renderam, o caso mais evidente sendo o de Gilles Villeneuve, refém até o final dos seus instintos mais primitivos.

 

 

Coragem? Sim, claro.

Valorizo muito este ponto, inclusive em relação à preservação à própria pele. Isso coloca, no meu ranking, Fangio à frente de Hamilton, por exemplo. Um acidente nos anos 50, não raro, terminava com o piloto voando para fora do carro, como aconteceu com argentino em Monza 52. Hoje, graças à bem-vindas medidas de segurança ativas e passivas, isso é bem mais difícil de acontecer. Não quer dizer, porém, que menos coragem seja exigida. A média horária do GP em Monza passou de 177 km/h em 52, com zero chicanes, para 244 km/h em 2019. No entanto, a prova em 52 durou 2h50 e a do ano passado 1h15. Em compensação, os carros de Fangio exigiam uma força física para serem conduzidos inimagináveis para os pilotos de hoje, beneficiados por Deus-sabe-quantos aparatos eletrônicos, servo-assistidos ou automatizados –, mas as forças G sofridas hoje são igualmente inimagináveis pelos pilotos do passado…

 

 

Um último item: sorte.

Ela é mais do que suficiente para explicar a ausência de muita gente na nossa lista, Moss, Clark, Andretti, Mansell e Alonso sendo os mais óbvios, mas também Ascari, Graham Hill, Rindt, Emerson e Hakkinen mereciam mais títulos. A falta de sorte custou dois a Clark, que poderia ter emendado quatro Mundiais entre 62 e 65.

O que faltou ao escocês ajudou praticamente todos os supercampeões e cito apenas o primeiro título de Hamilton – Interlagos 2008 – como prova. Não nos esqueçamos nunca: “a história é cega e resultado de infinitas ações que escapam ao nosso controle cognitivo e à nossa vontade. Nunca sabemos para onde vamos. Somos agentes da contingência, e não de um processo histórico racional”, escreveu Luiz Felipe Pondé recentemente, citando Tolstoi.

Verdade, mas… os supercampeões acharam um jeito de sobreviver à cegueira da história.

 

 

Paro por aqui. Não vou discutir a habilidade de cada um dos supercampeões. Há toda uma enciclopédia a ser escrita sobre eles e a época em que conquistaram tal condição. A sensibilidade, domínio técnico do carro, a força relativa dele e da equipe diante da oposição que cada um enfrentou e o ambiente global das competições, com suas exigências políticas, comerciais e mundanas que precisam ser tecidas em minúcias, não para se eleger o maior ou o menor dos supercampeões, porque tal exercício vai forçosamente esbarrar em considerações subjetivas, mas ao menos para estabelecer algumas bases de discussão.

 

 

E lá vou eu com minhas reminiscências rescendendo a naftalina.

Comecei a acompanhar a F1 em algum momento de 1968, meses depois de Clark ter quebrado o recorde de vitórias em GPs nas mãos de Fangio desde Nurburgring 57.

Depois disso, vi esta marca extraordinária ser quebrada por Stewart, Prost, Vettel, Schumacher e, agora, Hamilton, além de ter sido igualada por Lauda e superada por Mansell, Alonso e Senna. Meu primeiro ícone no automobilismo é, agora, apenas o 9º no ranking de maiores vencedores absolutos de GPs.

Visto por este ângulo, a conquista de Hamilton em Portimão perde um pouco do seu relevo, ao menos para mim. Já vi vários “melhores do mundo”. Melhor ir com calma aqui.

Não queria concluir, porém, sem polir a conquista do inglês: a percentagem de vitórias de Hamilton em relação às suas participações em GPs supera Clark – 35,1% x 34,7% – e só fica atrás agora das de Fangio – 47% – e Ascari – 40,6%. Schumacher, Vettel, Prost e Senna têm percentagens bem mais modestos neste ranking.

Os números não mentem. Hamilton é, de pleno direito, um supercampeão.

 

Abraços

 

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

4 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    edu,

    excelente coluna!!!

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Thiago Valério da Rocha disse:

    Escreva mais,

    Grande Abraço.

  3. Mauro Santana disse:

    Grande Edu, nos brindando com mais um belíssimo texto.

    Parabéns mais numa vez!

    Abraço!!

  4. Geraldo Flávio Chaves disse:

    Muito legal e interessante esta análise feita por você, Eduardo. Gostaria só de acrescentar quanto a adaptabilidade de Piquet, uma outra qualidade do
    Tricampeão, vencer campeonatos com pneus de marcas diferentes.

    Abs

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